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Juazeiro do Norte em meio à crise

“É um péssimo momento para os trabalhadores da construção civil”, diz Felipe Neri

No ano passado, mais de 500 mil trabalhadores da construção civil perderam seus empregos. Para analisar o rendimento do setor no Cariri em meio à crise, conversamos com Felipe Neri Coelho, diretor técnico da Construtora Raimundo Coelho (CRC) e diretor regional da Sinduscon-CE.

 

Em Fortaleza, como em muitas outras cidades do país, há obras sendo paralisadas e engenheiros perdendo empregos. Essa é a realidade do Cariri?

Eu acho que é em menor escala. A crise no Cariri existe da mesma forma que existe nos outros lugares do Brasil. Não tem como a gente escapar. Pra você analisar o mercado imobiliário e também ele em Juazeiro do Norte e na região, você tem que necessariamente raciocinar sobre macroeconomia e tudo o que está acontecendo no Brasil agora. Então, durante o governo passado foram congelados os preços de combustíveis e de energia. Com a crise, para consertar esses erros, a presidente teve de aumentar tudo de forma apressada. Como as fábricas vão segurar preços, com a energia e derivados do petróleo subindo da forma que subiram? Termina gerando inflação, que é o que tem de mais danoso para a economia de um país e para aqueles que são assalariados, porque o salário não consegue subir na proporção da inflação. Vamos passar para o setor de habitação e ver o que significou para o mercado imobiliário… Mercados de automóveis e de imóveis só funcionam à base de crédito. Porque as pessoas não têm recursos, principalmente aquelas com poder aquisitivo menor. Elas não têm como comprar com dinheiro e pagar à vista. E as construtoras não são banco para financiar uma casa para 30 anos. Então como é que isso funciona? O cidadão compra o imóvel que está pronto porque ele vai lá no banco e pega um empréstimo e esse empréstimo ele vai amortizar ao longo de anos em uma prestação que caiba no bolso dele. Quando você tem uma inflação alta, a prestação também sobe.

E o crédito imobiliário?

Não falta. Mas o problema não é o crédito, é a taxa. Quando você tem inflação maior, você tem uma taxa de juros maior e, consequentemente, uma prestação maior. E quando a prestação deixa de caber no bolso do consumidor, ele deixa de comprar. O outro fator, naturalmente, é quando o sujeito pensa “como é que eu vou me endividar, se eu não sei nem como é que esse país vai estar daqui a 30 anos?”. Então falta confiança na economia do país e falta a inflação baixar.

O setor da construção civil foi um dos primeiros a cair com a crise por ter confiado demais no Governo?

Ponha lenha na locomotiva, que ela anda. Demanda para habitação no Brasil é coisa para 20 milhões de unidades. Então, demanda tem de sobra. E enquanto houver condições, a indústria da construção vai produzir. Foi isso que aconteceu.

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Agora que não há demanda pública, o setor tem se concentrado no cliente privado?

Nós aqui no Cariri deixamos de construir para cliente público há muito tempo. A gente hoje trabalha praticamente só para contratante privado, que passa muito longe do governo. Inclusive o Minha Casa, Minha Vida, que é obra do banco [Caixa Econômica Federal]. Você veja que as grandes empresas, os grandes tubarões do setor, estão todos na cadeia. A Lava Jato lavou tudo. Prendeu Marcelo Odebrecht, prendeu OAS [Léo Pinheiro, executivo da empreiteira], prendeu Andrade Gutierrez [Otávio Marques de Azevedo, presidente da empreiteira]. Se foram os grandes todos e as pequenas estão todas quebradas porque o órgão público não paga.

Aqui no Cariri o setor vai esperar a crise passar para começar novos empreendimentos?

Tenho conversado com alguns colegas empreiteiros e o que eu tenho ouvido deles é que vão terminar tudo o que está em andamento, mas ninguém vai começar nada novo. Particularmente na CRC, nós aqui estamos indo para produtos “baixa-renda”, de no máximo 120 mil reais. Nós enxergamos claramente que o mercado não vai ser receptivo para produtos mais caros.

O desemprego aqui também tem aumentado no setor?

Não resta dúvida que sim. Durante o ano de 2011, eu fiz 1280 unidades para o Minha Casa, Minha Vida. Eu cheguei a ponto de pôr propaganda em televisão para arranjar operário. Hoje, se você passar por um canteiro de obras, você vê uma multidão de pessoas querendo trabalho. Isso mostra a desaceleração da economia. Agora pasme aí: quem muito mais consumia essa mão-de-obra eram as chamadas “puxadinhas”, as reformas que as pessoas fazem em casa, com um pedreiro informal. Havia muito mais gente sem vínculo empregatício do que trabalhando nas empresas. Como estamos em um período recessivo, as pessoas estão parando de fazer reforma em casa. E são esses trabalhadores que estão sem emprego, já que o mercado formal no Juazeiro ainda não reduziu. Outro dado interessante: a indústria do cimento vende mais para as “puxadinhas” do que para a indústria propriamente dita. Quando eu estava fazendo o Minha Casa, a obra quase paralisou porque faltou cimento. Eu soube até briga na fila para comprar cimento na Itapuí. Hoje a indústria está produzindo menos do que produzia naquele tempo e não está encontrando mercado para consumir. E é o mercado informal que deixou de comprar. São aspectos que refletem a crise que estamos passando. Infelizmente, para os trabalhadores da construção civil, é um mau momento. É um péssimo momento.

Há dois cursos de Engenharia Civil e outros dois de Arquitetura e Urbanismo em Juazeiro do Norte. Vai haver mercado de trabalho para os quase cem alunos que entram em cada um a cada semestre?

O Cariri não absorve os profissionais que existem aqui nem quando estivermos em nível alto de produção. Mas o problema não é o Juazeiro, é o país. Os que saírem da faculdade hoje, dificilmente não vão encontrar um lugar para trabalhar. É o jeito esperar a crise passar.

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