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ENTREVISTA |”As pessoas não sabem o que é uma postura profissional”

A consultora Marília Falcioni fala sobre assédio moral e bullying no trabalho

“Aqui no Cariri, por a gente não ter um longo histórico empresarial e o desenvolvimento da região ser muito recente, as pessoas costumam não saber claramente o que é uma postura profissional e acabam confundindo o relacionamento profissional com pessoal e se excedem”, diz a consultora Marília Falcioni. De acordo com o Núcleo Brasileiro de Estágios (Nube), esses “excessos” atingem metade dos jovens trabalhadores no Brasil. 49,5% deles afirmam já ter sofrido bullying no ambiente de trabalho – 33% dizem ter “levado na esportiva”, enquanto 6,7% também praticavam as agressões. Há quatro anos em atividade na região, Marília viu diversos casos de bullying e assédio moral em empresas do Cariri.

“A gente trabalha preventivamente”, ela explica, “Assim que o colaborador entra, ele recebe o manual de conduta da empresa, que fala desde o fardamento, o horário de chegada, o dia do pagamento, o sigilo das informações de manutenção dos equipamentos, e também diz que, em hipótese nenhuma, a empresa admite qualquer forma de discriminação, agressão, bullying por sexo, raça, cor ou opção sexual”.

Como identificar uma situação de bullying no trabalho?  

Na escola, quem é vítima de bullying são as crianças que têm alguma fragilidade. Talvez porque são tímidas, ou porque têm um óculos diferente, ou um aparelho, por exemplo. Nas empresas é o contrário: quem sofre bullying são as pessoas que se destacam mais. Talvez um novo colaborador que é um bom profissional. Aí os outros, que se sentem ameaçados, passam a fazer piadas e a humilha-lo todo dia. O agressor vai minando a auto estima da pessoa até ela se sentir incompetente. Leva, em casos extremos, à depressão e ausência no trabalho – e algumas empresas erram porque não intervêm imediatamente. É preciso intervir, conversar com as pessoas envolvidas e, se for o caso, aplicar uma advertência ou suspensão.

Qual a diferença entre o bullying e o assédio moral?

O assédio moral pode ser pontual. Como aconteceu uma certa vez, uma pessoa não bateu as metas e fizeram ela usar um chapéu de palhaço. Isso terminou em processo. Nesse exemplo, não configura um bullying porque foi só uma vez.

Como agir nesses casos?

A gente orienta a uma vítima a tentar resolver com o agressor. Que ela olhe nos olhos – eu sei que é muito difícil isso -, mas que tente explicar como ela se sente. Caso o agressor continue, ela deve levar à liderança. Não deu certo? Saia da empresa, porque isso pode comprometer sua carreira e vai lhe fazer mal.

Piadas e brincadeiras devem existir no trabalho?

A gente recomenda evitar piadas e apelidos depreciativos. Por mais que a gente diga isso, o ambiente de trabalho é muito dinâmico e sempre há brincadeiras, mas cabe à gestão estar sempre por perto para perceber se o clima não pesa em algum momento, perceber as pequenas insatisfações para não jogar debaixo do tapete. Então, nessas brincadeiras depreciativas, o líder precisa intervir e promover o diálogo.

Como é o ambiente de trabalho onde há pessoas que não se entendem?

Péssimo. Principalmente se a gente considerar que o principal fator motivacional para um colaborador é ter um bom ambiente de trabalho. Por maior que seja o salário, ninguém consegue ir todo dia para um trabalho que não suporta. Então, cabe à liderança estar atenta para que esses casos realmente sejam evitados de acontecer, porque você pode perder uma pessoa talentosa, que está sendo vítima de bullying justamente por ser boa. É importante que a liderança não fique tão distante de seus colaboradores. Nós estimulamos que os diretores não adotem um perfil autoritário, mas que sejam muito acessíveis, colaborativos, que deixem abertura com seus colaboradores.

O que fazer com um funcionário que desestimula os demais?

Equipe que se dá bem é muito mais produtiva. O que importa não são as estrelas, mas a sinergia que existe entre eles. O Barcelona, por exemplo, não é o que é somente porque tem bons jogadores, mas porque eles conseguem jogar bem juntos. Por isso que o líder precisa estar junto, para saber quem de sua equipe está minando o restante e deve trabalhar nela. Se a pessoa dá um feedback e melhora, ótimo, ela continua. Se ela não para de agredir os colegas, ela vai ter de deixar a equipe, apesar de ser talentosa. É melhor ter pessoas em nível intermediário dando resultado do que uma pessoa super talentosa, que estraga toda a equipe.

 

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