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Em qual vala comum foi enterrada nossa história de luta?

Projeto Popular, de Ícaro Lira

Por Beatriz Lemos
Fotos: Isadora Brant

Se o Brasil é um país sem memória e os arquivos são como cemitérios, onde estarão nossos mortos? Em qual vala comum foi enterrada nossa história de luta?

O sufocamento de vozes insurgentes está todo aqui, nesses arquivos, fotografias, pedaços de jornal, projetos sociais e manifestações populares. São todos parte da cartografia proposta por Ícaro Lira. Dos estopins causadores das revoltas – não deixando silenciar seus respectivos processos sociais de ruptura – ao esmagamento violento por parte do Estado. Episódios históricos cíclicos formadores de um macro sistema de repressão social que a todos nos pertence.

Canudos, Caldeirão de Santa Cruz, Revolta da vacina, Cabanagem, Revolta da chibata, Pinheirinho, Massacres de Eldorado dos Carajás, Carandiru. Chacinas da Candelária, Vigário Geral, Baixada, Acari, Messejana.

A concentração de iniciativas populares invisibilizadas pelo Estado brasileiro provém do estudo que vem sendo realizado nos últimos anos pelo artista. A prática artística decorrente de vivências e pesquisas de campo, que se alongam por extensos períodos, se aproxima das metodologias comuns usadas em expedições etnográficas, fazendo do trabalho um estudo fronteiriço ao campo da Antropologia. O processo coletivo nessas expedições é parte essencial na lógica de ativação do trabalho, acontece via convites a pesquisadores e agentes da arte para experiências de viagens e produção de ensaios a partir da vivência. Essas colaborações partilham do interesse central na produção de Ícaro, que se condensa na busca dos dispositivos de apagamento da memória social.

Por que não estudamos nas escolas episódios históricos como os campos de concentração no Ceará?

Revoltas. Levantes. Morte. Apagamento. Arquivo. Silêncio.

Qual seria a ligação direta entre o Caldeirão de Santa Cruz do Deserto e o projeto educacional de Anísio Teixeira?

Neste recorte apresentado como exposição, o artista parte de duas experiências concomitantes: o movimento messiânico liderado pelo beato José Lourenço no interior do Ceará e a Escola Parque, projeto educacional realizado na Bahia, ambos ocorridos entre os anos 1920 e 1930 e que foram duramente rechaçados por medidas governamentais.

Se por um lado o Caldeirão surge de uma iniciativa popular de moradia, a Escola Parque tinha como filosofia a igualdade de classes e acesso irrestrito à educação. O Caldeirão de Santa Cruz foi o protagonista do primeiro grande bombardeio da história do país. Massacre brutal por terra e por ar do Exército Nacional. Extinto dos livros de história. Uma comunidade com bases partilhadas, onde o trabalho e a fé eram as diretrizes de sobrevivência em meio ao sertão.

A Escola Parque, projeto do educador Anísio Teixeira, concentrava a utopia de uma sociedade igualitária em sua educação de base, convergindo saberes multidisciplinares em um mesmo ambiente em tempo integral. Local onde o ensino das Humanas era o início da formação de um pensamento revolucionário. Idealizado para as populações carentes do estado da Bahia, não teve continuidade com a eclosão da ditadura militar.

A produção de Ícaro navega entre história e política social para a edificação de arquivos mutáveis, em constante revisão e acúmulo. Seus projetos são pesquisas; não cabem em uma única obra ou exposição por estarem intrinsecamente conectados no tempo/espaço. “Projeto Popular” contém Campo Geral, que por sua vez é associado ao Museu do Estrangeiro – para citar seus projetos mais recentes e que convivem entre si, atualmente.

Para cada investigação o artista cria inventários de passado e presente que nos leva à constatação de um tempo cíclico e à angustiante sensação de estarmos no mesmo lugar. Contudo, a atenção é necessária: este lugar ainda pode ser uma escolha.

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