Perfil

Entre a fábrica e a universidade

Energia é uma boa palavra para definir Jaime Romero, paulista formado em Processos de Produção que veio para o Ceará com a missão de cuidar de uma fábrica e acabou construindo uma faculdade.
Por Cláudia Albuquerque • 17 de março de 2016

A voz é forte, o timbre é límpido e os gestos, seguros. Caneta no bolso, calça e camisa social, o professor Jaime Romero é um mestre na arte de prender a atenção da plateia, mesmo que esta seja formada por ouvintes extremamente jovens e irrequietos. Em janeiro, quando mais uma vez abriu o ano letivo da Faculdade Leão Sampaio, em Juazeiro do Norte, não quis discursar no parlatório nem ficou sobre o palco para saudar as novas turmas.

Preferiu falar no mesmo nível em que estavam as cadeiras dos alunos, olhando para os olhos de cada novo integrante da instituição que ele ajudou a construir há 15 anos. Falou da estrutura, dos projetos sociais, da clínica de atendimento gratuito, dos direitos e deveres e, principalmente da paixão de tocar esse projeto no Cariri. Paixão que ele considera fundamental inclusive para enfrentar os preconceitos que ainda pairam sobre as faculdades privadas.

Com 13 cursos de graduação e 8.000 estudantes que se dividem em três unidades de Juazeiro e uma no Icó, a Leão Sampaio é um dos motores que mantém aquecido o pólo universitário caririense, cujas fronteiras educativas foram traçadas inicialmente pela Universidade Regional do Cariri (Urca), mais antiga instituição de nível superior da região. A ela juntaram-se a Universidade Vale do Acaraú (UVA), a Universidade Federal do Cariri (UFCA), a Faculdade de Medicina de Juazeiro do Norte (FMJ), a Faculdade Paraíso (FAP), dentre outras. Só em Juazeiro do Norte, são mais de 50 cursos oferecidos pelas diversas instituições públicas e privadas.

Maior centro universitário do interior, o Cariri é lar adotivo de centenas mestres e alunos dos mais diversos ninhos. “Eu tenho quase 300 professores e muitos deles são de Goiás, do Paraná, do Mato Grosso, de Santa Catarina, de São Paulo. O que ganham, gastam e investem aqui”, comenta Jaime Romero, sócio-fundador e diretor-presidente da Faculdade Leão Sampaio de Ciências Aplicadas. Dentre as convicções que ele defende com desenvoltura está a de que não foi a indústria nem o comércio que fizeram Juazeiro crescer, e sim a Educação.

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No país dos nem-nem

O Brasil tem 9,6 milhões de “nem-nem”, jovens entre 15 e 29 anos que nem estudam nem trabalham. E, o pior: 40 milhões de brasileiros entre 17 a 40 anos não tiveram qualquer chance de acesso ao ensino superior. São números que o professor e empresário sabe de cor e que vai desfiando enquanto caminha pelos corredores bem cuidados da Leão Sampaio, no bairro da Lagoa Seca.

Aponta a estação de tratamento de água, as placas de energia solar, os caminhos sinalizados por piso tátil, as entradas com inscrição em Braille, as salas adaptadas para necessidades especiais, as áreas de convivência dos alunos e uma fonte que não para de jorrar. “É para que todos entendam que essa aqui não é uma terra seca”, explica, acrescentando que a água é reaproveitada.

O direito de acesso ao conhecimento é um eixo central da democratização econômica das sociedades, como pontua o professor Ladislau Dowbor (PUC-SP). Por isso mesmo, Jaime Romero rebate os que temem pela comercialização do ensino diante da profusão de cursos. Ele lembra que o pólo universitário injetou óleo e ânimo na engrenagem econômica local ao possibilitar uma melhor qualificação das pessoas, reforçando o potencial competitivo da região.

