Chimamanda-Ngozi-Adichie
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Especial 8 de Março | Mulheres indicam leituras transformadoras

A jovem escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie tornou-se uma das principais vozes femininas (e feministas) na literatura mundial com as obras Hibisco Roxo (Companhia das Letras) e Americanah (Companhia das Letras), mas foi com seu discurso Sejamos Todos Feministas na conferência TED que cativou centenas de milhares de mulheres internet afora, sendo posteriormente publicado como livro. Seu pedagógico poder de articulação de argumentos e carisma ao deixar ácidas gotas de ironia queimar argumentos machistas inflamou jovens veias feministas. Há poucos dias, Chimamanda lançou um novo livro chamado Para Educar Crianças Feministas – Um Manifesto (Companhia das Letras), originalmente uma carta a amiga Ijeawele que lhe pedia conselhos de como educar sua filha. Entre sugestões que vão de fugir de papéis de gênero (“Nunca lhe diga para fazer ou deixar de fazer alguma coisa ‘porque você é menina’. ‘Porque você é menina’ nunca é razão para nada. Jamais”) até “Seja uma pessoa completa”, ela indica “Ensine-lhe o gosto pelos livros. A melhor maneira é pelo exemplo informal. Se ela vê você lendo, vai entender que a leitura tem valor […] Os livros vão ajudá-la a entender e a questionar o mundo, a se expressar, vão ajudá-la em tudo o que ela quiser ser”.

Neste especial contínuo em alusão ao Dia Internacional de Luta das Mulheres, a CARIRI convidou ativistas do movimento feminista caririense a compartilharem seus primeiros encantos com a literatura e como isso as ajudou a se enxergarem diante da sociedade.

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A Nova Mulher e a Moral Sexual, de Alexandra Kollontai, foi meu primeiro contato com a leitura feminista. Ela trouxe uma nova alternativa de pensar a sexualidade e relações para as mulheres”

Danielly Clemente, advogada

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“Um romance que me deixou muito de cara quando era jovem foi Madame Bovary, de Gustave Flaubert. Lembro que me detive pensando longamente sobre os cárceres que aprisionam as mulheres desde tempos incontáveis. Lembro que fiquei impressionada como ela era ingênua, tão ingênua quanto todas nós. Como ela foi ensinada a idealizar e fazer do momento do casamento o grande ápice da vida de uma mulher. Ela parecia entorpecida. E depois o casamento se mostrou um cárcere para todas as dimensões dos sonhos, dos desejos, da potência dela como mulher e ela mascarou isso por baixo da máscara de boa mulher e boa mãe, mas por dentro queimava!”

Raquel Paris, comunicadora

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Chantal Brissac, Ana Cláudia Lemos Pacheco e Clarissa Pinkola Estés.

Chantal Brissac, Ana Cláudia Lemos Pacheco e Clarissa Pinkola Estés.

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“Me marcou: Mulher Negra: Afetividade e Solidão, de Ana Cláudia Lemos Pacheco. Me mostrou que eu nunca fui tímida, eu fui silenciada. Outro aspecto positivo reside no fato de a autora iniciar a sua abordagem trazendo à cena um pouco da história do Movimento Negro e de Mulheres Negras”

Maria Renata, autônoma e turbanteira

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O primeiro é A Mulher Desiludida. Simone de Beauvoir apresenta nesse livro, com uma sensibilidade gigante, problemas como casamento, filhos e velhice. As mulheres das histórias contidas em A Mulher Desiludida são humanas, fortes e aproximam-se da realidade com muita beleza. Através desse livro Simone nos possibilita olhar para o tempo e experimentar a passagem do tempo como fase de aprendizagem e fortalecimento. Um livro incrível, lágrima e riso! O segundo é Medéia. Eu amei Medéia desde as primeiras linhas. A tragédia de Eurípedes movimenta os nossos afetos e nos aproxima da dimensão feminina relacionada à bruxaria. Medéia vive o dilema do infanticídio, ela ama seus filhos mas opta por privá-los da vida. A tragédia de Medéia nos faz refletir sobre loucura e razão, amor e ódio e acima de tudo sobre humanidade.

