Revista, Tradição 0

Modernos cavaleiros do Cariri

Sem gibão ou facão, os modernos cavaleiros do Cariri cavalgam, entre os carros e motos, pela rodovia que vai dos verdes canaviais de Barbalha até as terras do Cratinho de Açúcar, onde recebem a bênção do Pe. Edimilson Neves em frente à Igreja da Sé para, por fim, fazerem sua entrada triunfal na abertura da 65º Exposição Centro Nordestina de Animais e Produtos Derivados, a Expocrato. Ao som do trio musical que canta aboios, centenas de homens, mulheres e crianças exibem seus equinos favoritos e admiram os alheios sob o impiedoso sol cearense. É a 3º Grande Cavalgada O Chão Vai Tremer, única do gênero, que consegue reunir centenas de vaqueiros, cavaleiros e amazonas das principais cidades caririenses em confraternização pela tradição rural.

O fazendeiro George Rodrigues preparou-se com antecedência para o evento que já faz parte do seu calendário. Acompanhado do filho caçula, enfrentou a estrada e o calor para demostrar sua devoção à cultura à qual foi destinado: ser homem da terra, do mato, do gado. Nascido e criado na zona rural de Barbalha, George, 38, e seu filho Paulo, 11, afirmam, convictos, que não trocariam essa vida por nada. Rosto suado e vermelho, maltratado pelo sol, o mais jovem dos Rodrigues estava montado alguns minutos antes em seu próprio Mangalarga Marchador. De boné de couro no peito e lágrimas caindo ao reverenciar a música A Morte do Vaqueiro, de Luiz Gonzaga, ele não sabe explicar o porquê de tanta comoção. “Chora toda vez”, diz o pai.

George e Paulo, pai e filho, não trocam a vida no campo por nada (Fotos: Samuel Macedo)

George e Paulo, pai e filho, não trocam a vida no campo por nada (Fotos: Samuel Macedo)

Está no calendário do vaqueiro, mas quantos anos serão necessários para ser tradição? Para Rafael Mota, um dos organizadores da cavalgada, não é preciso tanto tempo quanto se possa imaginar. Entusiasmado com o número de participantes que o evento consegue atrair – e que aumenta a cada ano –, o também membro da Associação de Criadores do Cariri explica o festejo como um grande encontro de todas as cidades da região. “Queríamos fazer algo que integrasse todo esse pessoal e os colocasse em contato”, disse, ressaltando as redes de amizade e de negócios que se desenrolam ao longo do evento. Uma das missões dos organizadores, além da confraternização, é divulgar a raça Mangalarga Marchador pelo Cariri. Original de Minas Gerais, este tipo de cavalo é famoso por sua marcha rápida mas confortável, além do temperamento dócil e da grande resistência a longas distâncias.

Trata-se da raça preferida da amazona Ana Amélia, 22 anos, natural de Jardim, que monta desde os três anos de idade. Entre outras razões, Ana diz estar feliz por ver cada vez mais mulheres atuantes no movimento, e não só como acompanhantes. “Nós mulheres nos interessamos por esse esporte também, e por que não? É muito bom”, desafia. Apaixonada por cavalos e pelo sertão, ela diz que só não vai para vaquejadas – ainda popular na região, essa modalidade começa a perder adeptos, devido à desorganização dos eventos e às campanhas em defesa dos animais.

Montaria feminina: mulheres se destacam na cavalgava.

Montaria feminina: mulheres se destacam na cavalgava.

Prezar pela integridade do animal, o cavaleiro Rafael defende, é uma das principais preocupações de um bom criador. É preciso garantir o manejo correto, a segurança e a boa alimentação, pois seja para lazer ou comércio, cuidar bem do amigo equino é uma das maneiras de preservar a cultural do rural, tão tradicional e importante para o Cariri.  

 “Repare que as maiores movimentações pela região, com exceção das romarias, são de origem rural: a Festa de Santo Antônio em Barbalha, a Expocrato, os São João das cidades vizinhas…”, elenca, argumentando que o Cariri ainda vive e precisa da ruralidade. “Pode crescer, pode se urbanizar, mas a vida do campo, da agricultura ainda está presente no sangue do caririense, e ele precisa disso”, finaliza o cavaleiro.

A fé do povo: cavaleiro José Nilton com Nossa Senhora da Conceição Aparecida.

A fé do povo: cavaleiro José Nilton com Nossa Senhora da Conceição Aparecida.

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