“Hoje, somos do seleto grupo das melhores instituições do país, segundo dados do MEC/INEP”, diz ele sobre o grupo Leão Sampaio, cujos planos de crescimento incluem uma nova Faculdade de Medicina no Crato. “A ideia é ofertar 100 novas vagas na área, além de 100 residências médicas. Também estamos a um passo de sermos reconhecidos como Centro Universitário”. Quando isso acontecer, a instituição poderá redobrar os esforços de investimentos em pesquisa. “Eu já faço tudo o que um Centro Universitário faz, só não recebi o título”, suspira.

Não há desânimo na espera. “Estamos formando a nossa primeira turma de Odontologia. A maior Faculdade de Odontologia é esta aqui. Nós somos o dobro da Unifor e o dobro da UFC. O MEC nos dá duas vezes mais vagas que às outras faculdades”, comemora em num tom de exaltação pelo conjunto da obra, cujas paredes foram cimentadas com a ajuda dos sócios Deoclécio Said e Sandra Figueiredo.

Se num primeiro contato Jaime soa enfático, impositivo, quase como se quisesse atropelar o interlocutor com um trem de carga pesado demais, à medida em que a conversa evolui percebe-se que o que parece autorreferência é, talvez, a alegria de um homem pragmático que faz o que pode para se superar. “Eu sou um entusiasta, sou movido a energia solar e nuclear”, explode à moda dos comandantes. Antes de se tornar um bem sucedido empresário da Educação, afinal, Romero foi treinado para liderar indústrias.

Chão de fábrica

Nascido em 1963, no dia de Santa Luzia, 13 de dezembro, Jaime herdou o sobrenome Romero dos avós vindos da Espanha. Nasceu na capital paulista, filho de uma família simples. O pai, quando criança, vendia pirulito na praça para ajudar a criar os irmãos, e a mãe trabalhava na roça, no interior do Paraná. Tendo estudado técnica em mecânica dos 15 aos 18 anos, o menino encontrou nas fábricas o caminho natural a ser seguido.

Começou trabalhando na Arno, empresa de utensílios de cozinha e eletrodomésticos, na mesma época em que ingressou no curso de Processos de Produção da Faculdade de Tecnologia de São Paulo. Ainda no primeiro ano de labuta, pediu para ser líder de um projeto e ganhou a área de mutilados por acidentes de trabalho – departamento que ninguém queria. Em pouco tempo, transformou o setor num dos mais produtivos da empresa, adaptando o trabalho à condição dos funcionários e incentivando a equipe a cumprir metas. Com isso, entrou no programa de formação de chefias antes mesmo de ser formar.

Em seguida, passou pela Meridional, fabricante de peças inox, espécie de Tramontina da época. “Essas empresas investiram em mim, bancaram até a minha Faculdade e me ajudaram a fazer cursos fora do país”, recorda o líder de operários, que foi se especializando em Estratégias de Qualidade. “Se você perguntar como se faz um liquidificador, eu conheço. Um carro? Conheço também”. Foi essa capacidade que o trouxe para o Nordeste, há quase 18 anos, quando trabalhava na Singer – multinacional fabricante de máquinas de costura, com mais de 160 anos de vida e presente em 150 países ¬– formando os gestores das unidades e organizando as lideranças, para obter bons resultados na produção. É uma história pitoresca.

Se não concorda, resolva

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Nos anos 1990, quando a Singer montou uma filial em Juazeiro do Norte, começaram a aparecer problemas com as máquinas. Mesmo com o grande investimento feito em instalações e a imensa publicidade, a produção ia mal e instalou-se uma grave crise interna, a ponto de cogitarem o fechamento da fábrica. Para tentar salvar o barco, foi contratada um consultoria, que elaborou um relatório detalhado sobre o que se passava.

Em São Paulo, com o documento em mãos, o presidente de Operações do Brasil e América do Sul, um argentino apaixonado por resultados, convocou uma reunião urgente com todos os gestores, inclusive Jaime Romero, que cuidava da fábrica de Agulhas, uma das menores unidades da Singer, na cidade de Indaiatuba, próxima a Campinas.
No estudo entregue, os consultores sugeriam que a fábrica de Juazeiro do Norte ia mal das pernas porque o povo não tinha cultura industrial, especialmente na área da metalurgia. Tanto que 33% das máquinas montadas precisavam ser feitas novamente, simplesmente porque não costuravam. Além disso, as pessoas pareciam “não gostar de trabalhar”. O cenário era tão ruim que o projeto Ceará ameaçava se tornar um grande cargueiro submerso num tsunami de falhas humanas.

