Cariri Sustentável

Engenharia popular: o que é, o que pretende e como se configura no Cariri

Estudantes e profissionais das Engenharias de todo o Nordeste realizaram nos últimos dias 2, 3 e 4 de maio, no campus Juazeiro do Norte da Universidade Federal do Cariri (UFCA), o 6º Encontro Regional de Engenharia e Desenvolvimento Social (EREDS) onde debates pouco difundidos entre as Engenharias vieram à tona. Entre as principais discussões, o Saiba mais

Por Alana Maria • 8 de maio de 2018

Estudantes e profissionais das Engenharias de todo o Nordeste realizaram nos últimos dias 2, 3 e 4 de maio, no campus Juazeiro do Norte da Universidade Federal do Cariri (UFCA), o 6º Encontro Regional de Engenharia e Desenvolvimento Social (EREDS) onde debates pouco difundidos entre as Engenharias vieram à tona. Entre as principais discussões, o conceito de engenharia popular, o compartilhamento de experiências sustentáveis e o combate ao machismo, racismo e homobofia tomaram forma.

Buscando uma alternativa mais humanizada e disposta a ampliar a visão nas áreas técnicas e de Exatas para o desenvolvimento de uma sociedade e uma economia solidária, o EREDS reuniu aproximadamente 350 estudantes das Engenharias  Civil, de Materiais, de Produção, Ambiental, Química, assim como da Arquitetura e Urbanismo.

Durante os três dias de evento, estudantes da região do Cariri, Redenção, Morada Nova, assim como de cidades da Bahia, Rio Grande do Norte e Paraíba voltaram sua atenção para questões transversais à profissão, permitindo a autocrítica e a reflexão. Por definição simplista, seria isto a engenharia popular e solidária: aproximação dos profissionais técnicos com os problemas sociais, tais como deficit habitacional, pobreza, desigualdade socioeconômica, desafios ambientais e a própria formação do engenheiro e da engenheira.

Segundo relatório do INEP, em 2015, a cada turma das faculdades de Engenharias brasileiras que se formaram, apenas 29,3% dos indivíduos eram mulheres, contra a esmagadora maioria de 70,7% de homens. Quando o recorte feito é de raça/cor, as porcentagens caem mais. Menos de 13% das matrículas gerais nas Universidades são de negros ou negras. Para Felipe Elker, estudante de Engenharia de Materiais da UFCA e membro da comissão de organização do EREDS, urge a necessidade entender por que e como esses processos de exclusão se dão a fim de reverte-los.

 

Estudantes e profissionais de diversas ramificações da Engenharia participam de oficina de bioconstrução durante o EREDS, na UFCA. “O que tentamos afirmar nos espaços é que outras formas mais solidárias e menos agressivas de fazer Engenharia e fazer Arquitetura são possíveis”, afirma a estudante Lizandra Moreira.

 

“Os cursos de Engenharia possuem predominância masculina. Mas não apenas isso. O perfil é de homens, brancos, heterossexuais e de classes financeiramente seguras – a camada mais privilegiada da sociedade – e isso reflete em como a profissão atua”, afirma o estudante. “Entre os debates travados, buscamos discutir a Engenharia sobre outras perspectivas e ver que a profissão não pode estar separada das questões históricas e recentes da sociedade, assim como alguns assuntos próprios da Engenharia, como urbanização, habitação, processos urbanos, etc, também não são exclusivos dessa área”, explica.

Como bem resume a estudante de Engenharia Química, Lizandra Moreira, da Universidade Federal da Bahia, que veio à Juazeiro do Norte para participar do Encontro, “O que tentamos afirmar nos espaços é que outras formas mais solidárias e menos agressivas de fazer Engenharia e fazer Arquitetura são possíveis”. Pensamento este que, na prática, pode significar maior inclusão de minorias e preocupação social. “Em ramos como a Engenharia Química, por exemplo, o montante de conhecimento e informação é produzido para a indústria. Não se pensa que, na verdade, nosso trabalho é produzir para à sociedade”.

A maior rede de engenheiros populares é a Rede de Engenharia Popular Oswaldo Sevá (REPOS).

 

Oficina de bioconstruções durante o 6º Encontro Regional de Engenharia e Desenvolvimento Social (EREDS).

 

OLHAR SOLIDÁRIO, POSIÇÃO POPULAR

Entre os exemplos de como os conceitos de Arquitetura Popular e Engenharia Popular podem ser aplicados na prática está o Escritório Público de Engenharia e Arquitetura Bakó, um projeto de extensão criado por estudantes da Universidade Federal da Bahia, onde futuros engenheiros e arquitetos como o estudante Gabriel Gomes Costa participam no desenvolvimento de trabalhos em comunidades vulneráreis visando a economia solidária, a tecnologia social e o direito à cidade.

“Quando as pessoas entram no curso de Arquitetura, elas esperam projetar para o mainstream, ou seja, projetar para a elite e para a cidade formal. Muito dificilmente alguém ingressa na Arquitetura visando trabalhar comunidades ou entendendo que a moradia é um direito social e não um produto a ser comprado”, diz o estudante Gabriel.

