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“Juazeiro não está crescendo, está inchando”

Juazeiro do Norte, que nos últimos anos figurou entre as principais cidades médias em crescimento no país e era a grande aposta da construção civil, não está imune à crise. Enquanto aumenta a inadimplência e o consumidor segura o que tem na poupança, com medo de investir, as pequenas construtoras se viram obrigadas a baixar o preço dos empreendimentos, para não enfrentar um rombo ainda maior. As grandes construtoras, para manter-se na competição e pagar as obras em construção, tiveram de segurar o valor da casa à venda.

A constatação sobre o panorama local é de Fagner Canuto, corretor carioca radicado no Cariri, que debateu em um artigo a possibilidade de o Juazeiro continuar desenvolvendo seu mercado imobiliário apesar do momento. Ele percebe que, nos tempos de vacas gordas, a margem de lucro do proprietário chegava a estar 35% acima do que o imóvel realmente valia. Enquanto a maior parte das cidades com expansão comercial e industrial mantém o valor médio do metro quadrado por volta de 9 mil reais, em Juazeiro do Norte ele ainda custa R$ 5.800,00/m². “Não vou dizer que é caro demais ou barato demais. É o que vale”, Fagner comenta.

Como você vê o rápido crescimento do bairro Triângulo?

Nós contamos 1097 salas comerciais e 318 apartamentos nos prédios em torno do Cariri Garden Shopping. Com a demanda que já existe hoje no shopping, ali haverá um fluxo de mais de cinco mil pessoas por dia. Quando aqueles empreendimentos foram criados, eles foram planejados para serem uma solução para a pessoa que não quer ir para a correria do Centro. Ela então poderia ir para um centro comercial onde fosse possível estacionar. Há essa oferta muito alta – pelo menos para hoje, em 2016. Sobraram 30% daqueles apartamentos e salas para venda e isso prejudica um pouco em relação aos alugueis. Em um prédio ao lado do shopping, o valor variava entre R$ 1000,00 e R$ 1200,00 reais, há quase três anos. Hoje a gente aluga uma sala lá a 800 reais. Hoje percebe-se uma regressão, enquanto esse aluguel deveria ter sido reajustado anualmente. Mas é a lei de mercado normal, há muita oferta. Não foi feito um plano municipal para absorver aquele movimento ali. Com essa estrutura, sem uma solução por parte do poder público, o Triângulo vai se tornar um problema grave. A projeção para o final de 2017, com tudo em pleno funcionamento, é que falte local para as pessoas estacionarem. Esses empreendimentos, que deveriam ser uma solução, vão afetar o bairro Triângulo. O mercado já percebeu isto. Não era pra ter sido autorizada a construção de tanto edifício.

Houve aumento no preço dos aluguéis na região?

Os preços se mantêm. Em alguns casos, até cresceram um pouco. Algumas construtoras em Juazeiro escolheram congelar desde dezembro os preços de alguns produtos para não ter de criar estoque, perder toda a aplicação e assim deixar de lançar um produto novo. Hoje a gente vê muita oferta de crédito, facilidade da construtora, valor o mais parcelado possível, e isso está resultando em mais facilidade para o cliente. Não houve queda de preços no imóvel novo, com exceção daquele do construtor que não tem solidez. Juazeiro tem muita construção do tipo: a pessoa faz a casa para vender com recurso próprio, mas o dinheiro dele é limitado e, se ele não vender aquela casa, o patrimônio dele está sob risco. Já o imóvel usado, que há oito anos tinha uma especulação muito alta, agora teve de baixar seu preço. Por exemplo, nós costumávamos avaliar um móvel em 300 mil reais, mas o proprietário queria um milhão por ele.

Quais as áreas mais valorizadas do Juazeiro?

Triângulo e Lagoa Seca. A Lagoa Seca ainda é a área residencial mais consolidada, mas o Planalto está em um processo de crescimento muito bom. No Centro, a gente sabe que a Rua São Pedro nunca vai ser desvalorizada, mas o preço dos imóveis lá já mudou bastante. Quem queria abrir um comércio no Juazeiro, só podia ir para lá. Se a pessoa tivesse menos dinheiro, iria para a Rua São Paulo. Mas o Pirajá também cresceu e o Novo Juazeiro também está em expansão. Isso dá opção para o comerciante que, em vez de pagar um aluguel de 10 mil reais, pode vir para o Pirajá e pagar 3 mil. Isso descentraliza e dá mais opções ao comerciante. Para morar, a área do Pirajá ao Planalto já está sendo muito procurada. Uma placa de “aluga-se” não dura mais de uma semana ali. Apesar de estar em uma transição de dois bairros ainda um pouco isolada, essa área já tem banco, restaurantes, supermercado…

Fagner Canuto

Fagner Canuto

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