Arte e Cultura

Mestre Françuli, o inventor de Potengi

“Eu sou muito imaginativo, eu durmo pouco de noite, fico só imaginando”, sorri Mestre Françuli, nascido Francisco Dias de Oliveira, o agricultor de Potengi que virou inventor do sertão. “Ainda trabalho na roça, só que esse ano o inverno não deu. Perdi tudo”. Perdeu a roça, mas não perdeu a graça. Isso Françuli não perde Saiba mais

Por Cláudia Albuquerque • 2 de março de 2018

“Eu sou muito imaginativo, eu durmo pouco de noite, fico só imaginando”, sorri Mestre Françuli, nascido Francisco Dias de Oliveira, o agricultor de Potengi que virou inventor do sertão. “Ainda trabalho na roça, só que esse ano o inverno não deu. Perdi tudo”. Perdeu a roça, mas não perdeu a graça. Isso Françuli não perde jamais. Na sala azul-como-o-céu onde conversamos, ele mostra os primeiros modelos que fez na vida, pequenos aviões sem cabine, de forma arredondada, num design ainda infantil. “Hoje eu reproduzo tudo. Quando eu vejo uma revista de avião, eu pego pra mim”.

Françuli: um nome engraçado para um homem que ri com os olhos. Apelido que veio da infância, assim como os inventos. “Desde a idade de seis anos eu comecei a criar”. Criar, recriar, recortar, imaginar. Françuli ficou em êxtase quando avistou pela primeira vez um avião. Aquele objeto voador cruzando os céus do sertão, lá pelos idos de 1948, foi uma aparição fugaz que virou alumbramento para o menino da roça. “Eu tava lá trabalhando quando o bicho passou. Fiquei olhando e pensando, olhando e pensando: ah, se eu voasse alto desse jeito. Os meus amigos mangaram muito”.

 

Mestre Françuli (Fotos: Rafael Vilarouca).

 

Amigos nem sempre entendem, mas alguns encontros são definitivos. Françuli, moleque buliçoso da terra dos ferreiros, nunca mais tirou aquelas asas do pensamento. “De noite, em casa, eu nem dormi. Aquilo ficou em mim. Impressionei! Como é que aquele avião voava? Só depois descobri que tudo o que pesa mais que o ar levanta, basta ter impulsão!”. Consequência natural do primeiro encontro, a fabricação caseira de protótipos desdobrou-se intensa. Com pedaços de imburana ou latas velhas, o menino se empenhava em modelos toscos, de desenho improvisado. “Eu só via os aviões de baixo pra cima, voando rápido, então nem sabia que avião tinha cabine”.

Françuli só descobriu a janela quando viu uma aeronave no chão, ainda que de longe. “Sim, tinha vidro! Aí eu aperfeiçoei os meus modelos”. Anos mais tarde, em Fortaleza, pôde finalmente admirar uma máquina voadora de perto. De lá para cá, aprimorou técnicas, introduziu cores, inventou detalhes e chegou a 16 diferentes modelos. Continuou cuidando da roça, mas abriu uma oficina e virou celebridade local. Suas invenções vão além do horizonte e incluem uma engenhoca para tirar água em poço cartesiano, um cone que ajuda na degola de frangos e um recipiente para assar bolos em fogões de barro.

 

UM MUSEU PARA O INVENTOR

O endereço é fácil de decorar: Beco do Françuli, sem número. É lá que vai funcionar o Museu Inventor do Sertão, totalmente dedicado às obsessões de um moleque septuagenário que ama tudo o que voa, inclusive passarinhos, borboletas e pavões, que ele faz com folhas flexíveis de flandres. O museu será o primeiro aberto em Potengi, cidade onde Françuli mantém até hoje a sua oficina, embora há alguns anos more no Araripe. Em tempo: o percurso de 20 km entre uma cidade e outra ele faz na TEX 50, a moto que criou a partir de objetos inusitados, incluindo peças de guarda-chuva. “É bem boazinha de andar!”, garante o motorista, que não tem habilitação e despista as blitzes com um argumento simples: “Isso não é veículo! É artesanato!”.

