Arte e Cultura

José Lourenço: Lira Nordestina e o sentimento na madeira

Fotos: Samuel Macedo José Lourenço Gonzaga tem duas datas de nascimento: 10 de setembro e 10 de dezembro de 1964. A primeira, ele garante, é a verdadeira. A segunda foi a que ficou para sempre na certidão. “Naquela época, os pais tinham mania de juntar um monte de menino para registrar tudo de uma vez, Saiba mais

Por Cláudia Albuquerque • 15 de março de 2018

Fotos: Samuel Macedo

José Lourenço Gonzaga tem duas datas de nascimento: 10 de setembro e 10 de dezembro de 1964. A primeira, ele garante, é a verdadeira. A segunda foi a que ficou para sempre na certidão. “Naquela época, os pais tinham mania de juntar um monte de menino para registrar tudo de uma vez, então acabava dando essas confusões”.

Ele ri mansamente, e durante toda a conversa não altera o tom de voz. Estamos no local que faz parte de sua vida desde menino: a Lira Nordestina, antiga tipografia São Francisco, que ao longo de uma atribulada existência colecionou glórias, tormentos e endereços – o  atual fica no Centro Multiuso de Juazeiro do Norte, Vapt Vupt, do Governo do Estado, sob a tutela da Universidade Regional do Cariri (URCA).

No grande galpão com paredes ornadas por fotos de cordelistas e gravadores, esconde-se a alma móvel da gráfica que, desde 1936, é parte importante da história do Cariri, solo sagrado por onde ressoam os passos de poetas, artistas, xilógrafos e pesquisadores, a despeito das sucessivas mudanças de endereço. Silenciosos nessa manhã de sábado, os instrumentos de trabalho são como pássaros obstinados, sobrevivendo indiferentes às piores estiagens.

“Toda a história do cordel passa por essa máquina”, comenta José Lourenço, diretor cultural da Lira, pousando os olhos numa geringonça cujo ano de fabricação ele não arrisca adivinhar, embora se saiba que é de nacionalidade francesa. Veio de Recife, comprada por José Bernardo, fundador da gráfica, mas já era antiga quando foi adquirida. Chegou a imprimir 10 mil cordéis por dia e era movida a manivela, mas recebeu uma adaptação para a acoplagem de um motor – quando a roda gira, movimenta a prensa. Vaidosa e incansável como uma atriz que esconde a idade, a máquina envelhecida ainda é a estrela da Lira.

Para José Lourenço, porém, o que mais chama atenção é a guilhotina, máquina de cortar papel que também foi adquirida por José Bernardo do acervo de João Martins de Athayde. “Ela é a responsável por eu estar aqui hoje. Meu avô trabalhou 30 anos nela”, diz o artista, que cresceu vendo o velho mexer no mecanismo de corte, dia após dia aparando, refilando, encurtando caprichosamente o papel excedente. Em silêncio concentrado, mostrava que “para o cordel ficar bonito” é preciso persistência e amor. “Ninguém pegava nessa máquina, meu avô não deixava. Era dele, né?, só não podia levar pra casa”, sorri, orgulhoso, o neto de Pedro Luís Gonzaga.

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RETRATO DO ARTISTA EM SUA ESTREIA

Vovô Gonzaga trabalhava na tipografia São Francisco, que mais tarde se transformaria na Lira Nordestina. Muitos xilógrafos começaram ali, ainda meninos, vendo como se faz. José Lourenço e seus irmãos, Cícero e Demontier, fizeram parte dessa legião de moleques: dobravam os cordéis, varriam o chão, separavam os folhetos. Antes de aprender a ler, já conheciam vários versos de cor. “O pessoal lia, e a gente achava aquilo bonito. Tudo começava pelo cordel”. Por essas e outras razões, José Lourenço é um homem profundamente identificado com Juazeiro do Norte, cujos costumes, figuras e histórias retrata na madeira.

