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Joaquim Mulato: santeiro penitente

Por Gilmar de Carvalho
Fotos: Francisco de Souza

Joaquim Mulato é um capítulo importante da história das irmandades dos penitentes e das artes tradicionais no Cariri cearense. Este homem, nascido em 1920, morto em 2009, fez uma opção da vida inteira pelo celibato, pelo recolhimento, e pela fé.

Filho de pais agricultores, foi criado por uma família da Barbalha senhorial, e afilhado da “moça velha”, dona Teresa Apolinário, de quem herdou, além da retidão aos princípios morais e religiosos, terras que ele loteou na velhice, alguns santos de um oratório muito peculiar, e uma visão de mundo que se ampliou para o canto, o cacho da penitência, a flagelação em nome de Deus, e a escultura em madeira, outra forma de manifestar sua crença.

Joaquim Mulato é personagem rica de um universo marcado pelo histrionismo e pelo exagero barroco. Ele, ao contrário, tinha o ascetismo de um monge, uma sabedoria zen, e irradiava uma paz que nos contagiava, principalmente quando entoava, à capela, um dos “cento e cinquenta” benditos transmitidos pelo Padre Ibiapina (1806/ 1883) , cearense de Sobral, fundador das casas de caridade, e missionário com um alcance bem mais social que as ameaças dos frades capuchinhos, Frei Vitale à frente, que percorriam o sertão numa cruzada contra as festas, a bebida, o amancebamento, e as modas (missões que tiveram continuidade com Frei Damião de Bozzano).

Joaquim Mulato se integrava à paisagem do sítio onde vivia, chamado de Vila Mulata, em sua homenagem, partindo
de Barbalha rumo ao Crato, via Arajara. Quando não estava a perambular pelas casas dos amigos, o que fazia com maior frequência nos finais de semana, estava sentado na calçada alta da casa, como a ver o tempo passar, ou a esperar as visitas que não eram tantas.

Chegamos lá (eu e depois o fotógrafo Francisco Sousa), por intermédio do Monsenhor Murilo, e na companhia de Daniel Walker, e isso nos deixava em uma situação muito favorável. O Monsenhor, um espírito iluminado, despido de preconceitos contra o tradicional e o popular, com a mente aberta para as formas de reverência ao Criador, que passassem por uma compaixão diante dos humanos, essas criaturas tão desamparadas. Antes de nos levar ao Mestre Joaquim, ele nos falou de sua retidão, chamou a atenção para as esculturas que fazia, e evocava com emoção os benditos que os penitentes entoavam.

Foram muitas as visitas que fizemos à casa velha e mal cuidada do Mestre Joaquim, mas o que importava era sua aura. Voltei, outras vezes, levando grupos de alunos da Comunicação Social da UFC, e também colegas pesquisadores, como Wellington Junior e Inês Vitorino. Saímos de lá, algumas vezes, com o carro cheio de mangas; outras vezes, com as primícias da macaxeira aciolina. A emoção se renovava, sempre. O Mestre vivia este (des)conforto austero, de uma casa sem móveis, com redes nos armadores, e um fogão apagado, pois a comida dele era feita nas cozinhas da vizinhança.

O mundo era barrado à porta e não entrava via rádio ou televisão. Algumas vezes, outros penitentes se achegavam, cantavam benditos, e evocavam as caminhadas dentro das noites, com o cruzeiro à frente, e todo o desejo de purgar os pecados da Humanidade. O canto deles tinha a emissão de um cantochão gregoriano ou de um “mantra”, o que fez o antropólogo Ismael Pordeus Jr. cochilar, de tão relaxante. Vale também relembrar a tranquilidade com que falava, sem a eloquência que se espera de um pregador popular, e sem a arrogância dos donos da verdade. Mestre Joaquim era um homem doce na compreensão das fraquezas dos outros, e rígido na observância às normas da ordem. Era contra a bebida durante os rituais, e rejeitava a presença das mulheres durante a flagelação, um estopim perigoso, nas caladas das noites, quando deviam prevalecer a dor e o sofrimento. Tânatos triunfaria sobre Eros, e a vida continuaria, no dia seguinte, com as mesmas foices e enxadas na roça, as mesmas conversas com os vizinhos, e a mesma vidinha de sempre, entoada como um louvor.

