Cariri Sustentável, Entrevistas 0

ENTREVISTA | Por que Juazeiro do Norte parou de investir em saneamento básico?

Entre as 100 maiores cidades do país, Juazeiro do Norte vem perdendo feio quando o assunto é a garantia de saneamento básico de qualidade à população, aparecendo na 95ª colocação no ranking do Trata Brasil. Investimento e arrecadação teve, em média, 7,22 milhões por ano, um dos mais baixos entre as cidades listadas. Para entender os fatores que levam mais de 208 mil pessoas (78,9% da população) não terem tratamento de esgoto, a CARIRI Revista entrevistou Expedito Gala Batista, gerente Unidade de Negócios Bacia do Salgado, parte da Companhia de Água e Esgoto do Ceará (CAGECE), que revela: os investimentos na área pararam, pois a taxa de adesão é mínima.

 

[Pergunta] O que levou Juazeiro do Norte a parar no tempo quando o assunto é saneamento básico?

[Resposta] Quando, em 1992, foi inaugurada (o serviço da Cagece) em Juazeiro do Norte tínhamos mais de 70% de cobertura. Mas a cidade cresceu e a Cagece não conseguiu acompanhar no tratamento de esgoto. Acompanhamos com água, e isso se mostra pois em quase todos os municípios do Ceará temos mais de 98% de cobertura.

Mas o esgoto, por ser um investimento muito alto, ter as tarifa e alta rejeição, o Estado e a Cagece em si deixaram de investir, pois todo investimento é de recurso próprio ou empréstimos. Em Juazeiro, até hoje, a Cagece paga a dívida do empréstimo internacional feito em 1992 para esgotamento. Na época, foram 33 milhões de dólares, um valor bastante expressivo.

Outro grande investimento, avaliado em mais de 5 milhões na época, foi o saneamento da rua José Marrocos até a rua Alencar Peixoto, no bairro do Socorro. Depois fizemos obras pontuais para atender a demandas, como foi feito no complexo do bairro Lagoa Seca, ali perto do hotel Iu-á.

 

[Pergunta] Mas não chegou ao bairro todo?

[Resposta] Não, apenas naquela área.

 

[Pergunta] E quais são os critérios de escolha de onde vai ser saneado em detrimento de outros locais?

[Resposta] Veja bem, tivemos um grande investimento para esgotar Juazeiro do Norte, a vista de que ainda hoje a cidade está entre as 100 mais com disponibilidade de esgotamento, mas não temos retorno de ligações. Mesmo conosco tendo 42% de índice de cobertura – o que é um índice altíssimo para o Brasil – temos apenas 22.874 mil ligações realizadas.

Além do mais, houve um pedido do Estado para aquela área (bares, restaurantes e hotéis).

 

[Pergunta] Este número continua baixo se comparado ao total da população do município…

[Resposta] Sim, porque a população não interliga. O bairro Romeirão, João Cabral, Pirajá e toda essa área tem 100% de cobertura de esgoto. Em toda a cidade são 16 mil ligações ativas de esgoto condominial, mas todo o centro da cidade (onde o comercio ferve), temos apenas 6 mil ligações, irrisório, mesmo tendo cobertura total.

 

[Pergunta] Com a rede de tratamento em baixa operação, os investimentos pararam?

[Resposta] Fica inviável do ponto de vista econômico. Você faz um investimento e se a sociedade não entende este investimento como um benefício… E como aconteceu, deixa todo o sistema ocioso. Tanto que hoje em dia, os bancos internacionais que emprestam o dinheiro aos serviços de saneamento só fecham contrato se a empresa assegurar um número mínimo de ligações. Em Juazeiro, ainda precisamos de 60% de esgoto. Pelo aspecto financeiro, é um risco e não tem retorno. Mas continuamos a servir pelo papel social.

Também existe um problema de ordem política. Antigamente, a maior promessa que um político poderia fazer era dizer que jamais se cobraria esgoto em Juazeiro do Norte. Esse foi o pensamento alimentado ao longo dos últimos 20 anos e isso reflete na adesão mínima à rede.

 

(Foto: Arquivo Cagece)

(Foto: Arquivo Cagece)

 

[Pergunta] Reflete também na saúde pública.

[Resposta] Sim. Temos dois poços profundos no Parque das Timbaúbas desativados por contaminação causada pela não utilização do esgotamento sanitário, onde esses dejetos estão sendo jogados no meio-fio, chegando a infiltrar o solo quando atingem o riacho das Timbaúbas.

 

[Pergunta] Ainda somos uma cidade de fossas?

[Resposta] Sim. Todas as casas que não estão interligadas provavelmente possuem algum tipo de fossa.

 

[Pergunta] Como driblar esse problema?

[Resposta] A Cagece vem fazendo um trabalho importante com a Carta Cariri – inclusive este nosso modelo está sendo replicado no país pelo Trata Brasil. A Carta Cariri mobiliza a sociedade, as entidades de classe, as escolas, Universidades e Faculdades e todos os órgãos públicos, a partir de um trabalho coletivo com o Ministério Público Estadual, ARCE, IBAMA, COGERH, Secretarias de Saúde e de Educação, em uma missão educativa a fim de conscientizar a juventude sobre a importância da preservação do meio ambiente e do saneamento básico.

Primeiro, queremos mudar o perfil do cidadão, apostar no jovem que crescerá sabendo o valor do saneamento, para depois investir em infraestrutura e reverter a ociosidade da rede de esgoto.

 

[Pergunta] É um plano a longo prazo, mas como responder a urgência da situação?

[Resposta] Nós temos urgência e temos metas a cumprir, mas é como digo: a rejeição continua alta. Em 2015 a Carta Cariri tinha a meta de fazer 2 mil ligações. Mas de maio de 2015 até 10 de novembro de 2016 (quase dois anos), fizemos 1.693 ligações. Não conseguimos bater a meta, mas o número é resultado do trabalho porta a porta que estamos fazendo.

 

A preocupação é: vale a pena investir? Se a Cagece fosse uma empresa privada, não valeria investir nenhum real, porque não há retorno. Mas investe pelo compromisso social. É papel do Governo do Estado levar água, esgotamento e saneamento básico a todos os cearenses. E essa também é a missão da Cagece, pois sabemos que onde existe água e esgoto tratado, a saúde chega junto.

 

[Pergunta] Há um problema econômico? As famílias não interligam suas casas à rede de esgoto porque são altos os gastos?

[Resposta] Não justifica. Quem é baixa renda pode ter sua ligação de forma gratuita. Custo zero. E ainda assim não há adesão.

Qualquer assalariado gasta no mínimo R$ 30 por mês com conta do celular pré-pago. Qualquer assalariado gasta R$ 15, R$ 20 em cerveja nos fins de semana. Esse mesmo assalariado, tendo uma família de quatro pessoas, paga à Cagece R$ 9 por 10 mil litros de água por mês. E ainda quem mora na periferia da cidade, que tem o esgoto condominial, paga apenas 43% do valor da água na tarifa do esgoto. Arredondando para R$ 10 reais de água, ele pararia apenas R$ 4,30 de esgoto. Mas ter água e esgoto tratado por menos de R$ 15 é que sai caro?

[Pergunta] Então o senhor acredita que seja uma questão de consciência social?

[Resposta] De consciência, educação e informação. A Carta Cariri tem um primeiro trabalho de educar, de conscientizar, mas também, advertir. O Ministério Público já enviou cartas advertindo que vão ocorrer multas àqueles que não se adaptaram a Lei Federal de Saneamento Básico. Tendo rede coletora próximo ao seu imóvel, você é obrigado por lei a interligar.

 

Sugestões de Leitura