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Fábio Carneirinho: um forrozeiro em Moscou

Em 2002, aos pés de Padre Cícero, fez sucesso cantando que o melhor lugar do mundo era encostado ao Crato. Em 2014, sentiu o declínio da tradição deixada por Luiz Gonzaga. Agora, aos 36 anos, o cantor, compositor e instrumentalista Fábio Carneirinho percorre países europeus com sua sanfona, cantando histórias do Nordeste brasileiro e exportando aquilo que chama de “forró autêntico”.

O vai e vem da sanfona, o agudo do triângulo e o batuque da zabumba animam a praça escandinava, fazendo com que muitos arrastem o pé e bodejem palavras incompreensíveis, na tentativa de acompanhar o ritmo acelerado do forró que Luiz Gonzaga consagrou. O frio, tanto da temperatura quanto do jeito nórdico de ser, vai dando lugar ao caloroso chamego de dançar coladinho, remexendo de lá para cá.

No palco, de familiar chapéu, sanfona e sandália de couro, Fábio Carneirinho canta “Vai boiadeiro que a noite já vem/Guarda o teu gado e vai pra junto do teu bem” para um público que dança feliz e desajeitadamente. “Viva Luiz Gonzaga! Viva o forró nordestino!”, brada orgulhoso na 7ª edição do Brazilian Day em Estocolmo, na Suécia. Aquela foi a terceira vez que passou para o outro lado do hemisfério, dedilhando sua sanfona, provando que aquilo que chama de “bom forró autêntico” tem lugar em qualquer canto do mundo.

Foram mais de 15 países visitados em três turnês entre 2015 e 2016: Portugal, Espanha, França, Alemanha, Inglaterra, Noruega e tanto outros até chegar no sonhado forró em Moscou, para tocar, alegre da vida, “Pagode Russo”. Em Paris, na beira do Sena, com a Torre Eiffel de paisagem, cantou um música cuja letra é do amigo Luiz Fidelis: “Nova Iorque, Nova Olinda, Rio De Janeiro e Quixadá/Felicidade não é cidade/Nem problema é lugar/É um estado de espírito/Mude o seu olhar”.

Agora, em janeiro de 2017, as malas estão quase prontas para embarcar mais uma vez. “O movimento do Forró na Europa começou agora; vai crescer ainda mais”, Fábio acredita. Depois de altos e baixos no Cariri, aposta suas fichas nisso. Abraçado e aplaudido por onde passou, Fábio diz que não chegou a se surpreender com o fato de europeus gostarem de uma boa seresta, mas ficou admirado com a quantidade de pessoas fazendo dois para lá e dois para cá em seus shows.

“É muito bonito ver como a cultura nordestina ultrapassa as serras, as distâncias e o mar. Ele é além-fronteiras, e sempre acha seu espaço”, diz, orgulhando-se de ser um exportador do forró que faz arrasta-pé para as terras estrangeiras.

De Juazeiro do Norte para o mundo: “É muito bonito ver como a cultura nordestina ultrapassa as serras, as distâncias e o mar. Ele é além-fronteiras, e sempre acha seu espaço”, diz, orgulhando-se. (Foto: Samuel Macedo)

E DESATINOU A TOCAR

Acostumado com tanta andança, Fábio sabe que estar na estrada faz parte do jogo. Tire-se como exemplo sua própria trajetória precoce, ainda entre idas e vindas de Juazeiro do Norte a Recife. Crescendo entre músicos, em especial o avô, sanfoneiro nato, tocador de fole de 8 baixos, Fábio, ainda menino, costumava enganar os pais e matar aula para brincar no teclado dos amigos. “Atitude de moleque, você sabe como é”, diz, quase envergonhado. Era a vontade maior que a razão.

Não precisou de muito tempo para aprender a tirar notas e tocar algumas melodias. Autodidata, ouvir canções no rádio foi sua maior escola. “Eu não tinha noção que aquilo que estava ouvindo e tocando era um mi com sétima aumentada e quinta bemol”, confessa. “Não sabia o que era, mas achava o som.” E desatinou a tocar, sendo ouvido por Cícero do Assaré, que lhe apadrinhou.

 Quando ganhou a primeira sanfona, presente do pai, morava em São Paulo. Por lá, já fazia bicos em uma banda de baile chamada Café Brasil. De quinta-feira a domingo, a festa era em uma churrascaria. Nos outros dias, se arriscava sozinho em pequenos bares. Não tinha nem 18 anos completos quando um convite irrecusável surgiu: o Café Brasil tocaria em um cruzeiro pela costa do país até a Europa. O ano era 1998 e Fábio (ainda) Carneiro começava a trilhar seu destino.