Não nos interessávamos pela flagelação. Era uma cerimônia íntima demais para merecer um registro, e não queríamos sangue, queríamos paz, elevação espiritual, e entender o segredo daquelas esculturas tão duras, cortadas a facão, capazes de provocar a emoção mais forte, pela sinceridade, pela contundência dos cortes, e pela poesia dos nós da madeira, da falta de acabamento, e da expressividade que ele conseguia com poucos elementos e sem recurso aos truques.

As esculturas vieram pela observação das imagens da Igreja Matriz de Santo Antonio, padroeiro de uma Barbalha com água farta, plantações de cana, engenhos de rapadura, e até uma usina falida de açúcar. Com a observação, veio o desejo de esculpir, como uma forma de se sobrepor à rotina dos aviamentos das casas de farinha, ao madeiramento dos telhados das casas, e aos móveis rústicos e sem um desenho mais sofisticado, que ele fabricava desde  jovem, no intervalo das atividades da roça.

A madeira era umburana, a mesma das matrizes das xilogravuras, usada, por ser dócil ao corte, “feminina”, no dizer do poeta e gravador Abraão Batista, proibida pelas autoridades, o que faz com que este material para a expressão artística se torne clandestino.

Santo Antonio foi a primeira imagem e a lembrança mais viva. O São Sebastião, no entanto, fazia a ponte entre a reverência do penitente e a alegria do escultor devoto. O santo mártir protegia contra a fome, a seca, e a peste. Estava num dos benditos ensinados pelo Padre Ibiapina, e incorporado ao repertório dos penitentes. A Nossa Senhora da Conceição era a herança da colonização portuguesa. A madona trazia os anjos nos pés e a aura de Mãe de Jesus a abrir as portas, cada vez mais trancadas, do mundo.

Mestre Joaquim fazia seus próprios instrumentos. Melhor dizer que ele os improvisava, com lascas de metal, restos de facas e facões, colocando cabos de madeira, e assim cortava rostos, detalhes das mãos e pés, fazia o panejamento dos mantos, e sempre se pautava pela iconografia da Igreja Católica, respeitando os atributos e a visão canônica. Ao mesmo tempo, imprimia sua marca, nesse meio termo entre a delicadeza e a “grossura”, optando pela contenção, pela força que se potencializava na secura do corte, na limpeza da composição, e na proposta, da qual ele nem se devia dar conta, de um outro barroco, também de oposições (entre o todo e as partes, o céu e a terra, o pecado e a purgação), de exagero (aqui da contenção) e de fervor.

Mestre Joaquim talvez seja uma das assinaturas mais vigorosas da escultura religiosa sertaneja, que condensa para exprimir, que opta pelo mínimo, ao invés de se derramar pelas volutas, pelos torneados, e pelas sinuosidades dos mantos. É uma escultura essencial, daí sua mestria.

Mestre Joaquim: a contundência dos cortes e a poesia dos nós da madeira

Ele desenvolveu uma série de mais de cinquenta “vultos”, que fazem parte do acervo do Museu de Arte da UFC. Curioso como ele gostava de “encarná-los”. Tinha pincéis precários e latinhas de tinta a óleo (esmalte), de uma marca comercial que servem para pintar portas das casas. Ele ficava frustrado com as “encomendas” porque não podia exercitar a “encarnação”. Constatou, a contragosto, que existiam as peças para devoção, com as cores exuberantes das paletas das fábricas, e outras para os museus, para a “cultura”, como se referia a elas. Não aceitava pagamento, mas cestas básicas que iriam para a despensa dos que preparavam suas refeições. Mas o alimento que o preocupava era o do espírito.

