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Icasa e Guarani: passado, presente e futuro.

Do campo de terra ao gramado do Romeirão, são 54 anos de confrontos, 44 destes como clubes profissionais. Hoje, os dois principais times de Juazeiro do Norte vivem cenários diferentes, mas buscam acender novamente a paixão pelo futebol local.

No antigo Estádio do Bandeirantes, em Juazeiro do Norte, a torcida aguardava o início da partida decisiva entre Treze e Guarani, terceira final consecutiva entre os dois times, valendo o título de Campeão Municipal de 1962. Sob o sol forte de novembro, os jogadores rubro-negros, de braços cruzados, esperavam a chegada do time rival. Torcida e imprensa pressionavam os dirigentes da Liga Desportiva Juazeirense (LDJ):

— Onde estão os jogadores do Treze? Faltam 10 minutos para o início do jogo.

Até a construção do Estádio Mauro Sampaio, o Romeirão, em 1970, era o Estádio dos Bandeirantes, no bairro São Miguel, que recebia os campeonatos amadores, em Juazeiro do Norte. O campo de terra, um pouco declinado — com marcações das linhas laterais à cal que, muitas vezes, desapareciam junto com a poeira —, não tinha iluminação artificial, e os jogos aconteciam debaixo do sol da tarde. O ingresso custava um cruzeiro, moeda corrente na época.

O Treze Sport Club tinha como treinador Antônio Fernandes Coimbra, conhecido como Mascote, comerciante e fundador do clube. Criado em 1937, o Galo de Mascote, como era conhecido, possuía mais títulos e a maior torcida da região do Cariri. Graças ao sucesso dentro das quatro linhas, durante mais de duas décadas, o Treze era convidado para amistosos em outros estados, aniversários de municípios ou festas de padroeiro.

Por muitos anos, o Treze teve como grande rival o América Futebol Clube, criado em 1941, que vestia vermelho e branco, tal qual o clube carioca que o inspirou. O fundador do clube, Antônio Patu, comerciante, era amigo de Mascote, mas dentro de campo rivalizavam pelo domínio do futebol local. A rixa durou até 1958, quando o time americano fechou as portas e Patu largou o esporte, seguindo a carreira política.

Sem o rival, o Treze viu de perto o crescimento do Guarani Esporte Clube, fundado em 10 de abril 1941 pelo comerciante Emicles Barreto. Mas foi a partir do apoio dos comerciantes do mercado central e com Luiz Bezerra de Sousa no comando que o Leão do Mercado venceu seus primeiros campeonatos no Estádio dos Bandeirantes, em 1960 e 1961. A partir daí, começou a conquistar os antigos torcedores do América.

Três dias antes da final do Campeonato Municipal de 1962, o Galo de Mascote enfrentou o Sport São Francisco, desafiando a LDJ. Isso porque, no ano anterior, a liga entrou em litígio com São Francisco, excluiu o clube dos campeonatos locais e criou um artigo, no seu regulamento, dizendo que “filiado não pode disputar partidas, amistosas ou oficiais, contra um ex-filiado”. Era caso do Sport São Francisco. Mesmo assim, o Treze entrou em campo e acabou multado em três mil cruzeiros.

 

(Fotos: Samuel Macedo)

 

Na véspera da decisão contra o Guarani, no sábado, Mascote enviou ofício aos dirigentes da LDJ, rechaçando a multa e dizendo que a partir daquele ano seu time estava se desligando, definitivamente, da liga. O dirigente deixou o futebol e o Treze Sport Clube, time mais popular do Cariri, paralisou suas atividades. No domingo, no horário do jogo, Taumaturgo Barbosa, presidente da LDJ, proclamou o Guarani como campeão juazeirense de 1962. Seu tricampeonato. Este episódio coincidiu com a fundação de outro time, já no ano seguinte, que passaria a ser o novo rival do Guarani: o Icasa Esporte Clube.

A chegada de energia elétrica no centro comercial de Juazeiro do Norte trouxe as suas primeiras indústrias. Um desses empreendimentos foi a Indústria e Comércio de Algodão de Sociedade Anônima (ICASA) — cujo proprietário era José Feijó de Sá —, que produzia algodão e óleo vegetal. Atrás da fábrica, os funcionários fizeram um campo de futebol onde, antes ou depois do expediente, jogavam “peladas”, divididos entre os empregados do setor de algodão e o do setor de óleo.

