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Me vê um PF e uma cajuína

Com R$ 15,00 no bolso, nossa repórter se entranhou na maior romaria de Juazeiro do Norte em busca do roteiro gastronômico popular perfeito.

Quem gosta de viajar sabe que uma das melhores experiências de cair na estrada é provar novos sabores. Mas qualquer viajante assíduo quebra a cara quando conhece um tradicional romeiro das terras de Padre Cícero. Das práticas de uma vida inteira de romarias, onde a penitência é a lei maior, o visitante aprendeu a ser conservador: fica no mesmo rancho, almoça no mesmo restaurante, visita os mesmos lugares. É a regra, mas tem suas exceções.

Durante a Romaria de Finados, a maior do ano em Juazeiro do Norte, a concentração de pessoas em bares e restaurantes populares triplicam e o tempero dos pratos varia de acordo com o perfil do cliente. Alguns mais críticos e tradicionais, não gostam nada da culinária por essas bandas do Ceará. Sal demais, óleo demais, gordura demais, farinha de pouco. Então os restaurantes se viram como podem para adaptar seu cardápio e conquistar a clientela.

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Severina Joana, de Jaboatão dos Guararapes, almoça no mesmo restaurante toda romaria (FOTOS: Samuel Macedo).

AUTÊNTICO

Nesse autêntico roteiro romeiro, a primeira parada é o Barracão do Romeiro, próximo à Igreja da Matriz. Aberto apenas nas datas de fé, o Barracão é famoso por seu self-service com direito a duas opções de carnes pelo preço mais camarada do mercado, R$ 10. Passar em frente ao literal barracão de metal em horário de pico é deparar-se com uma fila de dar voltas e voltas. “Ontem começamos às 10h e até 14h ainda tinha gente comendo de tão grande que tava a fila”, conta a cozinheira Marlene Granjeiro. Mesas de plástico vermelho estão dispostas sem cerimônia no chão de terra. A poeira levanta, mas ninguém se importa. O importante é comer bem e comer logo. Mais pedido da casa: baião de feijão verde com carne de carneiro.

Subindo a rua Padre Cícero, logo em frente à praça de mesmo nome, o Restaurante e Pizzaria do Aluísio se encontra lotado. No pequeno espaço de refeições, pessoas desfrutam seus pratos feitos e de geladas cajuínas de garrafa de vidro. Aluísio, o próprio, há mais de 30 anos com o estabelecimento comemora os 400 pratos, em média, que saem todo almoço nos dias de romaria. “O fluxo melhora e eles gostam de nossa comida. Temos clientes que só comem aqui há anos”, ele diz, comemorando a fidelidade. Mais pedido da casa: arroz branco, feijão mulato, macaxeira cozida e bife.

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Ninguém ousa deixar Juazeiro do Norte sem levar um tijolo de rapadura (FOTOS: Samuel Macedo).

Na primeira mesa de Aluísio, Branca Angela, de Cachoeirinha, Pernambuco, reclina-se na cadeira olhando as fotos que bateu naquela manhã enquanto espera as colegas terminarem de almoçar. “Faz 10 anos que venho para as romarias e almoço aqui desde que conheci o lugar”, conta, ainda relevando que além da comida boa, não procuram luxo, mas simpatia. “Como qualquer pessoa, romeiro só quer ser bem tratado, não é? Merecemos, não é?”.

Não é segredo que nem todo lugar da cidade a famosa hospitalidade cearense vale para os de fora. Uma antiga nuvem de hostilidade passeia por Juazeiro em tempos de romaria. Eles sujam a cidade, enchem as ruas e tornam o transito um inferno, alguns repetem em discurso odioso que reflete na fria indiferença para tratar até mesmo negócios comerciais com os visitantes.

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Tem vida na praça dos Franciscanos (FOTOS: Samuel Macedo).

Existem romarias e romarias. De janeiro a setembro, a concentração de pessoas é maior próximo à Matriz, onde ficam o bairro do Socorro, Centro e Salesianos. De novembro em diante, pegando a romaria de Finados e Ciclo Natalino, o bairro dos Franciscanos ganha destaque. E desde que a praça próxima ao santuário foi revitalizada, o setor de bares e restaurantes ali cresceu, beneficiando os moradores e romeiros, que ganham mais uma opção de lazer.