De sua cidade só se afastou durante o período em que acompanhou os pais, agricultores, ao plantio de algodão em Iguatu. Foi onde aprendeu a ler, com a dona da fazenda, que ensinava a garotada debaixo de um pé de cajarana. “Eu ia para a roça mais cedo, ficava até uma hora da tarde, almoçava, tomava banho e ia para a aula. Só estudei até a quinta série, foi o que deu. O resto aprendi aqui”, ele diz, olhando para as máquinas em descanso.

Nos primeiros tempos, José Lourenço não pensava em ser xilógrafo. Desde 1983, quando voltou para Juazeiro, até 1985, trabalhou imprimindo as matrizes de artistas como Stênio Diniz, neto de José Bernardo e grande xilogravurista, que só confiava nele para o serviço. Quando Stênio resolveu passar uma temporada na Alemanha, Abraão Batista (também xilógrafo da casa) não tinha como atender todos os pedidos, por ser farmacêutico e professor.

Zé Lourenço e família

Zé Lourenço e família

Com isso, várias capas de cordéis ficavam à espera de uma xilo – para desespero de Expedito Sebastião da Silva, cordelista, tipógrafo, revisor e então gerente da Lira. “Expedito ficava doido”, recorda José Lourenço, que vendo aquilo começou a traçar seu novo destino, sem saber que logo se transformaria num dos maiores xilogravuristas do Nordeste. “Peguei um pedacinho de madeira e, com um canivete, fui imitando o jeito que eu vi Stênio e Abraão fazerem. Era o desenho de um casal, Zezinho e Mariquinha. Ficou feio que só”, ri. Mas não foi o que Expedito achou:  observando o jovem aprendiz, sentiu que havia talento ali.

O acaso tratou de completar o serviço, pois no dia seguinte um homem entrou na gráfica e, esbaforido, disse rapidamente: “Seu Expedido, eu quero fazer uns cordéis, mas eles precisam ser entregues já nessa quarta-feira”. Expedito nem pestanejou. A encomenda era grande e a gráfica estava passando por  dificuldades. Impossível recusar. Sem demora, chamou José Lourenço e apresentou-o ao visitante como “o rapaz que faz as capas”.

“JESUS! E AGORA?!!”

O homem cumprimentou José Lourenço com entusiasmo e pagou adiantado, prometendo voltar dali a dois dias. “Jesus! E agora?!!”, foi o pensamento que fulminou o xilógrafo em formação, que apelou para o gerente assim que o visitante deu as costas: “Seu Expedito, eu não sei fazer isso não, homem!”. Ao que o mestre respondeu: “Sabe sim, eu vi você cortando uma madeira ontem, ficou boazinha”.

Recém-casado, morando com os sogros e precisando do dinheiro, Zé apalpou as notas novas no bolso, respirou fundo e foi caminhando, pensativo, até a serraria que existia perto da Igreja dos Salesianos. Pegou um pedaço de cedro descartado e o lixou em casa. “Eu conhecia todo o processo, só não sabia fazer, né? (risos)“. O título do cordel a ser ilustrado era O Casamento Matuto. Sem saber se poderia honrar o compromisso, não deixou que ninguém mexesse nas cédulas, postas em cima da mesa de trabaho.

Depois de muita peleja, “lá pra uma hora da manhã”, conseguiu fazer o desenho, primeiro no papel, depois na madeira, “mal feito que só”: a noiva de um lado, o noivo do outro e um jumento no meio. De manhã cedinho levou o taco já talhado para passar a tinta. Assim que imprimiu a gravura, mostrou a Expedito. “Vixe Maria, como ficou bom!”, o mestre exclamou, entusiasmado. “E isso é porque você disse que não sabia fazer!”.

Mesmo com os elogios, Zé permanecia tenso, desconfiado, o dinheiro intacto no bolso, pronto para ser devolvido em caso de reclamação. Quando o cliente chegou, quis ver a obra imediatamente. Parou, olhou, analisou e disparou: “Nossa Senhora, que coisa linda. Bem que o seu Expedito me disse que você era um artista”, agradeceu o homem. Aliviado, o jovem artista pegou a bicicleta, correu o mais que pôde e entrou em casa gritando para a esposa: “Mulher, pode fazer a feira e comprar o que estiver precisando”.