Ali, no campo de terra, atrás da fábrica, Praxedes Ferreira, treinador do Volante Atlético Clube, viu a oportunidade de criar um novo time amador para disputar o Campeonato Municipal. Da fusão de funcionários da indústria com os jogadores do Volante nasceu, em 1º de maio de 1963, o Icasa Esporte Clube. Seu primeiro presidente foi Teodoro Germano, e teve Praxedes como técnico. O Icasa adotou, no seu uniforme, o verde e branco — cores da planta algodão.

Com carteira assinada na fábrica, muitos atletas, até mesmo profissionais, foram atraídos para jogar no Icasa. A empresa contratava jogadores para trabalhar na indústria por um salário mínimo. Assim, já no ano de sua fundação, o Verdão do Cariri montou um bom time, surpreendeu e foi campeão municipal, tirando a hegemonia de três anos do Guarani. A partir deste título, passou a conquistar os torcedores do Treze, de Mascote, que fechou as portas no ano anterior.

A resposta do Guarani aconteceu no campeonato seguinte, vencendo em 1964. A reviravolta veio logo em seguida, com o Icasa levando oito títulos municipais consecutivos. Todos as finais disputadas entre eles, e por isso a década de 1960 foi fundamental para consolidar o “Clássico do Cariri”.

Semana de jogo entre Icasa e Guarani era diferente. Os atletas rivais, muitas vezes amigos, deixavam de se falar até o apito final. Durante os treinos, os jogadores das duas equipes faziam provocações no rádio. A partir da quarta-feira, torcedores soltavam rojões e faziam passeatas, a pé ou de carroça, com as bandeiras dos seus clubes, desfilando da Praça Padre Cícero até o Estádio dos Bandeirantes.

Apenas após a inauguração do Estádio Romeirão, em 1970, foi que o futebol juazeirense se aproximou da profissionalização. Anos depois, seus dois maiores times passaram a filiados da Federação Cearense de Futebol. Hoje, com mais de quatro décadas disputando campeonatos estaduais e nacionais, Verdão do Cariri e Leão do Mercado vivem momentos bem distintos.

 

(Fotos: Samuel Macedo)

 

CAPIM DE BURRO

“O Guarani tem brilho próprio. É danado. É como capim de burro. Onde botar, ele nasce, renasce. Time que vem do povo, feito por ideal”
Wilton Bezerra, jornalista.

Numa pequena sala, atrás do vestiário do Romeirão, o Guarani estabeleceu sua sede atual. No chão, dois troféus da Taça Padre Cícero, título de melhor equipe do interior cearense. Na parede, uma flâmula do histórico jogo contra o Náutico, em fevereiro deste ano. Uma das vitórias mais emblemáticas da história do Leão do Mercado: 1 a 0 contra os pernambucanos, que fez, pela primeira vez, o time avançar para uma segunda fase da Copa do Brasil.

Em 76 anos de história, este é o melhor momento do Guarani. Quarto colocado no Campeonato Cearense 2017, foi eliminado somente na semifinal contra o Ceará — campeão e time de maior investimento no estado. Apesar da queda, o Leão do Mercado garantiu participação no Campeonato Brasileiro da Série D de 2018, caso não conquiste o acesso à terceira divisão nacional este ano. Isso significa um calendário recheado de jogos e a expectativa de renda com bilheteria, patrocínios e premiações.

 

Não foi dessa vez: “A gente poderia ter chegado mais longe se a gente não tivesse pego o Ceará”, avalia o ex-presidente do Guarani, Mário Vidal, sobre o Estadual (Fotos: Samuel Macedo)

 

Fora do campo, o time rubro-negro também busca se estruturar. Ano passado, adquiriu um ônibus e construiu um Centro de Treinamento, mas precisa de parceiros para ampliar o projeto. “Precisamos de um campo bom para treinar, melhor que o que está hoje. O campo tem que ficar, no mínimo, igual ao Romeirão”, explica Mário Vidal Filho, presidente do Guarani, acrescentando que a ideia é tornar o CT a sede do clube, com alojamentos para os jogadores.

Se hoje o Guarani possui melhores condições de trabalho, em 2012 ficou bem perto de ter suas atividades paralisadas. A Federação Cearense de Futebol puniria o Leão caririense caso desistisse de participar da Taça Fares Lopes, torneio secundário que dá vaga na Copa do Brasil. Isso motivou Mário Vidal Filho, advogado, de 53 anos, a comandar o clube.