Nos cinco dias de peregrinação, barraqueiros tomam de conta de cada metro quadrado de chão da praça dos Franciscanos. “Dentro e fora das romarias, o pessoal tá se esquecendo da praça Padre Cícero e vindo pra cá, onde as opções de cardápio e lazer é bem maior”, afirma Robéria Desyanne Ferreira, gerente do Point da Macaxeira. O aumento no fluxo de pessoas é tamanho que os números no estabelecimento facilmente duplicam. Especialidade da casa, são consumidos 60 kg de macaxeira por dia, onde normalmente se consome entre 25 e 30 kg. Pelo aumento da demanda, dobra-se também funcionários na cozinha e atendimento. Mais pedido da casa: macaxeira com carne de sol.

“É de manhã e de noite, não para! Praticamente 24h. Tem gente que 10h da manhã já pergunta se tem almoço”, ela ri. Com faturamento na casa dos R$ 30 mil, Robéria avalia que o lado que pesa para o sucesso do restaurante – “modéstia à parte”, ressalta – é a qualidade da comida, o preço acessível e a aposta nos PF’s. “Romeiro gosta é de arroz, feijão e carne. Gosta de comer bem e de P.F”, diz.

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Especialidade da praça: carne e linguiça picada no pão ou pratinho com baião de dois (FOTOS: Samuel Macedo).

Vânia Sousa, gerente da pizzaria Atraente, concorda em tom de lamentação. Para seu investimento, a romaria não traz benefícios significantes. “A tradição deles para a culinária é outra. Como são pessoas mais simples, de sítios e distritos, sua procura vai mais para jantas ou lanches como pastel”, justifica. Apesar disto, acredita que a movimentação que traz à praça é importante para todos.

Há quem, mesmo fechando as portas durante as romarias, de alguma forma se beneficie com elas. É o caso de Aruza Magalhães, gerente de O Rei do Espetinho. Em novembro, baixa as portas de seu estabelecimento e aluga os parcos metros de chão à frente de sua propriedade para barraqueiros. “Fica insustentável deixar o bar aberto durante a romaria aqui em cima. São tantas barracas tomando a praça que não há como disputar, por isso mesmo alugo por R$ 600 o espaço e vou descansar”, explica. Ao ser questionada se considera a atividade ruim para o negócio, dispara: “não posso questionar ou achar nada, porque romaria é algo que existe desde sempre aqui, faz parte de algo muito maior do que um negócio, é a cultura das pessoas”.

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Já virou tradição (FOTOS: Samuel Macedo).

DO QUE O ROMEIRO GOSTA?

“Nosso baião tem mais arroz que feijão, certo? Pois os romeiros acham isso uó! Pra eles tá a coisa mais errada de se fazer, porque tem que ter mais feijão do que arroz. E tem que ter muita farinha. Dale farinha!” – Robéria Desyanne Ferreira, do Point da Macaxeira.

“Tem que pegar leve com a gordura, porque romeiro não gosta de óleo. Dar comida oleosa é mesmo que mandar romeiro jogar prato fora. E também não pode faltar opções de frutas. Eles adoram chupar uma laranja depois do almoço”Marlene Granjeiro, do Barracão do Romeiro.

“Nunca sobra macaxeira, nem farofa, nem carne de gado. É o que mais sai nos pratos. Não exagerar no sal é o segredo” Aluísio Silva, do Restaurante e Pizzaria do Aluísio.

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Não pode faltar tempero (FOTOS: Samuel Macedo).

UM ROTEIRO POPULAR PELOS FRANSCISANOS

Uma casquinha de morango ou um sundae de chocomenta com tapioca. Sorvete caseiro e bom é na Milky.

Mais de 40 sabores de pastéis fazem o sucesso da famosa Sales Pastelaria, próximo à Igreja.

Pizza bem recheada à moda da casa, com massa grossa e borda crocante é na Pizzaria Atraente.

Sentar à beira da avenida, ver a movimentação da praça, tomar uma boa cerveja com petiscos de qualidade é no Rei do Espetinho.

Da mesma família e receita do famoso Paulo da Macaxeira, o Point da Macaxeira, em frente à praça, faz sucesso o prato Mistão, que leva quatro opções de carne e serve bem até cinco pessoas.

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