Consumo e Estilo

Me vê um PF e uma cajuína

Com R$ 15,00 no bolso, nossa repórter se entranhou na maior romaria de Juazeiro do Norte em busca do roteiro gastronômico popular perfeito.
Por Alana Maria • 19 de janeiro de 2017

Quem gosta de viajar sabe que uma das melhores experiências de cair na estrada é provar novos sabores. Mas qualquer viajante assíduo quebra a cara quando conhece um tradicional romeiro das terras de Padre Cícero. Das práticas de uma vida inteira de romarias, onde a penitência é a lei maior, o visitante aprendeu a ser conservador: fica no mesmo rancho, almoça no mesmo restaurante, visita os mesmos lugares. É a regra, mas tem suas exceções.

Durante a Romaria de Finados, a maior do ano em Juazeiro do Norte, a concentração de pessoas em bares e restaurantes populares triplicam e o tempero dos pratos varia de acordo com o perfil do cliente. Alguns mais críticos e tradicionais, não gostam nada da culinária por essas bandas do Ceará. Sal demais, óleo demais, gordura demais, farinha de pouco. Então os restaurantes se viram como podem para adaptar seu cardápio e conquistar a clientela.

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Severina Joana, de Jaboatão dos Guararapes, almoça no mesmo restaurante toda romaria (FOTOS: Samuel Macedo).

AUTÊNTICO

Nesse autêntico roteiro romeiro, a primeira parada é o Barracão do Romeiro, próximo à Igreja da Matriz. Aberto apenas nas datas de fé, o Barracão é famoso por seu self-service com direito a duas opções de carnes pelo preço mais camarada do mercado, R$ 10. Passar em frente ao literal barracão de metal em horário de pico é deparar-se com uma fila de dar voltas e voltas. “Ontem começamos às 10h e até 14h ainda tinha gente comendo de tão grande que tava a fila”, conta a cozinheira Marlene Granjeiro. Mesas de plástico vermelho estão dispostas sem cerimônia no chão de terra. A poeira levanta, mas ninguém se importa. O importante é comer bem e comer logo. Mais pedido da casa: baião de feijão verde com carne de carneiro.

Subindo a rua Padre Cícero, logo em frente à praça de mesmo nome, o Restaurante e Pizzaria do Aluísio se encontra lotado. No pequeno espaço de refeições, pessoas desfrutam seus pratos feitos e de geladas cajuínas de garrafa de vidro. Aluísio, o próprio, há mais de 30 anos com o estabelecimento comemora os 400 pratos, em média, que saem todo almoço nos dias de romaria. “O fluxo melhora e eles gostam de nossa comida. Temos clientes que só comem aqui há anos”, ele diz, comemorando a fidelidade. Mais pedido da casa: arroz branco, feijão mulato, macaxeira cozida e bife.

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Ninguém ousa deixar Juazeiro do Norte sem levar um tijolo de rapadura (FOTOS: Samuel Macedo).

Na primeira mesa de Aluísio, Branca Angela, de Cachoeirinha, Pernambuco, reclina-se na cadeira olhando as fotos que bateu naquela manhã enquanto espera as colegas terminarem de almoçar. “Faz 10 anos que venho para as romarias e almoço aqui desde que conheci o lugar”, conta, ainda relevando que além da comida boa, não procuram luxo, mas simpatia. “Como qualquer pessoa, romeiro só quer ser bem tratado, não é? Merecemos, não é?”.

Não é segredo que nem todo lugar da cidade a famosa hospitalidade cearense vale para os de fora. Uma antiga nuvem de hostilidade passeia por Juazeiro em tempos de romaria. Eles sujam a cidade, enchem as ruas e tornam o transito um inferno, alguns repetem em discurso odioso que reflete na fria indiferença para tratar até mesmo negócios comerciais com os visitantes.

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Tem vida na praça dos Franciscanos (FOTOS: Samuel Macedo).

Existem romarias e romarias. De janeiro a setembro, a concentração de pessoas é maior próximo à Matriz, onde ficam o bairro do Socorro, Centro e Salesianos. De novembro em diante, pegando a romaria de Finados e Ciclo Natalino, o bairro dos Franciscanos ganha destaque. E desde que a praça próxima ao santuário foi revitalizada, o setor de bares e restaurantes ali cresceu, beneficiando os moradores e romeiros, que ganham mais uma opção de lazer.