Numa reunião tensa, o presidente passou a palavra aos gerentes de unidades que, um a um, foram concordando que o melhor era bater em retirada, mesmo com o desprestígio que tal medida traria para o Ceará, cujo governo tanto investira no projeto – com o agravante de desestimular outras empresas a se mudarem para o Nordeste. Quando finalmente chegou a vez de Jaime, último a falar, todos já estavam decididos pelo fechamento.
– E então, você concorda? – perguntou o presidente, esperando um inevitável sim.
– Não – foi a resposta, curta.

Silêncio. Fixando os olhos no dissidente, todos aguardavam uma explicação sensata.

– Como não? Você tem bons argumentos para discordar de todos, inclusive da consultoria que nós contratamos?
– Sim – concordou Romero – afinal, vejam bem, a Singer tem fábrica na Índia, na China, no Vietnã, em Bangladesh, na Rússia, no Japão, no México… e só em Juazeiro não funciona? Desculpem, mas não acredito.
O que Jaime acreditava é que havia um “problema de gestão de pessoas”. Ao contrário do que a empresa vinha fazendo, “não se deveria buscar a adaptação dos cearenses ao projeto paulista, e sim a adaptação do projeto paulista á cultura organizacional dos cearenses”, com mais conhecimento do solo em que se pisava.

O primeiro convite irrecusável

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Às 10h da manhã seguinte, quando foi chamado para a sala do presidente, onde nunca havia estado, Romero pensou: ou seria demitido ou continuaria a discussão. Entrou, tomou o chá oferecido e conversou, aprofundando o ponto de vista anteriormente colocado. Achava que era preciso moldar o projeto da empresa à cultura da região. Defendeu a ideia com tanta convicção que, ao final da conversa, o presidente estava determinado:

– Pois então você vai para lá. Já que é o único que acredita, prepare-se para morar em Juazeiro.

Essa conversa aconteceu no dia 26 de agosto de 1998. Jaime estava fazendo um MBA de prestígio na Universidade de Campinas (Unicamp) e tinha acabado de construir uma bela casa dentro de uma área verde. As duas filhas, de seis e 11 anos, estavam matriculadas em um bom colégio. A mulher, Sônia, gostava de São Paulo e não tinha a menor intenção de sair dali. Por outro lado, ele estava há 10 ano de Singer, já havia passado por várias unidades e não podia ignorar uma convocação do presidente.

De Juazeiro, só sabia que era a terra de Padre Cícero. Pediu para conhecer a cidade antes de se decidir. Recebeu apenas 15 minutos para ligar para a esposa e 48 horas para estar no município. Cuidadosa, sua mulher ponderou ao telefone: “Dá para dizer não?”. Não dava. “Aquilo seria, de certa forma, encerrar a carreira na empresa”, considera Romero. Ele já recusara convites para ir ao Paquistão e à China, mas daquela vez o pedido vinha diretamente do presidente. Passaria dois anos no Cariri, organizando a unidade local. Depois disso, tinha permissão para voltar a São Paulo.

Em dois dias, encerrou o MBA, organizou as urgências, fez as malas e desembarcou no Cariri. A ideia era preparar o terreno para a chegada da família. Junto com ele vieram 23 operários paulistas, que iriam se juntar aos cearenses e com os quais Jaime foi morar numa grande casa da Lagoa Seca, enquanto esperava a mulher e as filhas. “Já fui me integrando com eles. Tinha plena consciência que o nosso diferencial não ia ser o capital, porque lá fora os caras têm muito mais dinheiro. Também não ia ser a tecnologia, pois há grandes centros globalizados na Europa e na Ásia. Era preciso atacar onde não acreditavam: nas pessoas”.

