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“Ideologia de gênero”: quem inventou?

Nas últimas semanas, um debate, que já está em pauta há alguns anos, se intensificou no Cariri: devemos permitir a “ideologia de gênero” nas escolas?

A questão formulada desta maneira já aponta para a posição que se quer defender. A expressão “ideologia de gênero” para referir-se à recomendação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) de que se discuta gênero nas escolas, em defesa do respeito às diversidades, é uma invenção daqueles que são contra esta discussão. O termo “ideologia” significa aí uma concepção sobre os gêneros, que teria surgido dos movimentos feministas e da teoria queer, e que seria propagada nas escolas, de forma doutrinária, com a intenção de levar crianças e adolescentes a uma sexualização precoce, a orientações sexuais não heteronormativas (homossexuais, bissexuais) e à transgeneridade. Tudo isto teria como objetivo maior acabar com a família em prol, segundo os mais delirantes, da instalação de um regime comunista, com base no esfacelamento do núcleo familiar.

É claro que nem todos os que defendem os projetos de leis municipais que pretendem proibir a “ideologia de gênero” nas escolas, contra a legislação nacional, acreditam que estamos ameaçados pelo comunismo. As grandes reformas neoliberais estão em curso, a todo vapor, tirando os direitos básicos dos trabalhadores: flexibilização das leis trabalhistas, privatização de estatais e recursos nacionais, reforma previdenciária, sucateamento da educação e saúde públicas, diminuição de programas sociais (bolsa família, minha casa minha vida, farmácia popular…).  Dificilmente algum trabalhador, que sente na pele estas perdas de direitos, que nem nunca chegaram a ser plenamente assegurados, acredita que está em curso uma revolução comunista de tomada de poder pela classe dos trabalhadores, preparada por uma doutrinação cultural. Então, o que é de fato convincente neste discurso que vê a discussão sobre os gêneros como uma ameaça às crianças e famílias?

As crises econômicas e a política geram desemprego, aumento da violência, diminuição das perspectivas para a juventude e deixam as pessoas com medo. A desilusão sobre uma ascensão social que estava sendo prometida e conquistada pouco a pouco faz com que se procurem culpados. Em vez de culpar a ganância daqueles que ficam cada vez mais ricos pela exploração e/ou eliminação dos muitos cada vez mais pobres, os discursos hegemônicos, sobretudo de políticos populistas e religiosos, encontraram um meio de culpar os chamados “formadores de opinião”, professores e artistas, e viram na sexualidade e na família as trincheiras em que podem conseguir a adesão da população em geral e lucrar com isso.

 

(Charge: Angeli)

 

Em vez de lutar contra as corrupções do poder público e privado, passamos a lutar contra educadores e as obras de arte. Em vez de lutar pelos direitos básicos, passamos a lutar por um modelo familiar e sexual opressor. Por quê? Porque tememos as transformações. Porque julgamos que, dada a precarização das condições de vida, a família tradicional, sua moralidade e religiosidade, seriam os únicos portos seguros para nos salvar da destruição. Mas será isto verdadeiro? Serão famílias e igrejas instituições que não geram violência? Se a maior parte dos casos de violência contra as crianças e contra as mulheres é cometida por familiares, como podemos defender o modelo familiar tradicional? Como podemos defender que estas sejam, para todos, as instituições responsáveis pela educação moral e sexual? Como podemos defender que as escolas não falem sobre isso?

Mas, então, “você admite que está defendendo que a escola fale contra a família e as igrejas?” Não. A escola deve fazer o que é seu papel: incitar a reflexão, desenvolver a autonomia e o respeito pela autonomia dos outros, promover valores e direitos fundamentais que a humanidade conquistou e que precisamos garantir às crianças e adolescentes: o direito ao conhecimento, à liberdade, à igualdade e à fraternidade. Estas, aliás, são bandeiras das revoluções liberais e não comunistas. Foram convenientemente sendo deixadas de lado pelos movimentos neoliberais no momento em que se espalhavam pelas partes menos favorecidas do mundo, ameaçando que trabalhadores e trabalhadoras exigissem transformações econômicas, políticas e sociais que permitissem sua realização.

