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Histórias de romeiros

Duas histórias de famílias que conviveram com o Padre Cícero mostram como Juazeiro foi marcado pela sua influência, no seu tempo e no nosso tempo

Dizem aqueles que viveram a época, que a casa de Padre Cícero era a casa do povo. As paredes que hoje abrigam um museu em homenagem ao religioso testemunharam por anos a fio o entra e sai desassossegado de outrora. Todos queriam conselhos, remédios, ajuda. E o padrinho estava sempre a postos para receber quem chegasse.

Nem sempre. Há quem diga que algumas vezes o Padre simplesmente sumia – já que ninguém o via sair pela porta da frente – e deixava os visitantes surpresos pela sua ausência. Mal sabiam eles que era uma portinha nos fundos da casa o segredo de Cícero. A porta dava acesso à casa do amigo Juvêncio Joaquim de Santana, nomeado em 1923 o 1º juiz de direito da comarca de Juazeiro do Norte. Era lá que tantas vezes Padre Cícero repousava, aproveitando a tranquilidade de outro teto, mas sem afastar-se do povo. Qualquer urgência, ele estaria a apenas uma porta de distância.

A relação com Dr. Juvêncio começou quando este era magistrado da comarca vizinha, Jardim. Os comentários sobre o bom trabalho do juiz chegaram aos ouvidos de padrinho, que tratou de convidá-lo para assumir o posto logo ao lado. Convite aceito, Juvêncio mudou-se para Juazeiro, onde sua família – já na quarta geração – vive até hoje.

A casa, construída e oferecida à família por Padre Cícero, continua em pé e é mantida pelo neto, Juvêncio Gondim, empresário da região. “Se você for ver a importância histórica e pessoal da casa, o valor comercial não é nada”, comenta o neto, para quem a mão de Padre Cícero determinou não só a vida de sua família, mas o destino de Juazeiro do Norte inteiro. “Nada disso existiria se não fosse ele. Independente de milagres, era um homem de muitas virtudes”, afirma sem rodeios.

Entretanto, na visão do empresário, a cidade tem deixado aquém o projeto sonhado pelo religioso. “O rumo ele já deu, mas se não seguirmos, vamos acabar chorando sob o leite derramado. Acredito que apesar de todo o desenvolvimento que estamos vivendo, temos muito potencial desperdiçado”reflete.

Em uma situação hipotética, Juvêncio Gondim imaginou como seria a oportunidade de encontrar com Padre Cícero nos dias de hoje. Se possível fosse, não pediria bênçãos, pediria apenas paciência: “Continue tendo paciência, meu padrinho, que um dia essa cidade chegará aonde você gostaria que ela estivesse, estamos trabalhando para isso”.

Cícero Peixoto e sua família: a saga da determinação

Cícero Peixoto e sua família: a saga da determinação (Fotos: Rafael Vilarouca)

NEM GIGANTES, NEM ANÕES

A história parece até difícil de acreditar. Foi no ano de 1929, em pleno sertão nordestino, que a enorme família resolveu reunir as crias e partir. Eram quase 150 homens, mulheres e crianças, que seguiam montados em animais, partindo do sul de Alagoas rumo ao Juazeiro do Norte, no Ceará, depois de venderem todos os bens.

O motivo do êxodo foi-se entender anos depois, quando a dúvida sobre o quão certeira fora aquela decisão já corroía muitos deles. No fim das contas, as terras deixadas para trás eram mais férteis. Mas não mais abençoadas. A motivação foi revelada ao Padre Cícero por um dos representantes da família, quando houve a oportunidade de pedir conselhos sobre a má situação que os perturbava: “Largamos tudo para ficar mais perto de meu padrinho”. A fama do religioso, que tornaria próspera a região tão castigada pelo sol equatorial, havia se espalhado pelo Nordeste.

Alguns persistiram na fé; outros resolveram retornar ao ponto de partida; e houve ainda quem ficasse num penoso vai e volta até ter certeza de onde deveria assentar morada por definitivo. Foi o caso da família de Sr. Cícero – vê-se no nome –, que acabou por deixar de lado as relutâncias e esperar em Juazeiro a bonança tão sonhada. E ela chegou!

Foi primeiramente no mercado de joias que seu pai, João Peixoto da Costa, ainda vivo e devoto de padrinho, encontrou a oportunidade para os negócios. “Em época de romaria a gente ficava em festa, devido ao tanto de medalhinha e brinquinho que era vendido”, relembra Cícero Peixoto. O ramo rendeu bons frutos até o fim dos anos 70, quando a venda de joias começou a cair e o negócio desandar. “Foi em 1976, depois de muitas conversas, que meu pai, meu cunhado e eu resolvemos abrir a Casa do Eletricista”, conta o comerciante.

Mais de trinta anos depois, o negócio continua em vertiginoso crescimento. Cícero explica que o tipo de material vendido continua sendo o mesmo, apenas o tamanho mudou: “Já fizemos quatro mudanças; no começo eram apenas 130m2, agora já são 1.500”. Para ele, a mão de Padre Cícero continua a abençoar Juazeiro, que vem alcançando relevantes índices de desenvolvimento. O importante é ter paciência e nunca parar: “Nunca fomos de passos grandes, mas também não somos anões. Estamos sempre tocando o barco em frente, com muito prazer e satisfação”.

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