Grandes Juazeirenses

José Marrocos: jornalista, abolicionista e pedagogo

Apesar de ser natural de Crato, José Joaquim Telles Marrocos, assim como o primo e amigo pessoal Padre Cícero Romão Batista, teve sua história marcada pela terra juazeirense — lutou arduamente para ajudar na sua emancipação e desenvolvimento. Descrito pelo historiador Renato Casimiro como “um personagem ímpar da vida sociocultural do Cariri”, ele foi teólogo, Saiba mais

Por Alana Maria • 8 de novembro de 2017

Apesar de ser natural de Crato, José Joaquim Telles Marrocos, assim como o primo e amigo pessoal Padre Cícero Romão Batista, teve sua história marcada pela terra juazeirense — lutou arduamente para ajudar na sua emancipação e desenvolvimento. Descrito pelo historiador Renato Casimiro como “um personagem ímpar da vida sociocultural do Cariri”, ele foi teólogo, jornalista e pedagogo no século XIX, dedicando sua vida à democratização do conhecimento e a importantes causas sociais daquela época.

Marrocos foi admirado e querido por muitos de seus contemporâneos, que exaltavam suas maiores características: a abnegação no desempenho suas atividades, principalmente na causa abolicionista, pela Sociedade Libertadora Cearense; o entusiasmo com que defendia Juazeiro do Norte; e a devoção aos ensinamentos cristãos, sendo fiel seguidor do Padre Ibiapina. Não por acaso, ruas em Crato, Juazeiro e Fortaleza homenageiam Marrocos, levando o seu nome.

Em vida, foi pioneiro no jornalismo, e fundou quatro jornais: A Voz da Religião, em Crato — onde costumava escrever ensaios teológicos que rendiam calorosos debates entre padres e estudiosos das religiões –; O libertador, em Fortaleza; Jornal do Cariry, em Barbalha; e A Cidade do Rio, no Rio de Janeiro. Ainda ajudou a fundar e escrever no histórico semanal O Rebate, em Juazeiro do Norte, por onde, literalmente, rebatia argumentações falaciosas sobre o episódio da hóstia, Padre Cícero, beata Maria de Araújo e a emancipação de Juazeiro. José Marrocos foi, além disso, um dos primeiros a escrever sobre “o milagre da hóstia” e demais causos de Juazeiro do Norte, encarregando-se de divulgar o fato para as demais regiões, que chegou, inclusive, até Portugal.

 

O historiador Renato Casimiro descreve Marrocos como “um personagem ímpar da vida sociocultural do Cariri” por sua inteligência e sensibilidade para as causas sociais da época (Fotos: Arquivo de Renato Casimiro e Daniel Walker)

 

A devoção à religião e à Igreja Católica teve início ainda na mocidade, quando o jovem Marrocos, filho de João Teles, ingressou no Seminário Provincial da Prainha, na capital Fortaleza. Porém, sua criticidade e “pontos de vista teológicos considerados errôneos” pelos padres lazaristas levaram, em 1868, à interrupção de sua formação. Sem realizar o sonho eclesiástico, passou a ensinar latim no Liceu do Ceará. Inteligente e estudioso, José Marrocos era poliglota — dominava bem as línguas latim, francês, italiano e grego.

Porém, nada o impediu de seguir pesquisando e contestando os fatos, características desenvolvidas nas atividades como docente e jornalista que logo adiante se encarregou de exercer. De volta ao Cariri, inaugurou o bem-sucedido Colégio São José, onde lhe deram o apelido de “o pedagógico”, grande pontapé na vida docente. “Como educador, ao meu ver, era exemplar, pela sua bondade, dedicação e interesse que tomava pelo aproveitamento dos alunos”, disse D. Joaquim Granjeiro de Luna sobre o professor, registrado no livro Questionário histórico, de Raimundo Araújo, o qual retrata grandes personalidades de Juazeiro do Norte.

O último suspiro de José Marrocos foi dado em 1910. Morreu vítima da pneumonia. Muitos escritos encontrados no Instituto Cultural do Vale Caririense e no acervo do Instituto José Marrocos de Estudos e Pesquisas Socioculturais (IPESC) relatam a tristeza dos amigos, colegas e conhecidos com a sua partida. “Quando circulou a notícia […] não se pode descrever, o povo invadiu a casa, e coisa notável, só se ouviam os soluços dos que choravam, lamentando com o venerável Padre Cícero […]”.

Em seu enterro, o amigo Dr. Floro Bartolomeu dedicou-lhe as seguintes palavras: “Há vidas tão caras, tão úteis à humanidade que se a própria eternidade fosse na terra, seria pequena para o desemprenho da sua maior missão, para realização do seu mais puro ideal! A vida de José Marrocos era uma destas… Ele foi um dos homens que melhor e com mais superioridade cumpriu o seu destino na sociedade de seu tempo”.

 

“Quando circulou a notícia […] não se pode descrever, o povo invadiu a casa, e coisa notável, só se ouviam os soluços dos que choravam, lamentando com o venerável Padre Cícero […]” (Fotos: Arquivo de Renato Casimiro e Daniel Walker).

Alana Maria

Alana Maria Soares é jornalista da Cariri Revista desde 2015.
Formou-se pela faculdade de Jornalismo da Universidade Federal do Ceará (UFC), no campus Cariri, onde produziu o programa cultural Percursos Urbanos Cariri, pela UFC e CCBNB, entre 2012 e 2014. Pela Editora 309, ainda produziu a Casa Cariri Revista, o Manual Inteligente da Água, o Jornal Universitário da Unileão em 2016 e 2017, entre outros produtos editoriais.
RP: 0003947/CE