Torcedor do Guarani desde criança e filho do ex-jogador rubro-negro Mário Vidal, realizou o sonho do pai assumindo, primeiro como conselheiro e, depois, a presidência do clube. “Ele não teve condições na época, e me pedia muito para que não deixasse o Guarani se acabar. Corremos atrás de patrocínio, colocamos do bolso da gente, pedindo a um e a outro”, explica. Junto com João Severo, diretor de futebol, o Leão do Mercado formou um time com pratas da casa e foi campeão da Taça Fares Lopes em 2012.

 

São muitos os desafios dentro e fora e campo, avalia Valdenor Agra, presidente do Icasa (Fotos: Samuel Macedo)

 

De lá para cá, o time aumentou sua participação nas competições nacionais. Nos últimos dois anos também esteve entre os quatro melhores do Campeonato Cearense, conquistou o bicampeonato da Taça Fares Lopes em 2016 e participou, pela segunda vez, da Copa do Brasil este ano. Disso tira as principais receitas: direitos de televisão e premiações.

Outra contribuição importante são as parcerias. Hoje, a principal delas é com a empresa paulista Neto Sports, que ajuda o clube a contratar jogadores, enquanto o Guarani dá visibilidade a esses atletas. Em caso de alguma negociação, o clube juazeirense fica com parte do valor. Existem, também, empresas de alimentação que oferecem seus produtos em troca de um lugar na camisa.

Por outro lado, o clube tem várias despesas. Há dois anos, o Guarani aluga uma pousada para hospedar os jogadores que vêm de outras cidades. “Se a gente tivesse alugando residências, era muito maior (as despesas). Lá fica todo mundo junto. Mas sempre aparece alguma coisa. No futebol, se você fabricar dinheiro, não dá tempo nem de enxugar”, brinca Mário Vidal.

Atualmente, o Guarani apresenta uma dívida de cerca de R$ 1 milhão, advinda, em sua maioria, de processos trabalhistas. Segundo o presidente, o valor chega a ser baixo se comparado aos outros clubes de futebol. “A dívidas são sanáveis se a gente tiver um retorno financeiro. A Justiça do Trabalho é muito dinâmica, os valores mudam”, acrescenta Mário, que conseguiu, recentemente, uma liminar que desconta 15% da renda dos jogos para pagamentos de dívidas. Antes, toda bilheteria era bloqueada.

 

Aposta no futuro: a escolinha e as categorias de base são as apostas à longo prazo do Icasa (Foto: Samuel Macedo)

 

DEPOIS DO PADRE CÍCERO, O ICASA

“Eu acho que, depois do Padre Cícero, quem mais divulgou a cidade de Juazeiro foi o Icasa”
Francisco Silva, o Foguinho, radialista, falecido em 2014.

Se por um lado o Guarani vive um dos melhores momentos de sua história, o Icasa vive o contrário. Foi vice-campeão cearense em três oportunidades (2005, 2007 e 2008), vice-campeão brasileiro da Série C (2012) e teve quatro participações na Copa do Brasil e quatro no Campeonato Brasileiro da Série B. Em 2013, o Icasa ficou a um ponto de subir para a elite do futebol nacional. De lá para cá, foram três rebaixamentos, figurando, hoje, na segunda divisão do Campeonato Cearense.

Além disso, o Icasa também acumulou dívidas trabalhistas com jogadores e antigos funcionários. Os processos vêm de várias partes do Brasil. Segundo a atual diretoria, a maioria são dos últimos três anos. Ainda não se tem o cálculo exato, mas estima-se que o valor gire em torno de R$ 10 milhões.

Indignados com a situação, os irmãos Valdenor e Luiz Agra resolveram participar do conselho do clube e, no final do ano passado, criaram a chapa para concorrer à presidência do Icasa. Na reunião de lançamento, não havia sequer energia elétrica na sede, o Centro de Treinamento “Praxedão”. Mesmo assim, a Libertadores do Icasa, chapa única, venceu por unanimidade, e sonha com novos rumos para o Verdão do Cariri.

 

(Fotos: Samuel Macedo)

 

Há seis meses no cargo de presidente do Icasa, Valdenor Agra, major da Polícia Militar, 40 anos, se diz mais torcedor que presidente. Essa paixão começou ainda criança, graças ao tio Normando Macedo, que o levava ao Romeirão na década de 1980. “Eu nunca sonhei em ser presidente do Icasa. Por mim, estava lá na arquibancada, torcendo. Meu sonho era ser campeão cearense. Quando lançamos a chapa, eu pensei ‘Se eu quero ser campeão, eu preciso fazer algo mais’, e vi que assumir a presidência executiva, dar uma nova cara, uma nova gestão, era necessário”, explica o Major Agra, que é formado em administração de empresas.

