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Entre retornos e recomeços

O ano era 2008, eu tinha acabado de concluir o ensino médio, ainda não sabia em que curso ingressar na faculdade – aliás, eu sabia pouco ou quase nada àquela altura da vida, mas só bem mais tarde iria descobrir a minha ignorância. Hoje, sete anos depois, já não me lembro direito como e nem Saiba mais

Por Pedro Philippe • 18 de junho de 2015

O ano era 2008, eu tinha acabado de concluir o ensino médio, ainda não sabia em que curso ingressar na faculdade – aliás, eu sabia pouco ou quase nada àquela altura da vida, mas só bem mais tarde iria descobrir a minha ignorância. Hoje, sete anos depois, já não me lembro direito como e nem porquê a minha família permitiu que eu fosse morar em Recife, não para estudar, mas para ser missionário por um tempo. Aos 17 anos, tinha tido a certeza de que Deus existia (essa história eu posso contar, mas poucos vão acreditar ou ter a convicção que eu tive naquele dia) e, um ano depois, já achava que havia muito o que fazer pelo próximo.

Dos muitos trabalhos da Jocum (Jovens com uma Missão), os que mais surpreendiam e aterrorizavam minha mente ainda adolescente eram os projetos que envolviam crianças em risco. A ONG contava, naquela época, com um local para triagem de meninos de rua, a Casa Aberta, no bairro Derby, e o novo lar deles, a Casa Esperança, na sede da instituição, em Camaragibe, onde também aconteciam os cursos de aconselhamento, de desenvolvimento comunitário e outros, que eram ministrados por professores vindos de todos os lugares do mundo, da mesma forma que os alunos. Por causa disso, os cursos eram ofertados em inglês e português.

Em outubro de 2008, eu pude passar uma semana morando na Casa Aberta, um casarão em ótimas condições no meio de um bairro nobre do Recife. Os dias em que convivi com Lucas¹, o líder da Casa, um escocês parrudo, casado com uma brasileira e pai de duas crianças pequenas, foram os últimos dias da família naquele projeto. Eles estavam de mudança para um país onde implantariam um trabalho idêntico ao desenvolvido no Brasil, com foco no futebol como forma de resgate para garotos. Lucas na verdade se chama Luke, mas aportuguesou seu nome para facilitar a pronúncia local. Parece ter dado certo, já que quase todo morador de rua do Recife o conhecia pelo nome e o tratava com respeito – talvez devido à persistência que demonstrava em retirar as pessoas da violência, do caos, da sujeira e do submundo que chamavam de Hellcife, trocadilho que me fazia rir.

Naquele mesmo ano de 2008, o Ministério do Desenvolvimento Social lançou a Pesquisa Nacional Sobre a População em Situação de Rua. A partir dela, ficamos sabendo que 82% dos moradores de rua eram homens, em sua maioria negros ou pardos, que se sustentavam com 20 a 80 reais por semana e que haviam escolhido a calçada como nova residência porque ela os mantinha longe de uma situação familiar que não queriam enfrentar. Eram viciados e dependentes químicos. A Secretaria de Assistência Social do Recife já havia lançado em 2005 o “Censo e Análise Qualitativa da População e Situação de Rua na Cidade do Recife”, que contabilizou 1.390 pessoas na rua, dos quais 940 eram homens, 185 estavam em casas de acolhida e 502 tinham entre zero e 18 anos. Quinhentos e dois. Entre zero e 18. Ler esses números hoje me deixa angustiado porque me faz lembrar das meninas grávidas cheirando cola, das crianças brincando em esgotos, dos bebês dormindo em papelão.

 

O FUNDO DO FUNDO DO POÇO

O diário que escrevi em 2008 me faz lembrar o que vivi e também quem eu era. Entre relatos dos dias na Casa Aberta, como “finalmente assisti a Tomates Verdes Fritos” e “hoje conversei com um rapaz chamado E., que me falou sobre os garotos que se prostituem para comprar crack”, percebo que nutria uma fé na humanidade, que oscilava entre a inocência e a esperança. Quando voltei para o Cariri, já decidido a entrar em uma faculdade de Jornalismo, dedicava metade do meu dia à Associação Cristã Esperança e Vida, que recebia crianças com um passado tão perturbador quanto as que eu via em Recife. Nesses quase seis anos afastado do que eu acreditava quando fui missionário, esqueci qual a sensação de ser responsável pela recuperação de alguém.