Foi  assim, com a força da necessidade agindo sobre o destino que começou mais uma bela história de amor e dedicação à xilogravura.

E ASSIM SE PASSARAM 30 ANOS

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Em 2016, José Lourenço está completando 30 anos de xilogravura e 30 anos de casamento. Um longo período que teve início com aquele pedaço de cedro, onde talhou um homem, uma mulher e um jumento. Com o tempo e a experiência que ele traz, o artista passou a assinar os trabalhos, que  circularam de mão em mão nas capas dos folhetos, dando ao criador a fama de  bom profissional. Novos convites e oportunidades apareceram. Fez as xilos do relatório de 1989 do Bicbanco e ganhou o Prêmio Xilogravura do Salão de Abril, a mais importante mostra de artes plásticas do Ceará, em 1991.

Como toda crise produz impulso, a queda de vendas do cordel libertou os xilógrafos dos folhetos, lançando-os em um mundo de novas ideias e diferentes suportes. Muitos acabaram nas paredes das galerias, façanha que “antes ninguém achava que era possível”. José Lourenço recorda: “Eu comecei nos anos 80, então via na televisão aquelas exposições, aquelas coisas bonitas, e jamais imaginava que um dia ia colocar um trabalho meu ali”.

Uma pessoa importante nesse processo foi o professor e pesquisador Gilmar de Carvalho, que ele conheceu em 1989 e que o levou para expor em Fortaleza, no Centro de Humanidades de Universidade Federal do Ceará (UFC). “Foi a primeira vez que eu estive na capital”, comenta José Lourenço, com um sorriso encantado, lembrando que no ano seguinte (1990) seus trabalhos ganharam um exposição individual no Museu de Arte da UFC (MAUC), também em Fortaleza. “O Gilmar foi muito importante na minha evolução, não só por ter ajudado na divulgação, mas também porque ele me orientou, propondo, por exemplo, que eu fizesse álbuns e trabalhos mais amplos. Isso resultou em várias exposições”, enfatiza.

Hoje, Zé Lourenço mora na Vila Fátima e continua casado com a agente de saúde e assistente social Cícera Sandra, com quem teve três filhos: Alexandra, José Arcênio e Ana Kelly, além de acolherem uma afilhada, Vera Lúcia. Duas netas animam a casa onde a família vive reunida, com exceção de José Arcênio, que está fazendo Doutorado em Física no Rio Grande do Norte.  “Tudo o que construí eu devo à xilo”, ele confia. Mais especificamente, àquela  primeira capa de cordel que ainda nem sabia fazer direito.

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UM XILÓGRAFO NUNCA TERMINA O SEU TRABALHO

Como kardecista, José Lourenço acredita em espíritos que emitem energias positivas para nos guiar. Há alguns anos, teve a ideia de usar novos suportes, como cerâmicas, azulejos, camisetas e canecas para reproduzir os desenhos e  tornar os preços mais acessíveis. “Xilogravura é sentimento. Você transmite o que você sente, o que você vê. Por exemplo, eu trabalhei na agricultura, então fiz várias gravuras mostrando o homem do campo puxando água, preparando a terra, plantando, colhendo”.

Na tentativa de explicar o que é inspiração, o artista chega a ser místico. “É coisa divina, não vem da gente, é passageiro, e é preciso aproveitar esses momentos de criação”. Dominar a técnica ajuda, mas, às vezes, uma capa de cordel leva o dia todo para ser feita – e já aconteceu do desenho ideal só aparecer no meio da noite, como um fantasma que surge iluminando a madrugada.

A melhor madeira para a xilo continua sendo a da imburana, uma pequena árvore da caatinga, de fibras fechadas, resistente a cupins, a um só tempo macia e forte. Vem da Bahia ou de Pernambuco, porque em Juazeiro praticamente não existe mais. De alguns anos para cá, a preocupação ambiental vem aumentando e, por motivos de preservação, as xilos maiores são feitas no louro-canela, do qual se conseguem tábuas largas e boas talhas.

