Cariri Sustentável

Coleta seletiva em casa é simples, rápido e faz toda a diferença; aprenda

Por Alana Maria • 30 de março de 2018

A destinação correta dos resíduos sólidos ainda é uma das principais questões a serem resolvidas para se atingir a gestão sustentável das cidades. Apesar da Política Nacional dos Resíduos Sólidos ter exigido em 2010 a total eliminação de lixões a céu aberto até 2018 para cidades médias e grandes, em 2017 o país ainda registrava 3.000 lixões a céu aberto, segundo estudo da Associação Brasileira das Empresas de Limpeza Pública (Abrelpe).

O cenário se agrava com o dado de que aproximadamente 85% dos brasileiros ainda não possuem acesso a serviços eficientes de coleta do lixo ou coleta seletiva próximos a si, como aponta o levantamento realizado pela associação sem fins lucrativos Compromisso Empresarial para a Reciclagem (Cempre). Mesmo naquelas cidades que possuem algum tipo de coleta seletiva, como no caso das lixeiras públicas que indicam a separação por tipo de descarte (vidro, papel, metal e plástico, por exemplo), a Cempre denuncia um número ainda menor de cidades que efetivamente realizam a triagem dos resíduos em centros especializados antes de depositar nos já politicamente atrasados lixões.

 

Ponto de Coleta Seletiva pública, em Crato. Saco de lixo fora dos cestos chama a atenção. (Fotos: Alana Maria)

 

Enquanto os debates no setor público e empresarial acontecem lentamente, iniciativas individuais surgem como alternativas no melhor estilo “faça sua parte”. Uma dessas iniciativas, a coleta seletiva simples doméstica, propõe, a grosso modo, o exercício da educação ambiental dentro de casa através da separação simples dos resíduos entre seco e úmido e/ou reciclável e não-reciclável, conforme explica a professora da Faculdade de Engenharia Ambiental do IFCE em Juazeiro do Norte, Joelma Oliveira.

“É importante que as pessoas compreendam a distinção entre lixo e resíduo, uma vez que lixo é aquilo que não tem mais nenhum valor agregado, logo, não tem mais funcionalidade e seu destino deveria ser o aterro sanitário”, a professora explica. Já o resíduo seria aqueles itens que ainda podem ser aproveitados de alguma forma e, portanto, ainda possuiriam valor econômico e valor agregado. Segundo a professora Joelma, mais de 90% do que descartamos em casa não é lixo, mas resíduo. “Estamos descartando potenciais que poderiam ser aproveitados em alguma escala e entregando aos lixões”, afirma.

 

Professora Joelma Oliveira, Ana Beatriz Batista e Monique da Silva Albuquerque (esqr para dir), membros da Equipe de Programa de Extensão em Gestão e Política Ambiental do IFCE, em Juazeiro do Norte. (Fotos: Alana Maria)

 

Leia mais sobre destinação do lixo:

> Uma vida sem lixo

> Selo Verde: descarte corretamente seu lixo sem sair de casa

 

FAZENDO A DIFERENÇA NA PRÁTICA

Um exemplo prático do despertar da consciência e do dever ambiental é o caso vivido pela professora universitária Juliana Lotif, em Barbalha. A partir do momento em que se viu mãe e chefe de família, Juliana percebeu a necessidade de praticar maior responsabilidade ambiental em seu cotidiano. Em sua casa, o descarte dos resíduos é feito em forma de coleta seletiva simples e a alimentação da família segue o princípio da preferência pelos orgânicos em detrimento aos embalados ou enlatados.

Utilizando o sistema mais simples de coleta seletiva com dois recipientes (lixeiros), Juliana separa os itens secos – como caixas de leite, embalagens, papel alumínio, vidro, isopor, plásticos em geral e etc. – dos itens úmidos – que seriam restos de comida, cascas de alimentos, borra de café e etc – já no momento do descarte.