Leandro Torres: "a culpa é um fardo desnecessário que o ser humano carrega"

Leandro Torres: “a culpa é um fardo desnecessário que o ser humano carrega”

“Jesus só tem a capacidade de fazer milagre se você permitir”, me disse Leandro Torres, sentado na capela da Aliança de Misericórdia, no Sítio Pinheiros, em Barbalha. Nascido e criado em Capão Redondo (SP), esse corintiano de 40 anos começou a fumar maconha aos 13 anos, aos 18 viciou-se em cocaína, fumou crack pela primeira vez quando tinha 26 e, cinco anos depois, estava morando na Cracolândia. Em 2005, ele passou pela Casa Restaura-Me, da Aliança, mas depois teve uma recaída. No ano seguinte, voltou a pedir ajuda e foi encaminhado para a Casa de Acolhida de São José dos Campos, onde permaneceu por cinco meses, até desistir de novo e “aí foi degradação mesmo, foi quando eu cheguei no fundo do fundo do poço e fiquei morando na rua por dois anos”.

Pela Casa Restaura-Me, no Brás, em São Paulo, passam diariamente cerca de 450 pessoas em busca de café da manhã e almoço. Quando estava na fila para receber comida, em uma manhã de 2009, Leandro foi reconhecido por um dos obreiros, que ficou estarrecido com a sua aparência, convencendo-o a não desistir de si mesmo e a se dar outra chance. Pouco tempo depois, ele foi para a Casa de Acolhida em Piracicaba, onde permaneceu por um ano, período completo de recuperação. “Foi uma experiência fantástica, pois por três vezes eles me acolheram e não desistiram de mim”, ele conta.

Quando encerrou o período em Piracicaba, em 2010, Leandro preferiu não voltar à sua velha rotina e se ofereceu para trabalhar como voluntário em qualquer Casa de Acolhida que estivesse precisando de colaborações. Desde então, ele ajuda no Sítio Pinheiros, trabalhando como motorista. Também retomou os estudos e há nove meses está casado com uma barbalhense.

Leandro às vezes fala olhando para cima, como se verificasse com Deus a veracidade dos fatos que narra, e pegando no braço do interlocutor. Não sei exatamente porquê, mas isso me fez lembrar do missionário que eu fui. Sempre que me chamava pelo nome, antes de começar uma frase, eu me preparava para ouvi-lo denunciar a minha falta de fé, ou para ressuscitar aquele que eu fui quando dedicava minha vida a ajudar pessoas como ele foi um dia. “Eu penso que viver uma experiência espiritual passa pela sua psique, sabe? Ela passa dentro da forma como você pensa, como você reflete sobre sua história. Mas você só consegue sentir quando você coloca Deus naquilo que você está vivendo”.

Internos cuidam da horta no Sítio Pinheiros

Internos cuidam da horta no Sítio Pinheiros

O PROCESSO DE ANDAR COM AS PRÓPRIAS PERNAS

Na Aliança de Misericórdia trabalha-se a formação espiritual, humana e laboral dos que chegam em busca de recuperação. “Depois de um ano, há um processo natural de voltar para a sociedade e entender seu papel nela. Esse é o processo de andar com as próprias pernas”, explica João Felipe, missionário da Casa de Acolhida. João tem 26 anos e há oito trabalha na missão, mudando seu foco de estudo de acordo com a necessidade do trabalho – ele fez Filosofia e hoje estuda Gestão, porque sente que é necessário para o cargo que ocupa na Aliança.

João me conta que os moradores de rua que chegam na casa geralmente são idosos abandonados pela família ou que vêm nas romarias. No Abrigo Santa Bernadete, em Juazeiro do Norte, as histórias são quase sempre de devotos esquecidos ou abandonados durante uma peregrinação, ou de pessoas que vêm ao Cariri em busca de emprego, mas não conseguem de imediato. Na Pesquisa Nacional Sobre a População em Situação de Rua, o Ministério do Desenvolvimento Social relata que quase metade dos entrevistados estava há mais de dois anos na rua ou dormindo em albergues. Metade deles disse preferir a rua por falta de liberdade nos albergues, onde os horários são restritos e não é permitido usar álcool ou drogas.