“As melhores ferramentas são aquelas que você mesmo constrói”, diz Zé, que hoje conhece goivas americanas, japonesas e alemães, mas que ainda prefere usar seus velhos instrumentos improvisados. Primeiramente, o desenho é feito no papel. Mas é preciso prestar atenção. “Quando a gente vai talhar o desenho na madeira, o escavado é a parte que fica branca e o preto é o alto relevo. O xilógrafo tem que ter a visão ao contrário, uma visão espelhada, né? Hoje, com o computador, é fácil, mas antigamente o cabra tinha que se virar”.

José Lourenço curte as facilidades da tecnologia. Quando quer colocar uma xilo numa camiseta com por exemplo, imprime rapidamente uma cópia da gravura original, vai para  computador, digitaliza a imagem e aumenta para o tamanho desejado. “Daí passo para a camisa e para onde quiser”. Depois desses anos todos, continua perfeccionista e sabe que uma obra de arte segue seu próprio rumo. “Quando você começa, novas ideias vão aparecendo. Uma matriz que era pra ficar pronta em uma semana pode levar um mês. Eu digo que um xilógrafo nunca termina um trabalho, ele sempre quer mais”.

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TESTEMUNHO DE ÉPOCA

Além das máquinas, a Lira Nordestina mantém os móveis de José Bernardo, os cavaletes de tipos (onde se colocam as letras) e a capas originais de vários cordéis. Muitas peças “sumiram”, levadas por pessoas que disseram que montariam uma filial da Lira em Fortaleza, mas a gráfica resiste a chuvas e trovoadas, graças à dedicação de pessoas como o diretor cultural José Lourenço e a atual assessora de cultura e extensão da Universidade Regional do Cariri, Anna Christina Carvalho.

Alguns apaixonados defensores, como o pesquisador Gilmar de Carvalho também tiveram um papel importante. “O professor Gilmar de Carvalho foi uma pessoa fundamental até para eu estar hoje aqui”, destaca José Lourenço. “Quando a gente perdeu o Expedito Sebastião da Silva, ele mandava dinheiro para nos ajudar. Gilmar é o responsável pela xilogravura ainda existir no Juazeiro. Se fosse depender só da gente, acho que não ia dar certo, porque na época todo mundo já estava trabalhando em outras coisas, porque precisava sobreviver”.

A GRÁFICA E O CORDEL

O alagoano José Bernardo da Silva chegou em Juazeiro em 1926 e montou a gráfica São Francisco na década seguinte. Em 1949, ele comprou os direitos de publicação do acervo de João Martins de Athayde, o maior do Brasil. Com as três máquinas também adquiridas de Athayde, José Bernardo passou a ser o maior produtor de cordel e o maior editor gráfico do Nordeste. Perspicaz,  criou um esquema de distribuição em massa, espalhando “agentes”, que eram revendedores de cordel, em vários pontos do país.

Nos anos 60/70, a chegada de novos e mais atraentes suportes de comunicação e entretenimento tornaram decadente o negócio. José Bernardo morreu em 1972, e a vida dos cordelistas, especialmente dos editores, foi ficando mais difícil. Nos anos 80, a gráfica foi adquirida pelo Governo do Estado, que a passou para as mãos da URCA. Hoje, faz parte do programa Ponto de Cultura, do Ministério da Cultura. As mudanças administrativas da URCA e os altos e baixos da política municipal ditam os ventos que por vezes refrescam e, outras vezes, abafam os talentos da xilogravura caririense.

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QUE ARTE É ESSA?

Etimologicamente, a palavra xilogravura tem raízes gregas: xilon (madeira) e grafó (gravar, escrever). É a arte de escrever e desenhar na madeira, cujas  origens se perdem no tempo. Uma das xilogravuras mais antigas que se conhece ilustra um exemplar da oração budista Sutra do Diamante, editada por Wang Chieh, na China, no ano de 868. No Nordeste brasileiro, as xilogravuras  estiveram por muito tempo atreladas às capas dos cordéis, onde ajudaram a revelar talentos e ganharam lugar cativo.

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