 

Juliana cultiva uma pequena horta caseira, onde planta e colhe pimentões, pimentas e ervas. As crianças participam de todo o processo. (Fotos: Alana Maria)

(Fotos: Alana Maria)

 

Com a despensa pequena, mas com geladeira e a fruteira estão sempre cheias, a professora explica sua preferência pelos orgânicos tanto por uma questão de saúde e bem-estar, como por histórico familiar. “Nasci em Irauçuba, no sertão, norte do estado, e como minha família não vivia no luxo, nós comíamos o que estava à mão. Geralmente o que estava à mão era alimento orgânico”, revela.

“Dizem que quando mais saudável for sua alimentação, menos embalagem você vai abrir e mais frutas vai descascar. É isso o que tentamos fazer aqui”, conta ainda. Na busca pelo equilíbrio, Juliana Lotif organiza alimentação, consumo e responsabilidade ambiental, como a professora Joelma Oliveira analisa: “Geralmente, quando falamos em atitudes sustentáveis, pensamos no lixo, mas raramente correlacionamos com uma efetiva redução da produção desse lixo”, afirma a especialista em gestão ambiental. Em poucas palavras, Joelma sugere que consumir menos intuitivamente e mais conscientemente também têm grande poder sobre o destino do lixo nas cidades.

“Uma prática simples que reduz drasticamente a geração de resíduo é realizar compras semanais e não mensais”, afirma. “É comum as famílias comprarem um número maior de alimentos perecíveis que vão se estragar antes de serem consumidos, então seu destino é a lixeira. Um planejamento faz toda a diferença em gasto financeiro e em produção de lixo. Não devemos ter vergonha de consumir menos”, sugere.

 

Sacos de lixos separados, prontos para a coleta. (Fotos: Alana Maria)

 

COMO FAZER COLETA SELETIVA EM CASA

>> Separando o resíduo seco e úmido.

Bastam dois recipientes, um maior para o resíduo seco e um menor para o resíduo úmido, para começar a fazer a diferença.

No seco vão itens como garrafas de plástico, latas, caixas tetra pak, recipientes de vidro, papelão, papel limpo, itens de madeira, etc. É importante que os itens estejam minimamente limpos. Tomando como exemplo uma caixinha de creme de leite, o ideial seria lavar a caixinha com água para limpar o resíduo do creme.

Já no úmido vão todo tipo de resíduo orgânico, como cascas de frutas não aproveitáveis e restos de comida.

 

Um recipiente já é o suficiente para separar o resíduo seco do úmido na coleta seletiva simples doméstica. (Fotos: Alana Maria)

 

>> Resíduo reciclável e não-reciclável

Resíduo orgânico úmido não podem ser recicláveis da forma como entendemos a reciclagem do plástico, por exemplo. No entanto, esse tipo de resíduo pode servir para formação de adubo.

Já resíduos como papel toalha sujo, papel higiêncio, fraldas descartáveis, espumas e papel carbono são considerados lixo por serem não-recicláveis.

Nesse caso, quem procura manter responsabilidade ambiental, jamais deve misturar resíduo reciclável com resíduo orgânico ou com lixo sanitário.

 

Na Associação Engenho do Lixo, em Juazeiro do Norte, onde agentes de reciclagem recolhem e separam os materiais. (Fotos: Alana Maria)

 

>> Outros descartes:

Óleo de cozinha. Despejar o óleo de cozinha no ralo é, além de perigoso, irresponsável. Apenas 1 litro de óleo pode contaminar mais de 20 mil litros de água. Para descartar corretamente, separe o óleo até esfriar e, após isso, reserve em uma garrafa selada. Conheça instituições que reciclam o óleo.

Pilhas. Baterias, peças de computador, som, televisores, micro-ondas, celulares e lâmpadas devem ter um destino próprio. Em Juazeiro do Norte, ecopontos fazem a coleta desse tipo de resíduo.

 

Leia mais:

> Cariri Shopping e Engenho do Lixo em campanha pela reciclagem do óleo de cozinha

> Opinião: “O que está em jogo não é a natureza, mas a nossa própria sobrevivência” 

Alana Maria