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Colunas, Crônicas 0

Metade da vida é não entender coisa alguma

Acordara atordoada no meio da noite. Seu corpo encontrava-se banhado de suor. Sua boca dilatada. Seus olhos moviam-se rapidamente para qualquer. Buscava referências de onde estava. Não reconhecia nada. Por longo tempo assim ficou: desnorteada. Aos poucos o seu quarto ia se tornando o seu quarto. A respiração ofegante ia diminuindo ao ponto em que seus pensamentos aceleravam. Não conseguia entender nada.

Mais da metade da vida se trata disso: de não entender coisa alguma.

Olhava para suas mãos, ainda tremulas, buscando respostas do sonho que lhe assolara. A mão direita carregava três linhas, com três distintas inscrições ilegíveis. Pareciam textos com a letra minúscula. Talvez símbolos que tivessem histórias inteiras.

Era inútil. A técnica contida em sua mão era-lhe indecifrável. O conhecimento da técnica de taquigrafia nunca fora lhe revelado por Gregoria.

Alice olhava atentamente a sua mão, e sem esforço vinha à sua mente o límpido sonho que vivenciara. Não sabia ao certo se havia tido sonho ou pesadelo, mas lhe abatia o fato de não entender nada.

Ela deitou na cama, e voltou para o começo que pudera lembrar. Alice se via então em frente a uma trifurcação. Três caminhos lhe chamavam. Um senhor barbudo e sujo lhe dizia que era preciso entrar nos três caminhos. Um a cada vez, embora ao mesmo tempo em todos. “Como é possível percorrer três trajetos ao mesmo tempo”, pensava consigo. O velho começava a gargalhar sem se conter.

Deu o primeiro passo sem pensar em métodos. Nas paredes rochosas de cada entrada existiam um relógio, um cérebro e um coração. De repente, em seu sonho, ela foi acometida pelo tempo.

O passado e o futuro passavam em seus olhos, penetravam seu corpo. O presente tornou-se então um pedaço de nada, de duração mínima: Uma hora, vinte minutos, menos de três segundos.

Todo mal. Toda gente. Cada decepção, doenças e tormentas. Uma alegria ou outra em meio ao descontinuo da vida. Muitos pensamentos, muitas imagens, mas nada lhe fazia sentido. Via cada fato presente permeado de passado e de futuro. Via cenas em que não estivera presente. Observava cada palavras e atos que os seus proclamavam.

Todo o tempo em um só segundo.

Alice se sentia angustiada, não queria mais ver. Fechou inutilmente os olhos, mas não lhe custou saber que os olhos nada podiam impedir. Via com a alma. Queria fugir das imagens que se colocavam. Queria entender. Tudo estava lá, posto. Nada fazia sentido.

Foi então que acordou, com o coração apertado e o corpo banhado em suor. Ela gostaria de decifrar seus sonhos. Interpretar o sonho era interpretar a si mesma.


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