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Leitora de elevador

De Crime & Castigo à 50 Tons de Cinza, Débora Pereira leu 355 livros dentro do elevador no CCBNB, onde trabalha há 11 anos.

No minúsculo elevador do Centro Cultural Banco do Nordeste, Ana Débora Pereira, 50 anos, viaja para diferentes cidades, países e até mesmo outros mundos sem ultrapassar os sete andares do prédio. Com os olhos fixos nas páginas amareladas de qualquer livro que esteja lendo essa semana, ela imerge na história que diz passar como um filme por sua cabeça. A concentração só é quebrada quando um “boa tarde” seguido do andar solicitado aparece – geralmente o sexto ou sétimo, onde fica a biblioteca e o auditório -, retribuído com simpatia da operadora.

Ver Débora debruçada sobre um livro em sua cadeira próxima aos botões do elevador é uma cena típica aos adeptos do equipamento cultural. Desde que passou a integrar o quadro de funcionários, leu nada menos 355 livros – e isso apenas dos registrados em sua ficha na biblioteca. Um marco e tanto para a juazeirense, que largou os estudos aos 16 para trabalhar como babá e faxineira em casa de família, em Fortaleza, e para o próprio CCBNB, que nunca teve tão assídua leitora. O melhor ano foi 2008, quando marcou 43 lidos em sua lista. O pior foi 2015, tendo uma queda com sua introdução ao Whatsapp, que ela diz ter superado agora.

Leu de clássicos como Crime & Castigo, de Fiódor Dostoiévski, aos populares O Preço do Amor, de Danielle Steel, passando por algumas poucas obras de Filosofia – que diz não gostar pela linguagem complicada. “Meu favorito mesmo é Rota 66 – A história da polícia que mata de Caco Barcellos, você conhece, não é?”, questiona. E explica o gosto pelas narrativas de investigação e romances policiais: “História com sequestro, assassinato, mistérios… Adoro tentar desvendar quem foi o assassino. Fico doente! Mas tem que ser bom o mistério. Se for besta, não me anima em nada”.

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Quem também vê em sua ficha o títulos feministas como Eu sou Malala, da paquistanesa Malala Yousafzai, vencedora do Prêmio Nobel da Paz por seu ativismo dos direitos humanos das mulheres e acesso à educação, e Sobrevivi… Posso Contar, de Maria da Penha, que dá nome a Lei em defesa das mulheres vítimas de violência doméstica, como alguns dos recentes lidos mal imagina os best sellers eróticos 50 Tons de Cinza, de E. L. James, e a série Crossfire (Toda Sua, Profundamente Sua, Para Sempre Sua, Somente Sua e Todo Seu), de Sylvia Day, como cativos da evangélica Débora.

“Eu gosto, o que posso fazer?” e dá os ombros. “Tem horas que as palavras, as descrições no livro são tão pesadas que eu faço assim (se encolhe com o livro), porque tem gente curiosa que fica do lado e quer ler junto”, releva em tom jocoso. E diz preferir Day à James, pois a protagonista tem mais poder de decisão e controle sobre o relacionamento. “Ela não é submissa”, justifica.

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Trabalhando como operadora do elevador no CCBNB há 11 anos, antes disso Débora foi assistente administrativa em diversas lojas de Juazeiro, foi babá, foi faxineira, é mãe, avó e chefe de sua família. O gosto pela leitura é antigo, mas o hábito não foi cultivado ao longo da tão corrida vida, sendo algo recente incentivado pelos colegas de trabalho. “Você sabe como é. Passo o expediente todo aqui no elevador e ficava muito entediante às vezes. As pessoas vêm aqui, mas é passageiro e logo saem. De repente, peguei um livro emprestado e li aqui mesmo. Depois o diretor disse para aproveitar a biblioteca, que é gratuita e tudo. Acabei que me tornei uma das que mais pega livro lá”, conta.

Hoje em dia a assídua leitora de elevador afirma que “ficar sem livro é o mesmo que estar nua”, mas revela só conseguir focar na leitura no cubículo que lhe coube cuidar. Em casa, as tarefas domésticas, os cuidados com os filhos e netos e o cansaço pós-expediente só lhe permite cair na cama e dormir. “É perdido! Já tentei levar para casa, mas não dá. É coisa demais pra fazer”, desabafa.

Quando primeiro tentou vaga no Centro Cultural, em 2006, disputou para bibliotecária. Uma disputa nada justa, uma vez que suas concorrentes tinham a vantagem de serem formadas pela faculdade de Biblioteconomia. Tentou novamente em outro ano, também não tendo sucesso. Pensou em fazer uma faculdade, mas esperar quatro anos por um diploma não parecia valer a pena à beira dos 50 anos. Acomodou-se com os livros e o elevador.

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Entre um andar e outro, rostos conhecidos entram e saem, perguntam curiosos “qual é o livro dessa semana?”, comentam algo sobre a obra, debatem qualquer coisa sobre a trama. “Já li, é ótimo”. “Nessa parte, você vai se surpreender…”. “Não conheço. É bom?”. Ao passo que Débora, empolgada, responde e atiça a conversa.

“Ela é uma recordista. Em tempos como esses, alguém se dedicar tanto à leitura é algo realmente fascinante. Ela gosta”, comenta uma passageira fascinada. Indicadores nacionais do Ipobe, a pedido do Instituto Pró-Livro, estimam que os brasileiros geralmente leem 2,88  livros por vontade própria. É muito pouco. Em números de livros lidos e de horas dedicadas a leitura, a Venezuela, México e Argentina ganham disparados do Brasil, segundo a NOP World Culture Score Index. No ranking de 30, estamos em 27º.

Muito diferente do brasileiro médio, Débora dedicou nos últimos 10 anos, aproximadamente, 20.840 horas à leitura. Conhecimento que se impregnou nela e transformou seu modo de ver o mundo e como o mundo a vê. “Passei a escrever mais. Escrevo sobre meu dia, mantenho um diário, escrevo cartas”, revela. Diz ainda que seu português melhorou significativamente. “Posso até falar errado, porque isso é mania de uma vida inteira, mas escrever errado, não escrevo. Nenhuma vírgula”, afirma confiante.

“Eu poderia fazer uma dessas redações do ENEM facilmente. Também me falaram para tentar um concurso da Polícia, já que gosto tanto de solucionar os casos dos livros, mas uma vez que a idade chega, fica difícil tentar algo novo. Daqui a pouco, eu espero me aposentar. Quer dizer, se essa reforma deixar, né…”, pondera. No meio tempo, continua se debruçando nos encantos das histórias gravadas no frágil papel.

Sugestões de Leitura

  • Ricardo Lemos

    Amei a reportagem! Já vi a Débora centenas de vezes e ao ler essa reportagem me recordei de sempre vê-la mergulhada nas páginas de um bom livro. Inspirador!

  • Émerson Cardoso

    Débora é, sem dúvidas, merecedora de elogios e considero sua disposição à leitura um exemplo. Sempre a observo no CCBNB e a vejo lendo – isto é inspirador!

  • Fabricio Oliveira

    Bela reportagem, sempre a vejo com um livro e debruçada sobre ele, isso é inspirador.