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Émerson Monteiro: Livros para todos

Por Raquel Paris
Foto: Rafael Vilarouca

Jornalista, escritor, advogado, Emerson Monteiro possui quatro livros na bagagem. O primeiro, de 1991, é “Sombra e Luz”, um ensaio de 18 páginas baseado em uma pesquisa sobre a lateralidade do cérebro. Depois vieram “Noites de Lua Cheia” (1994), “Cinema de Janela – Crônicas e Narrativas” (2002) e “É Domingo – Narrativas de Proveito” (2006) – todos de ficção. Afora sua ativa colaboração na cena literária caririense, Emerson se tornou um editor engajado. Sua missão: popularizar a literatura caririense e seus autores. Nesta conversa com a CARIRI Revista, ele aborda a literatura de interiores, as origens medievais da cultura nordestina e a autenticidade sertaneja no contar e ouvir histórias.

CARIRI REVISTA: Emerson, quando você foi fisgado pela literatura?

EMERSON MONTEIRO: Quando a gente começa a se entender como gente, começa a se interessar por determinadas coisas, de acordo com a vocação que nos atrai. Quando criança eu comecei a me interessar pelos fotogramas dos filmes de cinema, eu tinha uma coleção daqueles quadradinhos. Depois, coleção de selos, histórias em quadrinhos e daí para cordéis. Da literatura de cordel para os livros de histórias de cavalaria, de fadas, conto popular… Minha mãe, professora, observando esse meu gosto, começa a trazer livros para casa. Eu tinha a coleção completa de Monteiro Lobato e Machado de Assis. Eu me interessei por literatura a ponto de passar a ser uma segunda natureza minha. Então, o livro na minha vida é o como se fosse um sucedâneo natural.

CR: Quando você decidiu passar de leitor para editor de livros?

EM: Existe um dado divisor: a vinda do computador. Eu sou da geração intermediária entre a máquina de escrever e o computador. O teclado é o mesmo, mas o resultado é outro. Isso me despertou para a facilidade da produção do texto e, depois, para a edição do texto em livro. Meu primeiro livro foi um ensaio, um opúsculo de 18 páginas. Esse não teve muito problema. Eu já mandei pronto para a gráfica e alguém editou. Mas nos livros seguintes, eu mesmo comecei a diagramar desde a capa até o conteúdo.

CR: E quando você começa a editar livros de outras pessoas?

EM: Eu descobri o gosto que a edição me dá e eu comecei a querer que os outros usufruíssem da mesma satisfação. Porque a gente não tem grandes parques gráficos, então tem que fazer à nossa maneira. Seria algo entre o artesanal e o industrial. A gente faz avião de lata aqui, mas voa. A única carência que eu vejo hoje é na distribuição. É preciso uma distribuição que leve nossos livros lá pra fora, para darmos o nosso recado caririense.

CR: Impressiona o histórico cultural e literário do Cariri. Como uma região no interior do Nordeste possui tal tradição artística?

EM: Bem, o Crato foi um dos primeiros centros da colonização do Nordeste. A colonização europeia se desenvolveu mais aqui do que no Norte do Estado. Houve duas experiências de se iniciar a colonização por Fortaleza, por Aracati, Camocim, e não funcionou. Então o Ceará começou a ser colonizado pelo Cariri, através da Casa da Torre de Garcia D’ávila, por famílias que vieram de Pernambuco, Sergipe, Bahia, tangendo o gado do Rio São Francisco até chegarem a essa região. Depois vieram os engenhos, no ciclo da cana. Temos um Seminário que tem 150 anos, isso aqui é um polo cultural. A impressão que dá é que qualquer lugar poderia ser assim, mas não é não. Nas minhas viagens pelo
interior, eu observo que existem cidades bonitas, com a natureza fértil, mas quando você espreme o substrato cultural, você percebe a diferença de perspectiva de vida. E isso tem um peso. É uma coisa afetiva, está no
ar. O Crato tem um peso civilizatório, não tenha a menor dúvida. O Crato tem uma literatura. E eu digo o Crato porque o Juazeiro é mais novo. Mas pra mim, o Cariri é um caldeirão só: Crato, Juazeiro, Barbalha…

CR: Nós temos uma literatura caririense?

EM: Temos uma literatura típica caririense. Como há uma religiosidade caririense, uma arte popular caririense, um futebol caririense. E nós temos grandes nomes: Fran Martins, José Carvalho, J. de Figueiredo Filho, Irineu Pinheiro, José de Figueiredo. Na atualidade temos José Flávio, Roberto Jamacaru, o poeta Francisco Assis de Souza Lima, um grande poeta; João Alves Rocha, um grande sonetista da primeira metade do século passado. Na poesia popular temos Luciano Carneiro, que eu considero o maior poeta vivo do Nordeste hoje. Temos Ronaldo Brito, de projeção nacional, sem contar com a literatura messiânica de Juazeiro.

CR: E quais são as características dessa literatura?

EM: Olhe, Leon Tolstoi dizia assim: se queres ser universal, canta a tua aldeia. Então, a nossa literatura canta a nossa região, ela tem traços característicos de Cariri até no estilo de linguagem, no jeito simples de dizer. Eu mesmo não me proponho a fazer literatura intelectual, meu esforço é dizer o pouco que aprendo. É contar as histórias que meus avós e pais me contavam, o anedotário popular da região, sem perder o foco do eterno, do universal. E não deixo de falar do meu jeito brejeiro, meu jeito telegráfico. Então o que caracteriza essa literatura são as histórias que a gente guarda do nosso povo, a memória social, a etnografia do lugar.

CR: Seria, no caso, uma literatura universal… 

EM: O que eu noto é que a grande literatura vive da pequena literatura, da literatura dos interiores. Eu sou um apreciador da literatura dos interiores. Guimarães Rosa escreveu na Europa, mas ele escreveu com base no interior de Minas, nas histórias que ele ouvia quando criança dos avós, nas estradas, nas fazendas das Gerais. Então, a base da grande literatura é o interior. A base da grande literatura não são os hotéis de luxo. Por isso, a gente não pode perder o foco. Porque aqui é onde estão as origens medievais da cultura nordestina, as origens da casa grande, da senzala, dos engenhos, aqui é onde estão as histórias dos índios, do lendário indígena. É como se o sertão fosse mais
autêntico no contar e ouvir as histórias, nas varandas da casa, nas contadoras de histórias, no imaginário popular. Então é isso que eu vejo como esse Brasil verdadeiro. Não que seja arcaico, é um Brasil atualizado com raízes originais.

CR: Então, a permanência dos livros está garantida.

EM: Há muito tempo, eu perguntei a um professor por que a gente lia tanto, se depois a gente esquecia o nome do autor, o nome do livro… Aí ele me respondeu: “Emerson, cultura é exatamente isso, é o que fica depois que tudo passa”. Então cultura é esse amaciamento que fica na alma da gente. Quem sabe o valor, o prazer de um bom livro, sabe o prazer de ter um bom amigo, sabe o prazer de uma boa viagem, sabe o que é o prazer de um bom sonho, sabe o que é o prazer de um bom filme. Uma tela bonita é um livro bom, porque tudo é uma coisa só.

Matéria publicada na edição #07 da CARIRI Revista, em agosto de 2012

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