Nas pessoas, o segredo

A fim de fazer o motivo do fracasso ser a razão do sucesso, o recém-chegado saiu para conhecer a região, observar a paisagem e interagir com os moradores. Havia pedido seis meses para mudar a situação da fábrica, lutando contra um fechamento que lhe parecia absurdo. Então pôs mãos à obra: montou um programa de treinamento e de distribuição de cargos e salários, estabeleceu jornadas flexíveis, fixou um banco de horas. Foi implacável na questão de segurança no trabalho e contratou uma psicóloga para estudar o clima organizacional. Também incentivou o incremento de um plano de saúde e de tratamento dentário dentro da empresa.

No trato pessoal, baseava-se no que entendia ser o perfil da mão de obra da região. O primeiro ponto desse perfil é que as pessoas são fortes. E o segundo é que são comprometidas. “Em São Paulo, quando eu entrevistava um operário a ser contratado, a primeira coisa que ele perguntava era: quanto eu vou ganhar?. Em Juazeiro, a pergunta era: o que eu vou fazer?”. Descobriu que o solo era fértil. Descobriu também que se alguém contrata um cearense, não pode tratá-lo como um mero apertador de botões. Ele se rebela. “Eu acho que o cearense tem um pouco do índio, e o índio não aceita ser escravo, prefere morrer”.

Em 2001, três anos depois de sua chegada, as máquinas feitas na fábrica de Juazeiro estavam tão boas que ele começou a treinar os funcionários a montarem para exportação, um processo mais complexo e cuidadoso, porque envolve somas maiores de capital e riscos. O treinamento foi feito meio na “surdina”, quando havia tempo e ocasião para isso. No dia em que a demanda externa foi maior que a capacidade de produção da fábrica paulista, os operários de Juazeiro estavam prontos para atender as solicitações do mercado internacional. A unidade caririense, inicialmente com 300 funcionários, passou a ter 1.400 e a exportar para o mundo todo. E em 2004, ganhou o Prêmio Nacional de Qualidade. Foi a número um no Brasil.

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O segundo convite irrecusável

Foi esse perfil de especialista em gestão de qualidade que rendeu a Jaime o convite, em 2001, para ser professor da Faculdade Leão Sampaio, então em fase de instalação. A ideia dos sócios era começar pelo curso de Administração, que ainda não existia em Juazeiro. Depois de ouvir a proposta, porém, Romero fez uma contraproposta: gostara tanto da ideia que não queria ser coadjuvante do processo, mas sócio da Faculdade. “Eu brinquei dizendo a eles: se eu não posso ser Pelé, Xuxa não quero ser”, sorri.

Foi assim que ele raspou as economias, comprou um terço do negócio e arregaçou as mangas para tocar o empreendimento. Já pensava há tempos em ter um negócio, mas tudo o que fizesse atrapalharia o trabalho na Singer. Com a Faculdade funcionando à noite, seria possível conciliar horários e interesses. “Começamos a montar a Leão Sampaio sem dinheiro. Éramos três lascados”, recorda Jaime, que ficou encarregado da gestão financeira-administrativa, enquanto os outros sócios cuidavam da parte acadêmico-pedagógica.

Começaram com o curso de Administração, duas turmas de 50 alunos, na sede do Crajubar. Para reduzir os custos, os três parceiros davam aulas. Além deles, apenas outros dois professores. A procura foi estrondosa. “Havia uma demanda reprimida. Os gerentes dos bancos, na época, não tinham curso superior. Quando abrimos, muitos deles foram nos procurar. O vestibular foi concorridíssimo”. Na época, só havia a Urca, dedicada à formação de professores. A FMJ estava começando a implantar Medicina. Somente depois vieram a Paraíso e a UFC (hoje UFCA).
Nos primeiros cinco anos, tudo o que ganhavam investiam na própria instituição. Para não depender de recursos da Leão Sampaio, mantinham os seus outros empregos. “A gente não tirou dinheiro da Faculdade, só pôs”. Depois de vender sua casa em São Paulo, alguns terrenos e até umas linhas telefônicas – “na época em que valiam algum dinheiro” – Romero também empenhou o carro para conseguir pagar o décimo terceiro dos funcionários.

