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GÊNERO | Alexandre Nunes entrevista Wiarlley

No dia 29 de junho, Wiarlley de Almeida apresentou sua monografia no curso de Teatro da Universidade do Cariri e se tornou a primeira travesti a se formar ali. O repórter Pedro Philippe contou, em uma crônica, a história da atriz.

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No documentário “Mulheres” (de Edwin Carvalho, 2015), uma das entrevistadas afirma ter se dado conta de sua própria transexualidade ao ver na TV uma matéria sobre a instalação “Cicero Romão”, do Bando, coletivo artístico do Cariri. A arte, e em especial o teatro, ajudou de alguma forma no seu processo de descoberta? Como se deu o mesmo?

Sim, o Teatro ajudou bastante pra que eu pudesse chegar até essa descoberta. Desde o início da minha adolescência eu comecei a perceber que eu era “diferente” das outras pessoas. Como eu disse em outra entrevista, “eu percebia que era um menino que gostava de outros meninos, e não de meninas”. Nos meus 20 anos de idade, eu já tinha a certeza de minha sexualidade, porém sentia que eu ainda não estava vivendo da forma como eu gostaria de viver. Eu já tinha me assumido pra família, pros amigos e pro mundo, mas continuava a usar roupas masculinas, corte de cabelo masculino. Maquiagem então?! De jeito nenhum. Depois que entrei na universidade (no curso de Teatro da URCA) eu comecei a perceber que aquele era um lugar onde as pessoas podiam ser quem elas sempre quiseram ser. Eu sentia que ali eu poderia ser a pessoa que eu tanto desejava ser. Uma pessoa que, apesar de optar por usar o nome de batismo, que é masculino, mas que se sentia com uma alma feminina. Então, a partir dos meus 20 anos, eu mudei! Decidi que não seria mais “O Wiarlley” e sim “A Wiarlley”. Hoje uso diariamente roupas femininas, uso maquiagens, sandálias de salto… enfim, sou a pessoa que eu sempre quis ser.

Quais foram as principais dificuldades e surpresas positivas que você vivenciou no âmbito da Universidade com relação à identidade de gênero?

Em relação ao meu nome, eu nunca tive problemas. Eu sempre gostei de ser chamada por meu nome de batismo. É um nome masculino, porém eu gosto bastante. Dentro da universidade eu nunca sofri nenhum tipo de preconceito. Pelo contrário, eu tinha todo apoio de meus colegas e de meus professores. Todos sempre me admiraram pelo o que eu sou. Jamais sofri qualquer tipo de discriminação ou preconceito lá dentro, e isso inclui também o uso dos banheiros, pois no Centro de Artes não temos um banheiro masculino e um banheiro feminino. Temos dois banheiros unissex, porque lá é de fato um lugar onde a diversidade está bastante presente, e essa diversidade é apoiada e respeitada por todos. Já nos ônibus, sempre existiu (e sempre vai existir) aqueles olhares de pessoas que me olham como se eu fosse doente ou algo assim, mas isso nunca me incomodou.

Recentemente soubemos do brutal homicídio, ocorrido na UFRJ, que vitimou o estudante de arquitetura, Diego Vieira Machado.  O mesmo era negro, gay e do Norte do país. Quais os desafios que você percebe que estão postos para a população LGBT e seus direitos através das políticas publicas?

Penso que este atual governo, mesmo sendo um governo formado por machistas e homofóbicos, deveriam unir suas forças para tentar combater a violência que todos os dias mata esse grande número de pessoas. Nesse momento, eles devem, sim, esquecer ou pelo menos deixar de lado a homofobia e pensar que somos todos seres humanos e que não merecemos passar por tamanha crueldade como Diego e tantos outros passaram.

Como as artes podem contribuir na cultura para o respeito à diversidade sexual, de gênero e diferenças em geral, em um contexto onde o Brasil é o campeão mundial em assassinatos de LGBT e também um país que desrespeita o Estado Laico?

Eu busco, em meus trabalhos artísticos, mostrar para o mundo que existem pessoas assim como eu, que a sociedade condena, julga, mata, que nos consideram anormais, sendo que somos tão normais quanto eles, ou até MAIS normais, pois não matamos e não julgamos, e nem mesmo fazemos apologia ao ódio como muitos que se consideram “normais” fazem. Penso que essa seja uma das formas que a arte pode proporcionar para que a sociedade nos veja, nos perceba, nos reconheça e nos respeite. Tenho espetáculos como “As Sete Formas de Amar” onde mostro um casal de lésbicas que se apaixonam ainda jovens, e um casal homossexual que se conhecem em um programa e acabam se apaixonando. Não mostro uma história bonita e fácil, porque sei que a vida pode ser bonita, mas fácil ela não é. Mostro uma realidade que acontece diariamente com tantas pessoas pelo mundo, e que a sociedade, além de fechar os olhos e virar as costas, ainda condena. Mas, apesar dessa realidade que é mostrada no espetáculo, deixo também uma mensagem final para que as pessoas possam perceber o quanto o mundo é egoísta em imaginar que não merecemos o respeito que buscamos.

O tema de sua pesquisa, “Memória Como Metodologia Para Construção Cênica”, trata direta ou indiretamente das questões de transexualidades? Fale-nos sobre ela.

Na verdade, a pesquisa de minha monografia não está relacionada a gênero ou a sexualidade. A pesquisa trata sobre a construção de cenas teatrais a partir das memórias dos atores e essa pesquisa começou a ser desenvolvida enquanto ainda estava no início do curso em 2010, e ganhou mais força depois que criei a minha companhia de Teatro Cia. Mákara de Teatro, onde trabalho com jovens atores entre 16 e 20 anos de idade, e nos nossos trabalhos eu lhes dou a liberdade de criar e trabalhar em cenas teatrais que sejam criadas com suas próprias memórias. Memórias da infância, da adolescência, de algum relacionamento, etc.


Esta é uma coluna de opinião. As informações e ideias expressas neste espaço são de responsabilidade única do autor.

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