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Juazeiros somos nós

Um exercício de pertencimento.

Do lado de fora pés caminham sobre o asfalto da rua estreita da Matriz, bocas murmuram preces de longe e mãos passeiam entre as pedras do rosário separadas nos dedos. Alguns carregam no corpo as vestes do santo São Francisco de Canindé. Um ônibus estaciona e pelos degraus descem homens, mulheres e crianças, seguindo no sentido do pequeno aglomerado que se dispersa em uma venda ou outra nas calçadas. A romaria em Juazeiro do Norte é um dos retratos dos “Juazeiros” que cada romeiro guarda dentro da sua oração. Do lado de dentro da galeria do SESC, a exposição Juazeiro Juazeiros, sem vírgulas, seguidos de vivências da poética de três artistas, é o retrato pintado pelo o que vem de dentro e está lá fora.

O mote das obras parte de pintar as pessoas como constelação da cidade, em busca do que é e como se vê o Juazeiro. Para Charles Lessa, 21, um dos autores da exposição e estudante do 7º semestre do curso de Artes Visuais da Universidade Regional do Cariri (URCA), a arte é uma experiência de vida. “A arte contemporânea é muito do que o artista vive, algo de primeira pessoa”, enfatiza.

Ele conta que foi um desafio encarar a proposta apresentada pela curadora independente e professora da Universidade Federal do Cariri (UFCA), Aglaíze Damasceno. Mas, logo depois de algumas reuniões informais, conseguiu se agarrar ao fio condutor do seu processo artístico. Natural do Crato e residente no Juazeiro há aproximadamente um ano, Charles foi rememorando a sua existência na cidade para interpretá-la do seu jeito. Feita com o rabiscos de caneta e usando  como suporte guardanapos, a série “Umbral” mostra a arquitetura da cidade nos retratos das pessoas que vivem à margem da sociedade, fazendo um contraponto entre miséria e desenvolvimento urbano. A série toda desenhada ao som de Vapor Barato de Gal Costa, é detalhada com borro de água. “Quanto maior a mancha, mais eu ficava feliz”, diz.

Petronio, Charles, Aglaíze e Leonardo

Petronio, Charles, Aglaíze e Leonardo

“A minha proposta foi convidar artistas que trouxessem a linguagem do desenho como interpretação dessa vivência em Juazeiro”, explica Aglaíze sobre a percepção dos três olhares. “Juazeiro Juazeiros, se propõe a interpretar a cidade como estão vivendo”, complementa. Assim, Leonardo Ferreira, estudante do 6º semestre do curso de Design de Produto da UFCA, seguiu os exercícios de apuração repassados pela professora e foi fotografando os objetos da casa, os seus caminhos e a sensibilidade das descobertas do cotidiano. Traz nas séries Cava e Cheira, um pouco do seu universo particular, quase que um diário visual de como seja o seu dia a dia. Conta que o fazer de cada trabalho refletiu o momento em que está vivendo com a sua primeira experiência como artista profissional. Leonardo capta o fluido da sua arte. “A cada nova experiência vamos adicionando, mesclando as primeiras expressões, começando a enxergar melhor e com profundidade”, relata, “eu soltei a mão e descobri meu próprio desenho. ”

Ao invés de retratar as ruas, Petronio Alencar opta por desenhar quem está nelas. Há um tempo  trabalhando com a habilidade de desenhar ao ar livre e diretamente do local em que se está o objeto, o professor de artes visuais põe em questão a “santificação” das ruas da cidade. O trabalho “Todos os Santos” explora os nomes dos santos nas ruas do Juazeiro, “é uma brincadeira, já não se tem mais nomes de santos para colocar nas ruas”, diz. Assim como os santos passaram por provações, os loucos, os trabalhadores, catadores de ruas, penitentes, prostitutas, passam como personagens pelos quadros de Petronio. O barroco e a criação de cenas imaginárias permeiam as entrelinhas do trabalho “Capricho”, onde o artista misturou cenários para recriar cenas, assim como os grandes pintores venezianos. Sem medo das fronteiras, troca a estátua do Padre Cícero pela feminilidade da deusa da beleza e do amor, Vênus de Milo.

E “enquanto isso tudo está acontecendo”, Petronio não desenha a praça para dar milho aos pombos, e sim para alimentar os dragões, com o quadro “Dando milho aos dragões”. Os traços surrealistas de Dalí nos ponteiros do relógio derretido caberiam nos quarenta graus dos termômetros da cidade. “Trabalhar com artistas mais jovens, foi como repensar minha própria arte” diz  Petronio sobre o escambo de olhares e saberes que sintetizam vivências particulares da terra do Pe. Cícero. Os desenhos buscam através dos olhos pertencimento. Nas palavras da curadora, “Juazeiros somos nós”.

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