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Maria Alacoque: primeira senadora e madrinha de Juazeiro

Em um mar de barbas e paletós, uma requintada mulher se eleva. Maria Alacoque Bezerra de Menezes fez honra ao sobrenome que carregou: primeira mulher nordestina no Senado Federal, distinta educadora e administradora, amante da cultura e eminente filantropa. Nesta edição, o especial Grandes Juazeirenses homenageia a “madrinha” de Juazeiro do Norte

Maria Alacoque foi uma mulher de destaque em uma terra e uma época onde apenas homens conquistavam. Educadora, empresária e administradora, a primogênita de Maria Amélia e José Bezerra de Menezes foi a primeira mulher nordestina, assim como a terceira entre as brasileiras, a ocupar cadeira como senadora na Câmara Alta por eleição direta. Popularmente batizada de “madrinha” de Juazeiro do Norte, Alacoque dirigiu instituições filantrópicas e dedicou sua vida às questões relacionadas à saúde da mulher e aos direitos das crianças e dos adolescentes.

Nascida em berço tradicional, visto que seus avós são personagens notórios na ocupação original do que hoje conhecemos pelo Cariri cearense — sendo estes descendentes de emigrantes portugueses donatários da capitania de Pernambuco —, Maria Alacoque Bezerra de Menezes deu continuidade à tradição familiar de presença em relevantes postos políticos, apesar de, diferentemente de seus irmãos Adauto, Orlando e Humberto, não ter sido criada para a vida política convencional.

 

Os Bezerra de Menezes sempre tiveram profundas ligações políticas no Ceará. Ao lado dos irmãos Adauto, Orlando e Humberto, Maria Alacoque deu continuidade à esta tradição familiar (Fotos: Arquivo Pessoal / Nildo Rodrigues)

 

Foi designada a trabalhar na área da educação, como era de praxe para as mulheres abastadas de outrora, e sua desenvoltura pedagógica era tamanha que a faria ser popularmente conhecida pelo diálogo e diplomacia, razões pelas quais foi bem-sucedida no setor educacional. Levou em seu currículo títulos de professora, diretora do Grupo Escolar Padre Cícero, vice-diretora da Escola Normal Rural e, posteriormente, delegada regional da Secretaria de Educação do Ceará.

Alacoque foi eleita segunda suplente na chapa do senador cearense Virgílio Távora, morto em 1988, depois que o primeiro suplente, José Afonso Sancho, foi afastado por razões de saúde em 1989. Ela assumiu o cargo de senadora do Brasil até 1990. Neste intervalo, propôs projetos importantes para o país, como a municipalização da merenda escolar e a garantia de piso salarial para início de carreira do magistrado público, ambos arquivados — talvez por questões relacionadas ao patriarcado político.

Fiel ao pensamento político familiar, a senadora Alacoque Bezerra foi filiada ao Partido Democrático Social (PDS), do presidente Tancredo Neves, e ao Partido da Frente Liberal (PFL), divisões da antiga Aliança Renovadora Nacional (Arena) — desde 2007 reconstruído como Democratas (DEM) —, organizações historicamente ligadas a ideais conservadores. Em Juazeiro do Norte, foi presidente de honra do PFL regional.

 

Jovem Maria Alacoque: educadora, administradora e primeira nordestina no Senado Federal.

 

Antes de Alacoque, apenas duas outras mulheres chegaram até o cargo: a senadora Eunice Michiles pelo estado do Amazonas, e a senadora Laélia de Alcântara pelo Acre. Ao longo da história do Brasil, apenas 28 candidatas foram eleitas para o Senado, embora as mulheres representem 51,7% dos eleitores brasileiros. Por mandato, a média de representação feminina é de 9% na Câmara de Deputados e 10% no Senado.

Em outros campos da vida, lançou-se como escritora com a obra biográfica em homenagem ao pai, intitulada José Bezerra de Menezes, o pacificador, e em poesias amadoras. Demonstrando grande interesse pela cultura e artes em geral e por sua valorização, foi sócia-fundadora do Instituto Cultural do Vale Caririense e do Centro de Cultura Juazeirense. Em 1997, chegou a ser agraciada com o título “Mulher Destaque do Município”, honraria concedida pela Câmara de Vereadores de Juazeiro do Norte.

 

Com a mãe Maria Amélia.

 

Não por acaso Maria Alacoque, devota de Padre Cícero, leva o título popular de “madrinha” de Juazeiro do Norte, como descreve o jornalista Blanchard Girão em biografia. Constituída em uma família simbolicamente, economicamente e politicamente dominante, soube fazer uso dessa vantagem para dar mão amiga aos mais pobres e desfavorecidos da terra.

Foi casada com José Maria de Figueiredo, com quem teve três filhos: Francisco Ivanhoé, Amélia Maria e Margarida Magda. A primeira senadora do Nordeste faleceu em 2012, aos 91 anos, na capital do estado, Fortaleza, por complicações cardíacas devido a um acidente vascular cerebral. Lembrada com carinho por amigos e parentes, também ficará na memória de todas as nordestinas aquela que abriu os caminhos.

 


Com informações colaboradas de Daniel Walker e Raimundo Araújo.

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