Grandes Juazeirenses, Revista 0

José Marrocos: jornalista, abolicionista e pedagogo

Nobre. Cavalheiro da paz. Defensor dos humilhados. Muitos foram os adjetivos usados para descrever José Marrocos, essa figura histórica do passado juazeirense.

Apesar de ser natural de Crato, José Joaquim Telles Marrocos, assim como o primo e amigo pessoal Padre Cícero Romão Batista, teve sua história marcada pela terra juazeirense — lutou arduamente para ajudar na sua emancipação e desenvolvimento. Descrito pelo historiador Renato Casimiro como “um personagem ímpar da vida sociocultural do Cariri”, ele foi teólogo, jornalista e pedagogo no século XIX, dedicando sua vida à democratização do conhecimento e a importantes causas sociais daquela época.

Marrocos foi admirado e querido por muitos de seus contemporâneos, que exaltavam suas maiores características: a abnegação no desempenho suas atividades, principalmente na causa abolicionista, pela Sociedade Libertadora Cearense; o entusiasmo com que defendia Juazeiro do Norte; e a devoção aos ensinamentos cristãos, sendo fiel seguidor do Padre Ibiapina. Não por acaso, ruas em Crato, Juazeiro e Fortaleza homenageiam Marrocos, levando o seu nome.

Em vida, foi pioneiro no jornalismo, e fundou quatro jornais: A Voz da Religião, em Crato — onde costumava escrever ensaios teológicos que rendiam calorosos debates entre padres e estudiosos das religiões –; O libertador, em Fortaleza; Jornal do Cariry, em Barbalha; e A Cidade do Rio, no Rio de Janeiro. Ainda ajudou a fundar e escrever no histórico semanal O Rebate, em Juazeiro do Norte, por onde, literalmente, rebatia argumentações falaciosas sobre o episódio da hóstia, Padre Cícero, beata Maria de Araújo e a emancipação de Juazeiro. José Marrocos foi, além disso, um dos primeiros a escrever sobre “o milagre da hóstia” e demais causos de Juazeiro do Norte, encarregando-se de divulgar o fato para as demais regiões, que chegou, inclusive, até Portugal.

 

O historiador Renato Casimiro descreve Marrocos como “um personagem ímpar da vida sociocultural do Cariri” por sua inteligência e sensibilidade para as causas sociais da época (Fotos: Arquivo de Renato Casimiro e Daniel Walker)

 

A devoção à religião e à Igreja Católica teve início ainda na mocidade, quando o jovem Marrocos, filho de João Teles, ingressou no Seminário Provincial da Prainha, na capital Fortaleza. Porém, sua criticidade e “pontos de vista teológicos considerados errôneos” pelos padres lazaristas levaram, em 1868, à interrupção de sua formação. Sem realizar o sonho eclesiástico, passou a ensinar latim no Liceu do Ceará. Inteligente e estudioso, José Marrocos era poliglota — dominava bem as línguas latim, francês, italiano e grego.

Porém, nada o impediu de seguir pesquisando e contestando os fatos, características desenvolvidas nas atividades como docente e jornalista que logo adiante se encarregou de exercer. De volta ao Cariri, inaugurou o bem-sucedido Colégio São José, onde lhe deram o apelido de “o pedagógico”, grande pontapé na vida docente. “Como educador, ao meu ver, era exemplar, pela sua bondade, dedicação e interesse que tomava pelo aproveitamento dos alunos”, disse D. Joaquim Granjeiro de Luna sobre o professor, registrado no livro Questionário histórico, de Raimundo Araújo, o qual retrata grandes personalidades de Juazeiro do Norte.

O último suspiro de José Marrocos foi dado em 1910. Morreu vítima da pneumonia. Muitos escritos encontrados no Instituto Cultural do Vale Caririense e no acervo do Instituto José Marrocos de Estudos e Pesquisas Socioculturais (IPESC) relatam a tristeza dos amigos, colegas e conhecidos com a sua partida. “Quando circulou a notícia […] não se pode descrever, o povo invadiu a casa, e coisa notável, só se ouviam os soluços dos que choravam, lamentando com o venerável Padre Cícero […]”.

Em seu enterro, o amigo Dr. Floro Bartolomeu dedicou-lhe as seguintes palavras: “Há vidas tão caras, tão úteis à humanidade que se a própria eternidade fosse na terra, seria pequena para o desemprenho da sua maior missão, para realização do seu mais puro ideal! A vida de José Marrocos era uma destas… Ele foi um dos homens que melhor e com mais superioridade cumpriu o seu destino na sociedade de seu tempo”.

 

“Quando circulou a notícia […] não se pode descrever, o povo invadiu a casa, e coisa notável, só se ouviam os soluços dos que choravam, lamentando com o venerável Padre Cícero […]” (Fotos: Arquivo de Renato Casimiro e Daniel Walker).

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