Com os investimentos injetados no coração do projeto, a semente que começou pequena foi despontando com a força dos que se arriscam. De melhorias pontuais a grandes ampliações, a planta vicejou. Um segundo curso, de Ciência Contábeis, foi seguido pelo terceiro, de Educação Física. Na sequência vieram Fisioterapia, Serviço Social, Enfermagem, Biomedicina, Psicologia e Direito, até ser necessário uma segunda sede.

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Não existe aluno ruim

Houve um momento em que Jaime teve que pensar em sair da Singer. Conciliar o tempo se tornara um complicado malabarismo e ele “já estava adoecendo de tanto trabalho”. Com a procura crescente, a Leão Sampaio já não cabia nos dois prédios alugados e recebeu da Prefeitura o terreno da Lagoa Seca. “Eu sabia que teríamos que tocar as obras do prédio novo, tanto que inauguramos em 2009. Para não fazer mal feito nos dois trabalhos, deixei de vez a fábrica”. Fechou um acordo com a companhia e saiu oficialmente no dia primeiro de junho de 2006.

O grupo construiu a sede principal da Faculdade e o negócio continuou sendo ampliado. Romero entrou para o mestrado e reforçou a convicção de que “não existe aluno ruim, existe aula mal dada”. A Faculdade foi tirando boas notas no Índice Geral de Cursos (IGC), indicador de qualidade instituído pelo MEC. “Nosso curso de Fisioterapia há seis anos é o melhor do Ceará e está entre os quatro melhores do Nordeste. Da mesma forma, Biomedicina, Ciências Contábeis, Educação Física, Análises de Sistemas e vários outros que são muito bem avaliados. Viramos uma referência em Serviço Social “, celebra.

Hoje com 600 funcionários, entre professores, coordenadores, gestores e pessoal de apoio, a Leão Sampaio se empenha em campanhas variadas, como as de coleta de sangue, de gerenciamento do lixo, de piscicultura e de apoio a crianças com câncer, assim como na manutenção da APAE em Juazeiro, no trabalho com idosos e na interação com a comunidade. Investiu R$ 500.000 numa estação de tratamento de água em 2009. Outro montante, de R$ 12 milhões, fez nascer uma clínica escola com 105 consultórios que oferecem tratamento gratuito em diversas especialidades, dentre as quais Fisioterapia, Odontologia e Psicologia, chegando a 20.000 atendimentos por ano.

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“Minha cachaça é o trabalho”

Treinado como gestor e lançado como empresário, Jaime Romero escolheu ser professor. Atualmente, dá aula de Estratégia Empresarial com a ajuda de um game que faz simulações para que o aluno aprenda a gerir uma empresa virtualmente. “Se ele toma uma decisão errada, pode falir a empresa, mas se me entregar um correto relatório de análise da situação, ele recebe uma nota boa, porque significa que aprendeu com o erro”.

Na verdade, o professor não distribui notas, mas “leões”, uma moeda que criou para animar a turma. Só de ir para a aula, o aluno ganha 100 leões; se falta, perde 200. Atingindo 80% dos leões possíveis, não precisa fazer a prova final. “Eu trabalho com classe C/D, e muitos alunos têm dificuldade de aprendizagem. É preciso garantir que eles assimilem o conteúdo da melhor forma possível. Eu tenho que vencer a briga, e é possível, é só querer e ter perseverança”, conclui.

Totalmente adaptada, sua família também não pensa mais em sair do Ceará. A esposa, Sônia Isabel de Sousa, que se formou em Pedagogia na Urca e fez mestrado, é diretora pedagógica da Leão Sampaio, braço-direito do marido em questões da área. Uma das filhas se formou em Direito e é professora de duas faculdades de Fortaleza mas, por espírito de independência, não pensa em ensinar na Faculdade do pai. “Minhas filhas querem fazer a vida delas, eu entendo”, resigna-se.