João Felipe, um dos obreiros da Casa de Acolhida em Barbalha

João Felipe, um dos obreiros da Casa de Acolhida em Barbalha

No Abrigo Santa Bernadete, fundado por uma família e hoje dirigido pela Comunidade Católica Shalom, os que estão visivelmente bêbados são proibidos de entrar. A permanência é garantida das 17h30 às 5h30 da manhã do dia seguinte, desde que apresentem uma Certidão de Antecedentes Criminais e obedeçam as regras da casa, que só recebe homens e tem capacidade para 23 pessoas. Dos quase 20 que haviam passado pelo albergue no dia anterior à minha visita, a minoria era do Cariri. Havia assinaturas de Fortaleza e de municípios da Bahia, Minas Gerais, Piauí e Pernambuco. Assim como na Aliança, há no Abrigo idosos que não têm mais condições de cuidarem de si, nem familiares que façam isso por eles.

Nos dias em que tive a companhia de Luke pelas ruas sombrias de Recife, vi crianças de classe média que poderiam ter uma vida melhor do que a minha, mas que, por um motivo que me escapa e que eu nunca vou entender completamente, caíram em um buraco do qual ninguém sai sem alguns ossos quebrados e muitos arranhões. Uma das cenas mais comoventes que vi foi a de uma mãe que procurava pelo filho no Recife Antigo. Quando o encontrou, ela literalmente caiu no chão de desgosto. A mulher chorava, gritava, desesperada, com as mãos na cabeça, sem conseguir abraçá-lo, sem acreditar no que via. O filho se encostou à parede com uma mão, colocou a outra na cintura e, apático, esperou que ela se recuperasse.

Eu gostaria de acreditar que ela se recuperou e ele também, mas acho difícil. Luke me dizia que poucos eram os meninos que sobreviviam por mais de dois anos nas ruas. Isso significa que eu posso não ter conhecido nenhum dos 502 menores de idade que a Prefeitura do Recife disse existirem em 2005. Significa também que os meninos com quem eu joguei bola no Derby, para quem eu contei histórias na Favela do Coque e que me contaram suas histórias escabrosas na Encruzilhada, provavelmente já não estão mais vivos hoje.

Quando perguntei a Leandro se ele conseguiu se perdoar, ele apertou meu braço, repetiu meu nome e disse: “A culpa é um fardo desnecessário que o ser humano carrega”. Também ouvi de João Felipe, o missionário da Casa de Acolhida, que “a pessoa que tem a dependência vai precisar dar passos aqui e vai precisar dar passos fora. E esses passos são de progressão, como qualquer um de nós tem de dar na sociedade”. Quando me despedi dos dois, me senti grato porque, para cada Leandro precisando de ajuda, existe um João disposto a ajudar.

¹Luke é um pseudônimo para preservar a identidade do missionário, que hoje trabalha em um país onde há perseguição a cristãos.

 

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A CASA DE BARBALHA

Fundada em São Paulo, no ano 2000, pelos padres Antonello Cadeddu e Enrico Porcu, a Associação Aliança de Misericórdia atua hoje em 43 cidades do Brasil com o intuito de ajudar homens em situação de rua. A missão em Barbalha é uma das Casas de Acolhida da Aliança, porém recebe mais pessoas encaminhadas pelas famílias do que efetivamente resgatados das ruas, já que a realidade caririense é bem diferente da de São Paulo. A casa no Sítio Pinheiros, aberta desde 2007, tem capacidade para abrigar até 50 hóspedes, mas sobram as 20 vagas dos que já concluíram os 12 meses de processo e puderam voltar às suas famílias, aos seus trabalhos, à vida na sociedade onde até pouco tempo era impossível conviver.

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Pedro Philippe

Um crente, uma lente, uma visão. Totalmente terceiro mundo no terceiro milênio