Com isso, Major Agra acredita que este é o momento para os torcedores se unirem e ajudarem o clube. Hoje, por exemplo, o Icasa não possui funcionários. Mas há voluntários, como advogados, contadores e professores. “Ficar de braços cruzados, esperar o time melhorar para voltar a ajudar, a torcer, essa lógica não ajuda”, acrescenta. Atualmente, o Centro de Treinamento possui uma urna para receber contribuições de qualquer valor.

Cortar despesas e aumentar receita foi a saída. Quando Major Agra assumiu, o Icasa tinha alguns funcionários, mas todos foram dispensados. “Não tinha como pagar, nem como dar baixa na carteira. Não tinha um centavo em caixa”, acrescenta. Hoje, a principal aposta de receita é o programa de sócio-torcedor intitulado de 300 Libertadores, com meta de atingir 300 associados em cada uma das quatro categorias: diamante, ouro, prata e bronze. Além disso, o clube aposta em parcerias com universidades locais para ter bolsistas ajudando fora das quatro linhas.

Dentro de campo, os primeiros seis meses de gestão não foram bons. Sem recursos para contratar jogadores caros, o Icasa sequer ficou entre os quatro melhores na segunda divisão do Cearense. Segundo o presidente, muitos atletas desejavam jogar no clube, mas financeiramente o Verdão não atraía. “A gente não deu a estrutura que queria. Às vezes, tinham atletas dormindo num quartinho muito apertado, que eu não gostava nem de ver. Me causava uma tristeza vê-los mal alojados”, lamenta Major Agra.

As coisas começaram a melhorar durante a disputa. Fora de campo, conseguiu uma casa para alojar melhor os jogadores; dentro das quatro linhas, conquistou duas vitórias consecutivas que deram chance de classificação na última rodada. No entanto, diante de três mil pessoas, sofreu uma goleada de 4 a 1 para o Iguatu no Romeirão. “Os que jogaram foram heróis, porque vieram pela camisa, pelo propósito de serem campeões”, exalta o presidente.

 

“O Icasa é do Cariri. A gente espera que os torcedores, não só de Juazeiro, mas de Caririaçu, Brejo Santo, Missão Velha, etc., se sintam donos do time”, afirma o presidente.

 

CONSOLIDAÇÃO E CRESCIMENTO. RESGATE DA PAIXÃO.

O Leão do Mercado iniciou mais uma disputa de Campeonato Brasileiro da Série D. Mantendo a base do time do estadual, o começo foi bom: vitória de 1 a 0 contra o tradicional América, de Pernambuco. A expectativa da diretoria é buscar o acesso à Série C.  “Pela forma que a gente está trabalhando, se tudo der certo, a tendência é a melhor possível. A gente não pode deixar de estar nos torneios nacionais. Pelo menos um por ano. Ninguém pode retroagir”, exata Mário Vidal.

Além disso, o Guarani espera conquistar o tricampeonato da Taça Fares Lopes e retornar à Copa do Brasil ano que vem. Se no começo do ano o Leão do Mercado teve dificuldades financeiras até para iniciar a pré-temporada, como “capim de burro”, remontou e conquistou o terceiro lugar no campeonato cearense. “A gente poderia ter chegado mais longe se a gente não tivesse pego o Ceará. Mas foi bom. Fomos eliminados pelo melhor clube do estado hoje. Os atletas mostraram a capacidade de cada um, individual e coletiva.”

Já o Icasa aposta no sucesso a longo prazo, mas também acredita no título da Taça Fares Lopes no segundo semestre. A receita com a participação na Copa do Brasil é o sonho do Verdão. “Mesmo sendo um campeonato deficitário, já que praticamente todo time tem prejuízo, se a gente tiver prejuízo para depois ter uma recompensa, a gente vai investir”, completa Major Agra, que acredita no retorno às competições nacionais.

Por outro lado, o clube mantém sua escolinha de futebol no CT Praxedão, funcionando nas terças, quintas e sábados, recebendo crianças acima de seis anos, e que hoje conta com 19 participantes. A ideia não é apenas formar jogadores, mas torcedores do clube. “A base é importante. É daí que a gente vai tirar um jogador craque e barato. O problema é que o retorno não é a curto prazo.” Também pensando no futuro, o Icasa firmou parceria com o Centro de Referência da Assistência Social (CRAS) do bairro Horto, levando crianças aos jogos para entrar em campo com os jogadores, fazendo com que tenham o primeiro contato com o Romeirão.

 

(Fotos: Samuel Macedo)

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