Por que a discussão sobre gênero é fundamental hoje para que a escola cumpra o seu papel de incitar a reflexão? O primeiro convite que a reflexão nos faz é para que percebamos que o nosso modo de compreender a realidade, os outros e a nós mesmos não é “natural” e “imediato”. Nossa “visão de mundo”, aquilo que nós acreditamos que a realidade é, que nós somos, que os outros são, tudo isto é fruto de uma construção complexa em que entram diversos elementos, a nossa tradição cultural que determina e é determinada pelas nossas posições sociais: de classe, de gênero, de etnia, de religião, de orientação sexual, de lugar, de idade, de geração… Tudo isso, e outros fatores mais, circunscrevem a nossa percepção e a nossa compreensão da realidade.

 

(Charge de Laerte)

 

“Isto significa dizer que tudo é ‘ideologia’, que não há lugar para a minha singularidade, para minha reflexão própria?” Bem, a percepção de que temos uma “visão de mundo” construída a partir de aspectos que nós não controlamos e dos quais não somos nem mesmo conscientes, nos envia um novo convite: buscar perceber de que modo construímos a percepção de quem somos, do que é a realidade, do que são os outros, de como acreditamos que podemos e devemos nos relacionar. A compreensão dos gêneros é umas destas pré-compreensões sobre as quais podemos não ter nenhuma posição consciente, declarada, mas com a qual convivemos e com a qual contamos em nossas experiências cotidianas. Quer ver?

Menino brinca de boneca? Menina senta de perna aberta? Homem gosta mais de sexo do que mulher? Mulher gosta de comprar roupas? – Como construímos estas imagens do que é ser homem e do que é ser mulher? O conceito “gênero” se distingue do conceito “sexo biológico” justamente porque ele admite aquilo que a reflexão nos faz perceber. A construção do que é o homem e o que é a mulher, ou do que é feminino ou masculino, não é determinada primordialmente pelo organismo biológico. “Sexo” é uma determinação biológica (que, pasme, também não se resume ao binarismo: masculino e feminino), “gênero” é uma construção social. A indistinção entre estes dois conceitos nos faz naturalizar o que é uma construção social.

Ser uma construção social não significa necessariamente dizer que está errado, que deveria ser mudado. Significa dizer que pode ser mudado. E que para que decidamos se queremos e como queremos mudar, precisamos tomar consciência dela, para podermos julgá-la, para podermos perceber a quem ela serve, quem ela oprime, o que ela esconde, como nos limita e controla, como pode nos impedir de sermos mais livres e felizes.

A “ideologia de gênero” está tão mais presente na escola quanto menos se discutir gênero na escola e quanto menos forem respeitadas as diversidades. Os feminismos e a teoria queer, por exemplo, contribuem para esta discussão ao colocarem em questão: como o sexo biológico vira gênero? Como os papéis de homem e mulher são construídos socialmente? Isto acontece antes de a criança nascer. Se Maria está grávida, qual é a pergunta que Maria mais escuta: é menino ou menina? A resposta vai determinar as expectativas, os presentes, os preparativos para a chegada da criança, de Maria, do pai da criança, das famílias, dos amigos. As cores, os objetos, brinquedos, sonhos e projeções da família não correspondem naturalmente ao sexo, mas criam uma identidade de gênero para a criança que nem nasceu.

 

(Charge: Benett)

 

Quando o neném nasce, rapidamente é necessário expressar, por roupas e adereços, a que gênero ele pertence. Por que ofende tanto às famílias que um bebê de sexo masculino seja confundido com uma menina? Examinemos os rótulos mais comuns: meninas são adornadas, enfeitadas: laços na cabeça, laçarotes, rendas e tais. Por que isto? Os meninos, por seu lado, recebem de início roupas mais confortáveis. Mas veja: o que se veste, o que se calça, o que se coloca na cabeça molda o corpo e os movimentos, ajuda a modelar os comportamentos.

Nós esperamos que os meninos sejam mais “danados”, mais agressivos, corajosos, e nós criamos, com nossas expectativas, as condições para que isso se desenvolva. Nós esperamos que as meninas sejam mais delicadas e nós cobramos isso delas. “Vai chorar que nem menininha?”, “Você parece um menino pulando desse jeito.”. Quem nunca ouviu estas frases? Nós construímos a identidade de gênero através dessas falas, dessas repreensões. Por que isso é ruim? Porque muitas vezes as pessoas não se adequam a estas construções e sofrem. Sentem-se maus, errados, doentes. Muitas vezes as próprias crianças e adolescentes maltratam àqueles que não estão dentro dos padrões estipulados socialmente.