Em Salvador, além de colaborar com discussões e formações de estudantes de Arquitetura para uma visão responsável da profissão, Gabriel participa do projetos sociais na Ilha de Maré pelo Escritório Bakó.

“A Engenharia e a Arquitetura popular trabalham sob a perspectiva de que essas profissões possuem funções sociais a serem cumpridas, ou seja, o engenheiro e o arquiteto, não existem apenas para a resolução de problemas, mas também para entender que cada solução aplicada tem um reflexo na vida das pessoas. Essa visão humana e social é importante de ser levado em conta”, completa.

 

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Que tal participar de um projeto multidisciplinar que causa impacto em comunidades em situação de vulnerabilidade econômicas. O Bákó convida a comunidade discente da UFBA para o processo seletivo do semestre 2018.1. Para conhecer mais sobre nosso trabalho e fazer parte desta equipe, inscrevam-se para nossa reunião de aproximação que acontecerá no próximo sábado dia 14/04. Lembrando que as inscrições só vão até o dia 13/04, então não percam tempo! Corram! Link do edital: https://goo.gl/2bU9Gy Link da inscrição: goo.gl/rfi3cU#escritóriopúblico #direitoacidade #poliufba #politécnica #arquitetura #multidisciplinaridade #ufba #tecnologiasocial #bako #faufba #eneds #ereds #repos #engenhariapopular #economiasolidária #interdisciplinar #biufba #civil #mecânica #sanitária #produção #elétrica #química #minas #transportesterrestres #automação #agrimensura #ambiental

Posted by Bákó on Saturday, April 7, 2018

 

NO CARIRI

Em Crato e Juazeiro do Norte, a ideia de solidariedade se espalha e dá frutos. No curso de Engenharia Civil da Universidade Federal do Cariri, pelo menos quatro projetos com algum cunho social se destacam, sendo eles: o Edifique Ações, o cursinho Edificar, o escritório Habitar e a empresa júnior Projetta.

O quase engenheiro civil Mateus Nogueira, estudante da UFCA, participa de três dos projetos citados. Ao lado do colega Thiago Rodrigues, idealizou o Edifique Ações e o cursinho Edificar, ao que explica sua motivação como “a vontade de dar retorno à sociedade”. Dessa vontade que se transformou em ação, nasceu o projeto Edifique Ações, voltado para a extensão universitária e formação estudantes pautadas no compromisso social da Universidade.

Dentro das atividades deste projeto, o Cursinho Edificar surge em 2016, voltado para preparação de pré-vestibulandos de escolas públicas. Com aulas preparatórias diárias no período noturno ao longo de quatro meses, o cursinho oferta 50 vagas para aulas ministradas por 15 universitários veteranos e servidores voluntários que possuem significativo conhecimento em torno das disciplinas previstas o ENEM.

 

Cursinho Edificar, atividade do projeto de extensão Edifique Ações, criado por dois estudantes da Engenharia Civil da UFCA.

 

Mateus Nogueira participa ainda do Escritório Habitar, onde o conhecimento técnico dos colegas estudantes e professores de Engenharia Civil são utilizados na criação de projetos estruturais e assistência gratuita à população de baixa renda (renda familiar de até três salários-mínimos). Elaboração de plantas estruturais, instalações hidráulica, elétrica e arquitetônica, orçamento, cronograma da construção, acompanhamento da obra até a orientação da compra dos materiais de modo econômico, sustentável e seguro são oferecidas pelo Habitar, gratuitamente.

Já a empresa júnior Projetta trabalha nos moldes do empreendedorismo, mas com preços populares – abaixo do mercado – na oferta de elaboração de projetos de edificações, instalações hidrossanitárias, elétricas, de prevenção contra incêndios e orçamento.

Há, ainda, o Escritório Modelo de Arquitetura da Faculdade de Juazeiro do Norte (FJN), inaugurada este ano junto ao Centro de Empreendedorismo e Inovação (CEI) da instituição. Para além do desenvolvimento e maximização da aprendizagem do estudante de Arquitetura e Urbanismo, o Escritório Modelo presta assessoria técnica à comunidades nestas áreas, com elaboração de estudos e diagnósticos arquitetônicos gratuitamente. O primeiro projeto encarregado pelo Escritório está sendo a restauração do Abrigo Nossa Senhora das Dores e revitalização do espaço da Casa de Misericórdia.

 

Projetos estruturais, plantas e outros documentos técnicos desenvolvidos gratuitamente pelo Escritório Habitar para famílias de baixa renda da região do Cariri.

 

Voluntários do projeto Habitar entregam documentos na casa da beneficiária.

 


Fotos: Comissão de Organização do 6º EREDS / Arquivo do Projeto Habitar / Arquivo do Projeto Edifique Ações

Alana Maria

Alana Maria Soares é jornalista da Cariri Revista desde 2015.
Formou-se pela faculdade de Jornalismo da Universidade Federal do Ceará (UFC), no campus Cariri, onde produziu o programa cultural Percursos Urbanos Cariri, pela UFC e CCBNB, entre 2012 e 2014. Pela Editora 309, ainda produziu a Casa Cariri Revista, o Manual Inteligente da Água, o Jornal Universitário da Unileão em 2016 e 2017, entre outros produtos editoriais.
RP: 0003947/CE