De volta do cruzeiro e de 10 proveitosos meses em Portugal, passou a morar em Recife com o amigo Izidro Junior, um músico amador que fazia faculdade de Antropologia na Universidade Federal do Pernambuco. De fixo, tinha o compromisso com a banda católica do padre João Carlos, mas os convites para voltar a tocar no Cariri só aumentavam. Entre idas e vindas, o jovem Fábio decidiu que voltaria de vez a sua terra natal. Ali montaria uma banda de forró e poderia, enfim, crescer.

No histórico bar Flor do Pequi, em Crato, se apresentou até perder as contas. Lá também conheceu o grande colega Luiz Fidelis, autor de suas músicas mais conhecidas. Sob conselhos de Cícero do Assaré, aprendeu a fechar contratos. Em 2001, apareceu com a sanfona nos braços, o chapéu na cabeça, a sandália de couro no pé e o nome Carneirinho.

Com o forró apaixonado ainda em alta, consequência do sucesso da tríade forrozeira Limão com Mel, Magníficos e Mastruz com Leite nos anos anteriores, o músico viu no vasto campo de atuação a oportunidade perfeita para gravação de CD e DVD. O sucesso no terreiro de casa foi estonteante. “Encostado ao Crato”, “Não Vou Mais Errar Com Você”, “Fala” e “Dona do Meu Coração” são seus maiores hits. Já em 2002, o segundo disco, intitulado “Aos pés do meu Padim, com participação de Dominguinhos e Santana, chegou a vender 10.000 cópias originais.

Sua alegre sanfona arrastou multidões pelo Cariri e estados vizinhos. Casas de show, festas de municípios, formaturas, programas de televisão e rádio: não havia lugar que Carneirinho não tocasse. Seu nome passou, assim, a reverberar como sinônimo de pé de serra, de bom forró, de música boa.

Carneirinho anima o Brazilian Day em Estocolmo, Suécia, apenas um dos 15 países que já visitou em turnês no velho continente. (Foto: Arquivo pessoal)

A SANFONA E A GUITARRA

Até que o forró eletrônico, ou forró estilizado, mudou as regras do jogo. Com a chegada desse estilo urbano, visual e tecnológico, investindo em moderna roupagem, jogo de luzes, bailarinos, novos incrementos melódicos e letras de ostentação, festa e bebidas, o pé de serra foi tachado de velharia e chutado para escanteio pelos agentes, empresários e donos de casa de show.

O baque nos negócios foi gradual, mas forte. Além de impactar gravemente seu ganha-pão, afetando o estilo de vida, também mexeu no que Fábio tem como mais sagrado: a música. Assim como Luiz Gonzaga, Gilberto Gil e outros grandes nomes, Fábio Carneirinho acredita categoricamente que, independentemente do gênero, só existem dois tipos de música: a boa e a ruim. “A música pode ser tocada com zabumba e triângulo, como pode ser tocada em sample de computador, mas precisa ser boa, ter uma boa mensagem e célula musical aperfeiçoada”, afirma, explicando porque não considera o “forró de plástico” um forró de verdade.

Talvez o tradicionalismo seja herança deixada pelos ídolos que Carneirinho ouvia na adolescência — e até hoje ouve —, como Dominguinhos, Geraldo Azevedo e Alceu Valença. O próprio Dominguinhos, sucessor do Gonzagão, disse em entrevista, em 2009, que o forró eletrônico não tem nada em comum com o forró tradicional. “Quem faz forró não tem como fugir dos instrumentos como zabumba, triângulo, e eles não usam nada disso. É uma nova modalidade que eles inventaram e que infelizmente ainda não descobriram o verdadeiro nome para isso”, afirmou ao portal R7, à época.

“Dá para ser moderno e futurista no forró sem perder a autenticidade”, Fábio reflete. “O próprio Luiz Gonzaga era assim”, e menciona quando Gonzagão introduziu bateria, baixo e guitarras em suas composições, em meados de 1980. Ser autêntico é uma bandeira que o sanfoneiro carrega como uma política na sua vida, e no forró não seria diferente. Para ele, pode ter guitarra elétrica e incrementar características de outros gêneros aqui e ali, mas o importante é não fugir da identidade, e por isso concorda com Dominguinhos: não tem como fazer forró sem zabumba, triângulo e sanfona.

Na Europa, um sanfoneiro tradicional. De volta ao Cariri, larga o chapéu e tenta flexibilizar seu conservadorismo para atrair novos públicos. (Foto: Arquivo pessoal)

“Tem muita gente que toca forró influenciada pelas bandas como Aviões e Wesley Safadão… Respeito quem gosta. Mas eu não gosto e tenho argumentos para defender isso. Muita gente que gosta diz que é assim porque toca no rádio todo dia. E desde quando isso é subsídio pra ser bom?”, alfineta.

