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Marcondes vai ser doutor

Filho de agricultor e nascido em um assentamento do MST, Marcondes Guedes foi aprovado em Medicina na UFCA

Eu poderia começar dizendo que ele sempre quis ser médico, apesar do clichê, apesar de ser assim que geralmente introduzem alguém. Até porque é mais fácil pensar que Ella Fitzgerald sempre quis cantar, Gisele Bundchen sempre quis ser modelo e Eduardo Cunha sempre quis ter dinheiro. Mas é verdade, ele sempre quis ser médico – e não tinha dúvidas de que um dia seria. Ella deu duro, passou fome e frio, Gisele teve a sorte de estar no lugar certo e na hora certa, Cunha tem lá seu talento achacador, e Marcondes Guedes, que sempre quis ser médico, nasceu em um acampamento do MST, nasceu meio preto, nasceu da Silva, nasceu temporão, filho de agricultor, o 9º em uma casa onde cinco homens e três mulheres já passavam dos 20 anos.

A chegada de um grupo do Movimento Sem Terra em 1991 para instalar o Assentamento 10 de Abril em um campo a 37km do Crato não foi a coisa mais surpreende a acontecer naquele lugar. Décadas antes, em 1936, o Caldeirão de Santa Cruz do Deserto, velho conhecido (e esquecido) nosso, foi abatido a mando do governador Meneses Pimentel. Seus pais subiram o Assentamento logo no começo da ocupação, quando ele era agricultor e ela uma agente de saúde. Cinco anos depois, chegou Marcondes. Como a maioria dos filhos da luta, Marcondes se sentia pouco tocado pela ideia de herdar o sonho do Beato José Lourenço, que viu bombas destruírem a comunidade que ele queria construir naquele chão. Seus pais sofreram para chegar ali, eles sofriam para sair.

Pessoas da comunidade ensinavam na escolinha que recebia crianças da creche à 4ª série. Para estudar no Fundamental II, eles precisavam caminhar 5km para o sítio Monte Alverne, enquanto o Ensino Médio era um desafio ainda maior, o chefão do jogo da educação: a escola mais próxima estava a 15km, no sítio Santa Fé, para onde uma única D-20 se dirigia somente à noite. Era o jeito. Marcondes aprendeu quase nada no 1º ano, voltando da escola praticamente de madrugada, estudando sozinho e interpretando como podia as explicações nos livros. Ele talvez não soubesse ainda que a variação de energia cinética é calculada diminuindo o delta da energia final pela inicial, que a classificação taxonômica dos seres vivos começa em reino e termina em gênero, que por não saber nem isso ele não merecia cursar Medicina em uma das universidades mais disputadas do país. Como disse no clichê, ele só sabia que seria médico.

Marcondes preferiu fazer o 1º ano do ensino médio de novo, dessa vez no IFCE do Crato, o antigo Colégio Agrícola, porque o ensino e as condições de acesso eram melhores – ele ainda teve de meter a cara nos livros por conta própria e rodar quilômetros todos os dias, de casa para a escola. Quando se formou (depois de quase quatro anos, por conta das duas greves que a instituição enfrentou durante o período em que Marcondes esteve lá), ele tirou 675 na nota do Enem, o que lhe garantiria aprovação em Direito ou qualquer Engenharia. Mas ele nem se deu ao trabalho de tentar, pois ele sempre quis ser vocês-já-sabem-bem-o-que. Na segunda tentativa, depois de fazer cursinho pré-vestibular graças a uma bolsa parcial ofertada pela escola – e aos irmãos, que se juntaram para pagar o restante – no ano passado, veio a nota mais do que suficiente para se inscrever no que ele queria: 728.

Quando conversei com Marcondes, perguntei o que ele achava sobre as cotas que facilitaram sua entrada na UFCA. Eis o que ele me respondeu: “Eu acredito que isso é a democracia em prática. Infelizmente, a escola pública não é igual à particular. Eu fiz fundamental e médio em escola pública e depois fiz cursinho, que é como estudar em uma particular. O ensino é diferente, o empenho dos alunos é diferente. Quem, desde pequeno, tá incluso nesse ambiente, tem uma preparação diferente. Depende muito do aluno, se ele quer ou não estudar, mas o universo de oportunidades que um estudante de escola particular tem, o de escola pública tem uma vez na vida”. Ouvindo isso, percebi que ele entende a própria história (e não se lamenta nem um pouco), mas não faz ideia da potência dela.

Agora com 20 anos, Marcondes fala com voz de locutor de rádio, é extremamente educado e, mesmo sendo encabulado, é um rapaz muito simpático. Ele aceita os parabéns pela aprovação quase como quem pede desculpas por não ter sido aprovado logo na primeira vez e, claro, sempre soube que esse dia ia chegar. A imagem da Jéssica de Que horas ela volta? ainda está viva em minha memória, por isso lembrei dela quando pensei “como ele é seguro de si!”. Marcondes não se contentou com pouco, com estar mais-ou-menos satisfeito, com um curso “até bom para ele”, não se preocupou com quem acha que todos têm oportunidades iguais, todos saem do mesmo ponto de partida e que seria injusto dar um empurrãozinho para beneficiar os menos favorecidos. Mas também não importa. Marcondes sempre soube o que queria.

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