FILM  ' Bridget Jones: The Edge of Reason '  (2004)
Picture shows :  RENEE ZELLWEGER
Colunas, Crônicas 0

Mensagem para Jones (ou a liberdade para a saia)

Cara Srta. Jones,

Apesar de não parecer educado, li seu diário. Quando te encontrei pela primeira vez eu era bem jovem, estávamos nós duas em momentos diferentes da vida, te achei hilária, mas triste.  A sua tristeza risível sempre me inquietou.

A leitura do teu diário hoje fez com que antigas questões retomassem força e se impusessem a mim. Ah, Bridget! Quantas de nós se enxergaram em você! Como a condição feminina e seus dilemas ganhou um tom jocoso contigo! A fragilidade do feminino fez-se piada, mas não é nem de longe engraçada na realidade.

Acredito que o estereótipo de solteirona, que te causou tanta ansiedade, ainda tem raízes fortes dentro de uma grande quantidade de mulheres! Por isso decidi te escrever! Talvez você não seja mais tão popular em 2016, mas foi vendo você que muitas mulheres como eu foram ensinadas a serem mulheres.

O Diário de Bridget Jones/Divulgação

O Diário de Bridget Jones/Divulgação

O casamento perdeu um pouco de espaço, mas ainda somos separadas em dois grupos básicos: as “mulheres pra casar” e as “mulheres para uma noite só”.  Apesar de termos entre nós uma distância de quase 20 anos, no que diz respeito aos grupos básicos em que as mulheres são enquadradas é como se o tempo não tivesse passado. Para se enquadrar no primeiro grupo muitas de nós abrem mão de quem são de verdade. Casar ainda representa a mais “nítida” segurança da qual uma mulher pode desfrutar.

Senti através do teu diário que você estava localizada em algum lugar entre esses dois grupos básicos. Você quer um lugar no grupo “pra casar”; mas a mulher que você é vibra com intensidade e te impede de representar o papel de “mulher perfeita”. Você não precisa localizar-se em grupo nenhum, Bridget.

 Você se preocupa com seu peso exageradamente, contabiliza quanto bebe, quanto fuma e quanto chocolate come, certamente você tem um padrão como paradigma e tenta enquadrar-se. Quantas dessas preocupações são por você mesma?

O fato, querida Bridget, é que a mulher perfeita só pode ser representada, ela não me parece existir genuinamente e penso que esforçar-se para aproximar-se desse paradigma é furada.

O Diário de Bridget Jones/Divulgação

O Diário de Bridget Jones/Divulgação

Eu te li, página após páginas, ir e vir entre você e o papel de mulher perfeita, logo em seguida voltar a si num rompante de reconhecimento de si mesma; são esses retornos a si que me fizeram te acompanhar.

Desde a primeira página eu quis que você se reconhecesse. Por fim, você encontrou amor em Mark Darcy, mas que clichê Bridget! Advogado, rico, inteligente – tão irreal quanto a mulher perfeita é o homem perfeito. Você alimentou a imaginação de uma infinidade de mulheres com a fantasia de que o homem perfeito é capaz de amar a desajeitada, beberrona, gorda, insegura, chorona e tudo mais, sobretudo porque é perfeito. Bridget! Se reconhecer só foi possível quando você fez do outro o impossível.

Eu precisava te reencontrar, srta. Jones. Eu precisava te dizer que uma tristeza risível é bem pior que uma tristeza qualquer.

Vamos tomar um drink?


Esta é uma coluna de opinião. As informações e ideias expressas neste espaço são de responsabilidade única do autor.

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