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Histórias de persistência

Há um capítulo da história da Fiat no Brasil que é contado em Juazeiro do Norte: a Cevema é uma das 18 concessionárias mais antigas da marca italiana no país, e há 40 anos vem resistindo às mais duras provações. Sem lamentações, mas confiando em sua persistência, que nunca falhou, Raimundo Tadeu de Alencar vence mais um obstáculo e conta à CARIRI o que 40 anos de mercado lhe ensinaram.

A Fiat demorou a chegar no Brasil porque decidiu firmar seus pés na América Latina a partir da Argentina, nos anos de 1950. As empresas Ford e Volkswagen já estavam por aqui quando, em 1976, a marca italiana lançou seu primeiro automóvel no país, o Fiat 147, modelo que foi projetado pensando nas condições das estradas do país — esburacadas e cheias de poeira.

Com montadora fixada em Betim (MG), no ano seguinte a fábrica já tinha centenas de concessionárias em todo o país. Hoje, somente 18 daquelas concessionárias inauguradas em 1977 estão em pleno funcionamento e podem comemorar os 40 anos da empresa no Brasil.

Uma delas é a Cevema, sigla para Ceará Veículos, Máquinas e Acessórios Automotivos, fundada por José de Sá e Sousa, mais conhecido como Carlito. A concessionária foi inaugurada na rua Leão XIII, antiga Lagoa do Manoel Farias, quando aquela ainda era uma área distante do tímido centro de Juazeiro do Norte, que vinha se expandido em sua direção.

Três anos depois de inaugurar a Cevema, Carlito a vendeu para o médico Evandro Alencar, que por sua vez convidou o irmão, Raimundo Tadeu de Alencar, para ser seu sócio. Aquele era o ano de 1980, e Tadeu, engenheiro de formação, quando chegou ao Juazeiro encontrou uma cidade ainda engatinhando no desenvolvimento, mas resolveu apostar no ramo.

“Um dos capítulos da história da Fiat no Brasil é contado no Juazeiro”, Tadeu se orgulha. Em 1983, Dr. Evandro decidiu passar toda a empresa para as mãos do irmão. Naquela ocasião, o Fiat 147 ainda era o carro mais popular no Brasil, e em seu escritório na Cevema — localizado a poucos quarteirões de uma das principais vias da região, a avenida Padre Cícero —, Raimundo Tadeu lembrou-se dos 40 anos de história da empresa. Aquele trecho, no bairro Salesianos, era considerado “a entrada do Crato”, de tão longe que era do centro de Juazeiro. A longa avenida não passava de uma estradinha de terra e de mão única entre as duas cidades. O mercado automotivo, como sempre, oscilava.

Em Lavras da Mangabeira, como em todo o Cariri, as ruas cheias do Fiat 147, o carro mais vendido na época. (Foto: Acervo Fotográfico Daniel Walker e Renato Casimiro)

Natural de Araripe, antes de vir ao Juazeiro, Raimundo Tadeu fez academia militar e passou pelo Centro de Preparação de Oficiais da Reserva do Recife. Ao ser questionado se a carreira militar o preparou de alguma forma para a vida de empresário, ele resume tudo em uma palavra: lealdade. Hoje com 68 anos, manteve-se fiel à sua perseverança, necessária em um ramo tão cheio de altos e baixos. Quando assumiu a Cevema, vender, por si só, já era difícil. Sem financiamento para compra de automóveis, as concessionárias se viam obrigadas a confiar em cheques e receber duplicatas. Facilidades para o comprador e melhores condições para as montadoras só vieram nos anos de 1990, com as medidas implementadas pelo então presidente Fernando Collor, às vésperas da formulação do Plano Real, quando a inflação chegou a exorbitantes quatro dígitos. A abertura de crédito durante os governos Lula e Dilma foram o ápice, até que, em 2013, o mercado chegou ao seu melhor momento: só a Cevema fazia mais de 200 vendas por mês. Hoje, o número caiu para 80.

“O setor de automóveis é cíclico; enfrentamos vários períodos como esse”, fala com tranquilidade. Em vez de se lamentar, ele chega a comemorar, e relembra a época em que os bancos eram tão seletivos que era quase impossível conseguir um financiamento. Hoje, ao contrário, os bancos disputam os clientes. Reviravoltas como essas sempre acontecem no mercado. Esperançoso, ele acredita que dias melhores virão. De fato, a Cevema tem muito a continuar oferecendo: a empresa presta também serviços de assistência a cidades em um raio de 100 km do Juazeiro e, além de vendas, faz revisão e oferece serviços de manutenção, funilaria, mecânica e lavagem de carros.

Enquanto há países que vêm diminuindo exponencialmente a venda de automóveis, Tadeu acredita que este ainda não chegou ao Brasil. “Ainda estamos na faixa de pessoas comprando o primeiro carro. Ou seja, esse mercado ainda não se esgotou”, ele explica. “E hoje, comprar um automóvel é muito mais acessível”, comemora. Contudo, uma crítica, a única: “As cidades não estão expandindo da maneira correta. A gente precisa pensar numa cidade para daqui a 50 anos”. Tadeu percebe que hoje as pessoas se locomovem menos e resolvem tudo pela internet. Mesmo assim, diz, “ainda cabe mais carro no Cariri”. E arremata, com um sorriso no rosto: “Tudo evolui”.

(Fotos: Samuel Macedo)

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