Nos cinco dias de peregrinação, barraqueiros tomam de conta de cada metro quadrado de chão da praça dos Franciscanos. “Dentro e fora das romarias, o pessoal tá se esquecendo da praça Padre Cícero e vindo pra cá, onde as opções de cardápio e lazer é bem maior”, afirma Robéria Desyanne Ferreira, gerente do Point da Macaxeira. O aumento no fluxo de pessoas é tamanho que os números no estabelecimento facilmente duplicam. Especialidade da casa, são consumidos 60 kg de macaxeira por dia, onde normalmente se consome entre 25 e 30 kg. Pelo aumento da demanda, dobra-se também funcionários na cozinha e atendimento. Mais pedido da casa: macaxeira com carne de sol.

“É de manhã e de noite, não para! Praticamente 24h. Tem gente que 10h da manhã já pergunta se tem almoço”, ela ri. Com faturamento na casa dos R$ 30 mil, Robéria avalia que o lado que pesa para o sucesso do restaurante – “modéstia à parte”, ressalta – é a qualidade da comida, o preço acessível e a aposta nos PF’s. “Romeiro gosta é de arroz, feijão e carne. Gosta de comer bem e de P.F”, diz.

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Especialidade da praça: carne e linguiça picada no pão ou pratinho com baião de dois (FOTOS: Samuel Macedo).

Vânia Sousa, gerente da pizzaria Atraente, concorda em tom de lamentação. Para seu investimento, a romaria não traz benefícios significantes. “A tradição deles para a culinária é outra. Como são pessoas mais simples, de sítios e distritos, sua procura vai mais para jantas ou lanches como pastel”, justifica. Apesar disto, acredita que a movimentação que traz à praça é importante para todos.

Há quem, mesmo fechando as portas durante as romarias, de alguma forma se beneficie com elas. É o caso de Aruza Magalhães, gerente de O Rei do Espetinho. Em novembro, baixa as portas de seu estabelecimento e aluga os parcos metros de chão à frente de sua propriedade para barraqueiros. “Fica insustentável deixar o bar aberto durante a romaria aqui em cima. São tantas barracas tomando a praça que não há como disputar, por isso mesmo alugo por R$ 600 o espaço e vou descansar”, explica. Ao ser questionada se considera a atividade ruim para o negócio, dispara: “não posso questionar ou achar nada, porque romaria é algo que existe desde sempre aqui, faz parte de algo muito maior do que um negócio, é a cultura das pessoas”.

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Já virou tradição (FOTOS: Samuel Macedo).

DO QUE O ROMEIRO GOSTA?

“Nosso baião tem mais arroz que feijão, certo? Pois os romeiros acham isso uó! Pra eles tá a coisa mais errada de se fazer, porque tem que ter mais feijão do que arroz. E tem que ter muita farinha. Dale farinha!” – Robéria Desyanne Ferreira, do Point da Macaxeira.

“Tem que pegar leve com a gordura, porque romeiro não gosta de óleo. Dar comida oleosa é mesmo que mandar romeiro jogar prato fora. E também não pode faltar opções de frutas. Eles adoram chupar uma laranja depois do almoço”Marlene Granjeiro, do Barracão do Romeiro.

“Nunca sobra macaxeira, nem farofa, nem carne de gado. É o que mais sai nos pratos. Não exagerar no sal é o segredo” Aluísio Silva, do Restaurante e Pizzaria do Aluísio.

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Não pode faltar tempero (FOTOS: Samuel Macedo).

UM ROTEIRO POPULAR PELOS FRANSCISANOS

Uma casquinha de morango ou um sundae de chocomenta com tapioca. Sorvete caseiro e bom é na Milky.

Mais de 40 sabores de pastéis fazem o sucesso da famosa Sales Pastelaria, próximo à Igreja.

Pizza bem recheada à moda da casa, com massa grossa e borda crocante é na Pizzaria Atraente.

Sentar à beira da avenida, ver a movimentação da praça, tomar uma boa cerveja com petiscos de qualidade é no Rei do Espetinho.

Da mesma família e receita do famoso Paulo da Macaxeira, o Point da Macaxeira, em frente à praça, faz sucesso o prato Mistão, que leva quatro opções de carne e serve bem até cinco pessoas.

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