Jaime continua acordando cedo todos os dias, inclusive aos domingos. Durante a semana, pode-se encontrá-lo facilmente na Leão Sampaio, de onde sai, em geral, por volta das 22h. “A minha cachaça é trabalho”, resume. Pescarias no Castanhão fazem parte dos momentos de lazer, mas agora ele tem um bom motivo para aterrissar em Fortaleza sempre que não está na Faculdade – e isso não tem nada a ver com trabalho. Há poucos meses, nasceu seu primeiro neto.

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Aposta no filho do catador

“A educação tem que vir da base. Eu recebo muitos alunos que são analfabetos funcionais, mal sabem escrever. Isso é o Brasil. Quem mais precisa do Ensino Superior é a classe C/D, para quebrar o ciclo vicioso da pobreza. Você apostaria que o filho do catador de lixo vai ser um grande advogado? Ninguém aposta, porque ele não vai ser, a menos que esteja na escola e que tenha as mesmas chances de acesso ao ensino superior e ao trabalho”.

Pessoas fazem a diferença

“Pessoas. Obter resultado através das pessoas. Eu sempre trabalhei com isso e o meu foco não é a melhor máquina, mas a melhor tecnologia. O diferencial está nas pessoas”.

Paixão á primeira vista

“Eu nasci na capital de São Paulo, o maior centro da América Latina, então a minha natureza é muito urbana. Mas quando eu cheguei em Juazeiro e vi a chapada, a serra, eu me encantei. Para você ter sucesso, tem que se apaixonar. O projeto de Juazeiro só ia dar certo se a pessoa que fosse o líder tivesse paixão por ele. Hoje o que predomina é a paixão por si. Isso não é certo. A gente deve querer o sucesso do outro também”.

Fibra nordestina

“Tudo aqui é difícil. É difícil nascer, crescer, estudar, trabalhar… Tudo é mais difícil. Mas as plantas que crescem em condições adversas ficam geneticamente mais fortes, com raízes mais profundas e galhos com nós. Não estou fazendo média, é fato”.

Nota certa

“Você tira o líder, a coisa descamba. É preciso ter um maestro. Ele não toca, mas ele conduz, não deixa destoar, e se alguém está destoando ele chama para acertar a nota”.

Modelo ultrapassado

“Tem gente que monta uma fábrica, mas polui o rio, destrói as árvores e gera doenças no funcionário – isso não é desenvolvimento, isso é geração de renda às custas da saúde alheia. A China e os EUA se tornaram as maiores potências do mundo destruindo o planeta, por décadas e décadas”.

Pensar grande

“O aluno do ensino médio é obrigado a estar na escola, usa uniforme, tem “tia” e aprende a decorar. Passar para a vida adulta é muito difícil para essa molecada, que vive uma época de perda de valores, num mundo super competitivo e consumista, onde celular e roupa de marca são importantes. Na nossa aula inaugural, mostramos a esse jovem ele está ali para estudar e não para pensar em nota. Somente 10% das pessoas conseguem chegar a uma universidade, portanto deixo claro a eles que são todos privilegiados”.

Taxa de desencanto

“A evasão na USP, melhor instituição de ensino superior do Brasil, está em 25%. Em várias instituições chega a 30%. É o que os especialistas da área estão chamando de taxa de desencanto. O jovem de hoje pensa grande e age pequeno. Pensa que vai se formar e ficar rico. Não entende que o médico que tem a Hillux precisa ralar muito”.

Nada de saturação

“O ensino superior no Brasil é restrito a poucas pessoas, e ainda dizem que o mercado está saturado. O mercado não está saturado. Quanto mais profissionais tivermos, mais vai aumentar a demanda das pessoas por eles. Nós não temos muito dentistas; nós temos pouca gente indo ao dentista. Se as pessoas estudarem e tiverem uma vida melhor, mais pessoas poderão tratar dos dente. O Brasil só vai ser um país melhor quando o filho do pobre estudar na escola do rico e a gente diminuir a desigualdade social”.

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Cláudia Albuquerque