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Entrevista | Coletivo Cubo Urbano: criatividade, protesto e cidade

No início de março, o Coletivo Cubo Urbano realizou uma sutil, porém afiada intervenção política em uma parada de ônibus na avenida Castelo Branco, em Juazeiro do Norte. Instalando quatro guarda-sóis à disposição dos passageiros que esperam, conseguiram chamar a atenção da população para um histórico problema juazeirense: as más condições que dependentes do transporte público precisam enfrentar antes mesmo de entrar na condução.

Batizado de “Aqui tem sombra”, a ação paliativa durou quatro dias e se tornou notícia em portais e redes de televisão locais, chegando ao conhecimento dos órgãos municipais competentes, que se comprometeram a finalizar o mapeamento de manutenção dos pontos.

“Não queríamos solucionar o problema com sombrinhas, mas tencionar a questão. Colocar as pessoas para pensarem que não deveria ser daquele jeito”, explica Joceam Souza, 22 anos, integrante do coletivo. Composto predominantemente por estudantes universitários de Arquitetura e Urbanismo, o coletivo nasceu da “necessidade de mostrar para a sociedade e o poder público que aqui tem pessoas que se preocupam com os espaços urbanos e públicos da cidade”.

A partir do hasteamento da bandeira por “uma cidade mais acessível, mais humana e mais democrática”, os integrantes usam a criatividade para levantar questionamentos. As pessoas deixaram de serem protagonistas da cidade? Asfalto é mesmo o sinônimo de moderno que queremos? Como democratizar conhecimento sobre os conflitos urbanos?

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Imagens da experiência “Aqui tem sombra” (Fotos: Coletivo Cubo Urbano/Reprodução)

Uma proposta

“O Coletivo Cubo Urbano surge da necessidade de mostrar para a sociedade e o poder público que existem pessoas preocupadas com os espaços urbanos e públicos da cidade. Nós levantamos a bandeira de uma cidade mais acessível e mais democrática, porque percebemos uma desorganização urbana tamanha que as pessoas não são mais protagonistas da cidade e, assim, aparecem vários esvaziamentos e depredações do espaço público. Em sua maior parte, somos formados por estudantes da faculdade de Arquitetura e Urbanismo, que nos ajudou a refletir sobre esses problemas, mas também integram o coletivo várias outras áreas do conhecimento. Agora queremos dar um retorno à sociedade”

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Ideia de cidade humana

“A cidade é um organismo vivo e muitas crescem de uma hora para outra. Poucas foram as cidades que tiveram um planejamento urbanístico eficiente, tornando-se um caos. Os espaços públicos, as praças, as vias, os terrenos abertos precisam ser apropriados pelas pessoas e ali elas criarem um ambiente de socialização. Existem muitas experiências assim que são positivas. Esses “vazios urbanos”, como chamamos, são fundamentais para o contato das pessoas. Paulo Mendes da Rocha disse que as pessoas só vieram para a cidade porque gostam de conversar, uma vez que no campo a comunicação é mais demorada. Esse é um ponto importante: trazer as pessoas para viverem a cidade. Mas é preciso algo para elas viverem, para extraírem disso. São necessários equipamentos urbanos”

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Local

“O maior problema de Juazeiro é ser uma cidade não-humana. Esse é o resultado de um conjunto de grandes desafios a serem resolvidos. Bairros sem praça, sem saneamento básico, sem a mínima infraestrutura e segurança. O contraste dos bairros Frei Damião e Lagoa Seca, por exemplo. E isso, claramente, é uma questão socioeconômica. Na Lagoa Seca, são quatro praças, sendo que apenas uma é utilizada. No Frei Damião, nenhuma. Já no Frei Damião, existe vida. As casas têm portas e janelas abertas para a rua, com pessoas nas calçadas e nas bodegas. No outro, todos estão enclausurados por trás de muros e cercas elétricas, prendendo-se a isso e virando as costas para a cidade, que fica monótona e vazia. Mas este ainda tem saneamento básico, abastecimento de água e iluminação pública. O outro (Frei Damião) tem esgoto a céu aberto, dia sim e dia não com água e muita insegurança pelas ruas escuras”

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Papel social

“Todos, mas principalmente quem se interessa por arquitetura e urbanismo, deveriam ter algum tipo de preocupação e sensibilidade de pensar sobre as pessoas e sua relação com a cidade. É melhorar para os outros, mas por nós também. Não é contraditório que o transporte coletivo e os espaços públicos, como praças e calçadas, muito utilizados pela população de baixa renda terem os menores níveis de investimento? Enquanto isso, só se discute asfalto para automóveis. Então a urbanização seria asfaltar uma rua? Nisso, sinônimo de moderno é cidade verticalizada e com ruas largas, propícias para o carro. Cada vez mais a cidade é privatizada e se transforma em um conjunto de vias. Perde-se o sentido. Queremos recuperar uma experiência humana e cheia de sentido para a vida urbana”

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