Além disso, a construção do gênero feminino inclui uma submissão ao gênero masculino, fazendo com que as mulheres sejam objetificadas pelos homens. Isto gera muita violência. Os números são alarmantes. Mulheres que apanham, que são estupradas, que são ameaçadas e mortas por seus companheiros ou ex-companheiros por não serem como eles gostariam que elas fossem. Mulheres com menos oportunidades de fala pública, de poder, de trabalhos e salários igualitários.

Discutir gênero é discutir isto. Estamos satisfeitos com esta situação? O texto “Pelo direito dos meninos” mostra como a discussão sobre gênero e a desnaturalização dos papeis sociais é libertador também para quem é do sexo masculino.

Dizer que os papéis de gênero não são naturais não significa estimular a transgeneridade (a mudança da identidade de gênero). Na verdade, a teoria queer (que é chamada ignorantemente de “ideologia de gênero”)  nos diz que o gênero é fluido, que as performances de gênero podem ser desconectadas do sexo biológico, sem implicar em uma identificação do sujeito com o gênero supostamente oposto a seu sexo biológico. Se o debate sobre gênero (aliado aos avanços tecnológicos) aumentou o número de casos de transgeneridade talvez isso se deva mais a uma necessidade de identificação em uma sociedade tão binarista, que só admite que se possa ser homem ou mulher de determinadas maneiras. A busca, através de cirurgias, de um corpo que se adeque mais a seus desejos, que expresse melhor quem você é, não é, aliás, uma exclusividade de transgêneros. As cirurgias plásticas são cada vez mais frequentes naqueles homens e mulheres que se adequam aos padrões de gênero estabelecidos. Há muita hipocrisia e perversão no preconceito contra transsexuais: ao mesmo tempo em que o Brasil é o país que mais mata trans no mundo é o que mais consome pornografia com transsexuais. Que espécie de formação moral se dá baseada no silenciamento sobre isso?

Quanto às orientações sexuais, a heterossexualidade também não é natural e exclusiva, nem mesmo nos outros animais. Nem é a maioria das pessoas que tem experiências exclusivamente heterossexuais. A transformação das vivências e expressões homossexuais ou bissexuais em erros, desvios, pecados, safadezas também gera muita violência. Maus tratos, assassinatos, ódios por aqueles que representam o que seria o mal do nosso próprio desejo. Um filme muito interessante sobre este tema, que mostra o quanto sabemos pouco sobre a nossa própria sexualidade é.

 

(Charge: Benett)

 

Mas são estas questões que queremos apresentar às crianças e adolescentes quando falamos em discussão sobre gênero? Sim, mas de acordo com suas idades e etapas de desenvolvimento. O respeito à diversidade e a desnaturalização da desigualdade de gênero devem estar presentes desde cedo. Nem sempre por algo que professores precisem falar, mas por desconstruírem atitudes, procedimentos e falas sexistas e preconceituosas. Não se trata de dizer que meninos devem ser “femininos”, mas de não exigir que sejam “masculinos”, nem tolerar que sejam agredidos por não serem. Trata-se de garantir que as meninas possam desenvolver suas autonomias corporais e de pensamento para que venha a ser até, se quiserem, ser donas-de-casa em um casamento tradicional. Mas que saibam que merecem e devem ser respeitadas.

Não há na proposta da BNCC nenhum estímulo à sexualização precoce, o que há é a aposta de que conversando com as crianças e adolescentes sobre gênero se possa desconstruir a “ideologia de gênero” vigente: sexista, machista, homofóbica, trasfóbica; para que possamos construir famílias e relações mais felizes. Antes de afirmar que está protegendo as crianças e adolescentes, pense em todas as crianças, jovens e adultos que sofrem simplesmente por serem como são, desejarem e amarem como desejam e amam. Estão ao seu lado, na sua família, às vezes, dentro de você. Se algumas vezes reagem com afronta ao que você considera seus valores religiosos ou familiares é por reação a quanto já foram oprimidos em nome destes valores. Precisamos falar sobre isso.

 


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  • Maria Inez do Espírito Santo

    Excelente texto! Faltou apenas o nome do filme indicado.