Queria estar bem com Deus e não hesitava, junto com o grupo do qual fazia parte, a purgar, por meio dos “cachos” das disciplinas, os pecados do mundo. Um dos cachos tinha sido herança do Padre Ibiapina, sempre uma referência das histórias que contava das curas; das caminhadas pelos cruzeiros, cemitérios, e capelas da região; dos sangramentos; dos exemplos e da disseminação de um catolicismo que o povo modelou e difundiu a seu modo.

O universo da penitência começou a ganhar espaço com a gravação do documentário (não editado) “A Noite dos Penitentes”, de Jefferson de Albuquerque Jr, Cristina Prata e Maria do Carmo Buarque de Holanda (Pií), de 1978. Depois veio a publicação de “Cultura Insubmissa”, de Oswald Barroso e Rosemberg Cariry, em 1982. O texto de Cariry fugia ao clichê do “fanatismo”, expressão fartamente usada para se referir a essas práticas devocionais.

Em 2000, Rosemberg Cariry e seu parceiro Calé Alencar, tiveram a sensibilidade de levar o grupo a um estúdio, para gravar os benditos. O CD foi lançado e tornou possível a reprodução técnica de um canto até então reservado a poucos. Não era justo que aquelas vozes de anjos sertanejos fossem privilégio de iniciados. Agora, o “bodejado” poderia ser fruído por muitos. Petrus Cariry assinou o documentário “A Ordem dos Penitentes”, em 2002. Josiane Ribeiro publicou, em 2006, sua dissertação, defendida no Mestrado em História da UFC, sobre Padre
Ibiapina, intitulada “Penitência e Festa”.

Tudo isso os levou a uma excursão além dos muros de Barbalha, dentro do Programa Sonora Brasil, do SESC. Desde a segunda metade dos anos 1990, eles desfilavam, meio sem jeito, no cortejo da Festa do Pau da Bandeira.

Por conta da mídia e do envelhecimento do Mestre Joaquim, os conflitos começaram a se evidenciar e se instalou no grupo uma tensão que culminou com uma forte discussão e um afastamento entre o “decurião” (Mestre Joaquim) e o “segundo” na hierarquia do grupo, Seu Severino.

A exposição dos penitentes trouxe alguns benefícios. Joaquim Mulato foi escolhido Mestre da Cultura Tradicional Popular do Ceará, e ganhou um banheiro construído ao lado de sua casa pela Prefeitura de Barbalha, num programa de instalação de “kits” sanitários.

As desvantagens vieram com o “progresso”, o asfaltamento da estrada que implicou a construção de um botequim, quase em frente à sua casa. Poderia ser uma “provação”. O som era ensurdecedor e atrapalhava as conversas. A bebida rolava solta e o barulho das motos era um incômodo contraponto àquele mundo, ao mesmo tempo, celestial e telúrico. Uma dessas motos colheu um dos penitentes, e Joaquim Mulato foi morto também em consequência do atropelamento por uma dessas geringonças, adquiridas graças aos consórcios pagos, quase sempre, por meio da pensão dos idosos.

Outra provação foi o fato de ter sido convidado a viajar para o Rio de Janeiro e de ter sido colocado em um carro alegórico da Mangueira, em pleno desfile de carnaval de 2006, no sambódromo da Marquês de Sapucaí, como parte do enredo que defendia a transposição das águas do São Francisco para o semi-árido nordestino.

Nem o “barroquismo” de Glauber Rocha poderia imaginar situação tão lancinante. O Mestre pode ter fechado ou aberto bem os olhos e / ou vivido ali, seu instante de epifania, sobrevoando aquele cortejo de dragões pirotécnicos, carrancas monumentais, monstros ribeirinhos, bestas feras, serpentes voadoras, e compreendido, que a festa contribui (mesmo que por vias tortas) para a maior glória de Deus, muito mais generoso e compassivo do que pretende nosso fundamentalismo.

Artigo publicado na edição #06 da CARIRI Revista, em agosto de 2013

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