Andrea Furtado, mestre em Filosofia e empreendedora

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Simone de Beauvoir

Simone de Beauvoir

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“Na verdade, o que me fez acreditar na minha essência como mulher na sociedade foi o meu ingresso nas lutas feministas desde a década de 80, mas lembro-me de dois livros que me incentivaram bastante a levantar a minha bandeira, principalmente na minha trajetória no radio como comunicadora de gênero. Um deles é: Quem é você Mulher, da escritora paulista Chantal Brissac. O outro foi um presente de uma grande amiga advogada, intitulado: Orgulho de ser Mulher, de Shere Hite”

Célia Rodrigues, comunicadora

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“Vou ter que dizer que é Mulheres que Correm com Lobos, de Clarissa Pinkola Estés. Embora seja um livro de psicologia, foi bem importante para mim. O livro é de uma psicóloga analítica junguiana e ele apresenta a tese de que o feminino foi aprisionado, violentado, domesticado pela cultura patriarcal, que se constrói em cima do medo daquilo que é selvagem, criador e indomável. Mas o desenvolvimento desta tese não se dá nem por argumentos filosóficos, nem históricos ou sociológicos, mas por interpretações de contos da cultura universal. Foi uma experiência bastante arrebatadora lê-lo. Despertou-me para a dimensão simbólica do machismo que, assim, se infiltra não apenas nos homens, mas também nas mulheres, e que promove agressões ao feminino não só das mulheres, mas também dos homens”

Camila Prado, doutora em Filosofia e docente universitária

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“Muitos livros e pequenos textos me direcionaram a conhecer sociedades que não eram alicerçadas no patriarcado, e, assim, perceber que a opressão contra a mulher não é algo natural, mas, sim, uma construção histórica, social e cultural, sendo utilizado, inclusive, pelo próprio sistema do capital para explorar ainda mais as mulheres, e, então, poderia listar vários livros, mas três me marcaram, sendo eles: A Origem da Propriedade Privada, da Família e do Estado, autoria de Engels, nesse livro o autor também fala sobre a situação das mulheres como não sendo algo natural, trazendo uma dimensão histórica e pautando a necessidade de rompermos com isso; Sexo contra Sexo ou Classe contra Classe, aqui Evelyn Reed se propõe a mostrar além da questão histórica da opressão contra a mulher, traz que o capitalismo se ampara nessa opressão; E, por último, Mulheres Trabalhadoras e Marxismo: Um Debate sobre a Opressão, nesse livro, Carmen Carrasco e Mercedes Petit tratam da mulher trabalhadora, falando sobre a importância de um partido revolucionário, fala sobre a unidade de ação e a frente única, como as mulheres trabalhadoras devem se organizar, nesse livro despertou, principalmente, em mim sobre a importância do recorte de classe nas lutas feministas”

Maria Almeida, universitária de História

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“Um Quarto Só para Si ou Um Quarto que Seja Seu, um ensaio da Virgínia Woolf de 1929. Ela ficciona a existência de uma irmã de Shakespeare e analisa socialmente a ideia de que ela pouco provavelmente teria se tornado escritora, uma vez que as condições de socialização das mulheres as direcionavam para a vida privada e doméstica, enquanto aos homens era dado o privilégio da dedicação e escolha de outros ofícios e papéis públicos. A leitura desse texto despertou em mim uma série de questões sobre os papéis que nos são imputados e deu voz a coisas que eu sentia e não sabia nomear. E ainda o livro Soror Saudade da poetisa portuguesa Florbela Espanca. Florbela escrevia vorazmente, assumia lugar de protagonismo nas relações de amor e destruía o ideal do amor romântico. Ela cometeu suicídio muito jovem. Essas duas autoras e esses dois livros, mais especificamente, foram muito formadores para mim, do trabalho às relações de amor, apontam as assimetrias de tratamento social dadas a homens e mulheres, a leitura das obras delas me encoraja a muitas coisas na vida”

Leda Mendes, psicoterapeuta

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Florbela Espanca, Alexandra Kollontai e Virgínia Woolf

Florbela Espanca, Alexandra Kollontai e Virgínia Woolf

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