Para Fábio, o apelo e importância do rádio na música nacional perdeu credibilidade, por ter se rendido aos desmandos do capitalismo. “O mercado fonográfico do Brasil está na mão de meia dúzia de pessoas. Essas pessoas financiam a mídia, de forma que a música é imposta goela abaixo nas pessoas, principalmente dos jovens. É colocada de uma forma orquestrada, bem articulada. Toca aquilo todo dia, o dia todo. Até quem não gosta atura, porque não tem como parar.” Ele confessa pensar vez por outra que se seu produto fosse parecido com esses, talvez fizesse mais sucesso. “O problema é que esse é um tipo de alimento que não consigo engolir”, diz.

Em 2014, junto com o amigo e produtor baiano Roberto Neyva, tentou emplacar o projeto Zabumbada Eletrônica, que serviria para oxigenar a banda e a imagem do próprio músico. No mesmo ano, lançou o single e o EP Será que tem futuro?, onde aparece em nova roupagem. “A ideia era dialogar com mais gêneros e expandir fronteiras. Tome como exemplo Lenine. Ele tem seu estilo musical, mas sua grande capacidade como artista o aproxima de quase todos os públicos. É dialogável”, explica o produtor Neyva.

Sem chapéu, vestido com marcas da moda, introduzindo teclado eletrônico e guitarras destorcidas, Neyva tentou flexibilizar o tradicionalismo de Fábio sem que ele perdesse sua essência. “Não entendo como um talento da qualidade dele ainda não seja nacional”, lamenta. A Zabumbada Eletrônica não deslanchou; o projeto ficou na geladeira e deu lugar à gravação de um novo disco de carreira, o sétimo de estúdio.

“Forró autêntico” é uma bandeira defendida por Fábio como a música que conta a história do seu povo. “Forró de plástico é um tipo de alimento que não consigo engolir”. (Foto: Samuel Macedo)

MÚSICA É NECESSIDADE

Fábio sentiu-se desanimado com o que via ao seu redor. Diz se entristecer profundamente ver o “desmantelo” pregado pelas músicas que fizeram sucesso naquele tempo e ainda hoje fazem. “Depois que saio do palco, depois de passar minha mensagem, entra outra banda que canta ‘levanta o litro de uísque que chegou o raparigueiro’. Isso é o que faz sucesso, mas isso cultura? É arte?”, questiona.

Viver de música é difícil, Fábio constatou. Pelos altos e baixos e golpes que levou por assinar um contrato vitalício com as tradições do bom e velho peneirado da sanfona, assim como pela dificuldade financeira que estava passando, pensou em desistir. “Tem épocas que a gente se pega pensando se não seria melhor deixar isso para lá e arranjar outro negócio, principalmente quando se tem família para criar”, diz, referindo-se à esposa Alexandra e ao filho de quatro anos, Santiago.

Mas a música é sua necessidade, seu dom, seu remédio, seu passado e futuro. Parar de tocar não é uma opção, percebeu, por fim. “Música é uma necessidade para quem nasceu com o dom. Pode-se até encontrar outra profissão, uma dessas que dê muito dinheiro, que te enriqueça, mas quem nasceu para fazer música, tem que fazer música. Veja, é um tipo de sina”, filosofa.

“Com a simplicidade, a gente aprende. Com a simplicidade, a gente cresce”, ouviu de sua mãe, Maria de Fátima, como um pedido para ter calma, que logo tudo estaria em seu lugar. Disposto a arriscar mais uma vez, voltou seu olhar para o passado. A resposta estaria em ser fiel a si mesmo, se não aqui, então que fosse em outras terras. “E não é que estava mesmo?”, ri. Simples, autêntico e alegre, juntou mais uma vez a sanfona, a zabumba e o triângulo e partiu para além-mar, exportando a cultura nordestina, a caririensidade e o bom forró para os amigos de lá.

“Música é uma necessidade para quem nasceu com o dom. é um tipo de sina”, Carneirinho filosofa. (Foto: Samuel Macedo)

FORRÓ FOR ALL

Diz-se que o forró chegou na Europa e países próximos ainda quando o Rei do Baião, Luiz Gonzaga, visitou Paris, em 1982, mas foi há apenas alguns anos que se tornou popular. O que teria começado em alguns nichos de brasileiros com saudades de casa caiu no gosto do europeu.

Na Alemanha, Inglaterra, França e Rússia, escolas e grupos de dança passaram a adicionar o estilo à sua grade, antes monopolizada pelo samba. O resultado disso são grupos como o Forró de Colônia e o Le P’tit Bal Perdu, além de festivais de quatro dias, como o Forró de Domingo Stuttgart, com shows e workshops.

Já se somam mais de 30 festivais, com média de 600 a 1.000 participantes a cada edição, segundo contabiliza o grupo Forró Copenhague. Priorizando arrasta-pé, xote, xaxado e baião, tanto as aulas como os festivais revelam o curioso dado de que, ao contrário do que se pode imaginar, são os nativos quem mais aparecem para fazer a poeira subir.

De volta para casa: Fábio Carneirinho, com sua inseparável sanfona, no Horto. Ali, em 2002, começava a seus largos passos para uma carreira de sucesso. (Foto: Samuel Macedo)

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