O Museu Inventor do Sertão é puro deleite naïf, uma sala azul celeste com objetos alados de sonhos infantis recorrentes. Tem avião com bateria que gira a hélice. Tem um pequeno ultraleve que “quase” voa. Tem helicóptero com alavanca e banquinho dentro. Tem balão de todas as cores e tamanhos. Tem discos voadores prateados. Um lindo dirigível cinza, alguns caças americanos, um foguete muito elegante e um enorme 14 Bis. No meio deles, sem muita explicação, um navio. “Vi em Fortaleza e reproduzi”, explica seu Françuli, dando de ombros.

Depois acrescenta, em tom sério, mas de sorriso aberto: “Eu sempre tive vontade de deixar uma história aqui no Potengi, desde criança, quando eu inventava meus aviõezinhos. Um dia eu disse pro Titus (prof. Titus Riedl, historiador, pesquisador e fotógrafo alemão radi- cado no Cariri): ‘puxa, eu queria era deixar um museu’. Aí ele falou: ‘pois nós vamos fazer’”. O professor da URCA doou vários aviões que havia comprado de Françuli, e eles foram juntando um acervo para o museu, que contou com a ajuda de outros colecionadores. O espaço é a antiga oficina de Françuli, que hoje trabalha numa salinha ao lado, onde mantém pavões e flores de lata pregados na parede.

 

Obras em grande e pequena escala (Fotos: Rafael Vilarouca).

 

Os instrumentos de trabalho são obviamente criados pelo mestre. “Só tem três ferros que eu comprei na vida: uma máquina de solda, um esmeril e um torno. O resto tudim foi eu quem fiz”, enfatiza. De suas mãos inventivas saem belos candeeiros em forma de lua – em suas diferentes fases, além de candeeiros no feitio de aviões, claro. A maravilha de viajar numa aeronave de verdade ele diz que já experimentou, graças a Deus. Aliás, graças ao juiz de Direito de Amapá, que lhe deu uma passagem para ir até lá. Amigo importante é peça que não falta no museu de Françuli. Muitos acadêmicos, curiosos e admiradores andam por lá. Ele se orgulha do contraste: “Nunca entrei numa sala de aula nem pra dar um recado. Nunca estudei, mas assino meu nome e sei ler muita coisa”. A especialidade do menino Françuli continua sendo a mesma desde os seis anos de idade: recriar em terra o que viu no céu.

A TERRA DOS FERREIROS

Potengi é um município caririense com cerca de 10.000 habitantes. Faz fronteira com Araripe, Assaré, Campos Sales, Salitre e Santana do Cariri. O nome da cidade vem do tupi-guarani e significa “água ou riacho dos camarões”. Já teve destaque na produção de algodão. Hoje é conhecida como “a cidade que não dorme”, por causa da grande quantidade de ferreiros – eles iniciam a lida à noite, fugindo do calor, e encerram o expediente ao raiar do dia. Apesar de pequena em tamanho, a cidade é grande em cultura. É terra de danças quilombolas, de rendas de bilros e de reisados. Reisados como o dos Caretas de Sassaré, comandado pelo Mestre Antônio Luís, que ainda usa máscaras de couro. É também a terra que a artesã juazeirense Josefa Pereira de Araújo, a dona Zefinha, escolheu para viver, fabricando suas belas redes, que fazem sonhar ao simples toque. Atuante, a Associação Cultural Xique-Xique tem procurado incentivar as artes e manifestações populares. No ano passado, o mês do folclore (agosto) fechou com um grande encontro: Mestre Antônio Luiz recebeu em terreiro o Mestre Cicinho do Reisado, Manoel Messias de Juazeiro do Norte e o Mestre Cirilo com o Maneiro Pau do Crato.

 

SERVIÇO

Museu Inventor do Sertão
Rua Beco de Françuli, s/n
Centro – Potengi


Reportagem publicada na CARIRI Revista edição 8.

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Cláudia Albuquerque