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Literatura pós-coquetel (parte 1)

Houve um tempo em que viver com HIV era sinônimo de sentença de morte. E houve um tempo em que esta sentença não existia discursivamente nas realidades dos governos e das políticas públicas.

O início da epidemia de AIDS foi marcado pelo pânico moral e o processo de implementação do neoliberalismo no mundo, o que levou o então Presidente dos EUA Ronald Regan a vergonhosamente pronunciar o nome da síndrome em público apenas em 1987, próximo ao final do seu segundo mandato. Naquele momento já faziam mais de quatro anos desde que o vírus tinha sido identificado e contabilizava-se milhares de mortes. A reação a tal negligência viria dos movimentos sociais e em especial dos ativismos ligados às artes. Era a época do surgimento do Queer Nation e do ACT UP, este último com seu clássico slogan: silêncio = morte. Diante da flagrante omissão das autoridades, era necessário falar. E foi assim que se configurou um fenômeno, chamado por Marcelo Secron Bessa de “epidemia discursiva”. A temática da AIDS invadia as artes como estratégia política de atuação e visibilidade. Nas artes visuais como o graffite de Keith Haring; no audiovisual com o chamado New Queer Cinema; no teatro com peças como “Angels in America” de Tony Kushner; “Rent” de Jonathan Larson e “The normal heart” de Larry Kramer, nas performances e happenings com ocupação de Igrejas e prédios públicos. Além de nosso foco principal por hora: a Literatura.

Escritores como Susan Sontag, Michael Cunningham, Armistead Maupin fizeram parte desta geração. Assim como a tuberculose invadira a literatura no final do século XIX e início do século XX (“A montanha mágica”, de Thomas Mann é um exemplo emblemático), a AIDS vai passar a ser um tema fundamental na produção destes autores. No Brasil, tal fenômeno ocorreu, por exemplo, com a obra de Caio Fernando Abreu. Escrevendo em 1984 o primeiro texto de nossa literatura que contem a palavra AIDS: a novela “Pela Noite” presente no livro “O triângulo das Águas”. Vale lembrar que a epidemia esteve presente em seus escritos até sua morte em 1996.

Porém, nas construções narrativas recentes da AIDS existe uma espécie de ponto de mutação. A descoberta dos potentes antiretrovirais, o chamado coquetel, exatamente naquele ano de 1996 vai dar uma nova configuração à epidemia e sua discursividade. Podemos afirmar que em termos de literatura norte-americana, este ponto de mutação ocorre no romance “As horas” (1999) de Michael Cunningham (adaptado para o cinema em 2001 com direção de Sthephen Daldry). Em um trecho do livro é possível perceber um diálogo onde o personagem vivendo com HIV argumenta que pode sim viver por anos, mas acaba dando fim à sua vida por motivos que não eram especificamente relacionados à síndrome. É o momento em que a morte em decorrência da AIDS passa a não ter mais centralidade na construção das narrativas contemporâneas. A partir de então, presenciamos a emergência de diversas obras características do que temos chamado de uma “literatura pós-coquetel”. Em especial em livros de outro escritor norte-americano já citado, Armistead Maupin, como “Ouvinte da Noite” (2000) e “Michael Tolliver Lives” ( de 2007. “Michael Tolliver está vivo”, em tradução livre. Inédito no Brasil). No primeiro, vemos o companheiro do protagonista ressurgir do leito de morte ao mesmo tempo em que põe fim ao relacionamento e, no segundo, ficamos sabemos que o clássico personagem da série de livros “Tales of the City” (“Histórias da Cidade”), dos anos 1970 e 1980, não morreu em decorrência da AIDS e é um cinquentão soropositivo vivendo em São Francisco.

Se na obra de Maupin a temática da AIDS continua a aparecer vigorosamente, nos livros de Michael Cunningham pós-coquetel a epidemia passa a figurar apenas como uma vaga memória triste. É o que acontece nos romances “Ao anoitecer” (2010) e “The Snow Queen” ( de 2014. Inédito no Brasil). Vale lembrar que os dois primeiros livros deste escritor estão marcadamente atravessados pela AIDS: “Uma casa no fim do mundo” (1990) e “Laços de Sangue” (1994).

Logo, muitas são as reconfigurações da epidemia. Ao mesmo tempo da emergência de uma vida possível com HIV, vieram sua feminização, o aumento dos casos entre jovens, o deslocamento dos óbitos para os países periféricos, o Brasil deixando de ser uma referência mundial por conta do fundamentalismo evangélico. Além dos surgimentos do tratamento como prevenção (TasP); e das chamadas Profilaxias pós-exposição (PEP) e Profilaxia pré-exposição (PREP). Momento em que marca uma nova fase da relação de saber-poder com a indústria de fármacos.

Como estas questões passam a ser ditas e vistas (ou não) nas artes e em especial na Literatura? Em 2015, tivemos traduzidos para o Brasil dois livros  interessantes desta possível “literatura pós-coquetel”: “Dois Garotos se Beijando”, romance de David Levithan e “Pílulas Azuis”, HQ de Frederik Peetrs que podem ajudar em algumas destas reflexões, mas estes serão temas para nossas próximas postagens.

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