Arte e Cultura 0

Em cada quintal, uma oficina

Em 1985, Adalberto Soares da Silva tinha 17 anos, começava a talhar suas primeiras esculturas na madeira, procurava por um trabalho e já era conhecido pelo apelido que mais tarde seria sua marca registrada: Beto. Cícero Isídio, seu irmão mais velho, era ligado à Associação de Artesãos do Padre Cícero e, sempre que podia, dava algumas peças para o jovem Beto fazer, enquanto o ajudava a desenvolver suas habilidades de artesão. Certo dia, Cícero percebeu que o irmão já estava fazendo um trabalho mais-ou-menos-bom e resolveu levar uma de suas esculturas para que Lurdes Batista, coordenadora do Centro de Cultura Mestre Noza, pudesse avaliar, ajudar a vender e, quem sabe, convidar o jovem artesão a participar da Associação.

“Olha, Dona Lurdes, essa imagem de Padre Cícero é trabalho do meu irmão. Ele tá começando agora, então dá pra senhora comprar?”, Cícero chegou dizendo. Hoje, 30 anos depois, Beto assume: “Ela comprou só pra incentivar – e eu fiquei muito feliz por ganhar aquele tantinho de dinheiro”. Compra feita, dinheiro pago e, enquanto os irmãos já iam embora, Dona Lurdes olhava a peça de cima a baixo para avaliar todo o acabamento, até que viu um detalhe estranho na cabeça do santo. Então chamou os irmãos de volta, gritando: “Ô, Ciço! Vem cá, me diga uma coisa. E existe Padre Cícero cabeludo?”.

Beto ainda ri da história: “O cabelo dele ficou um pouco grande mesmo”. As críticas que recebeu no começo da carreira, até mesmo aquelas carregadas de humor, fizeram seu trabalho melhorar. “Só o tempo aperfeiçoa”, reflete. Atualmente, as quatro letras de seu apelido, gravadas em uma escultura de madeira, valem como o nome de Romero Britto em um quadro – e a estátua do Padre Cícero é sua obra mais impecável e a que mais vende. “Todas são difíceis e todas são fáceis. As que têm mais detalhe é que são as trabaiosa, porque é mais demorado”, Beto conta, mostrando o passo-a-passo de como um toco se transforma em escultura. Primeiro, uma machadinha faz os contornos no pedaço de pau, enquanto um formão abre cavidades na madeira e alinha a superfície, o boril faz a curva e a goiva desenha dobras, dando os detalhes.

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Beto lembra que sua primeira encomenda a ultrapassar a fronteira chegou à Colômbia. Também acostumado a talhar madeiras que irão para os Estados Unidos e países da Europa, ele se alegra mesmo é quando o reconhecimento vem de dentro. De passagem pelo Centro Cultural, o humorista Tom Cavalcante teria dito que “aqui é o coração de Juazeiro”. Quando relembra esse dia, Beto parece se emocionar: “O coração é importante pro corpo, né? Danado ele dizer isso”.

De geração e geração

Do lado de fora do Centro Cultural Mestre Noza, na abarrotada Rua São Luiz, só o que se ouve é o barulho de buzinas. Dentro, o som que toma conta do lugar é o baque do ferro na madeira. O Centro e a Associação de Artesãos do Padre Cícero dividem o mesmo espaço, inaugurado em 1984 a fim de expor e vender trabalhos de artistas locais e também possibilitar o encontro e a troca de experiências. Logo no início, os primeiros artesãos a fazer parte do Centro Cultural sentiram os efeitos do prestígio. João Cosmo, o Nino, escultor memorável de Juazeiro do Norte, ganhou exposições anos depois da fundação da Associação. Em uma delas, no Museu de Arte Popular do Rio de Janeiro, suas peças foram classificados como “arte incomum”. Cícera Maria de Araújo, a Ciça do Barro Cru, fazia potes e panelas de barro que, por falta de forno em sua casa, não eram queimados – processo essencial para dar dureza e resistência à peça. Através da exposição no Centro, Ciça chegou ao Museu do Folclore e ao Museu da Casa do Pontal, ambos no Rio de Janeiro.

Aos 28 anos, Aparecido Gonzaga Alves, é parte da nova geração do Centro Cultural Mestre Noza. Com 13 anos de idade ele já lixava as peças que Beto esculpia e, aos 14, talhou a sua primeira obra, entrou para a Associação e também assumiu um apelido que iria junto com seu trabalho a todos os lugares do mundo. Hoje ele é o Din, escultor que reinventa o ofício. “Eu sempre via os meninos fazendo peça magra, mas fiquei com aquilo na cabeça, me perguntando ‘e se eu fizer uma peça gorda, será que dá certo?”, ele conta. Din procurou pela internet algumas referências para começar a produzir, até que criou o novo formato de esculturas e fez um São Francisco, o primeiro santo gordinho a ser vendido no Centro. Se saem muitas peças gordas?  “Ave Maria, homi! Demais!”, ele responde empolgado. Além dos ícones religiosos, as esculturas mais vendidas são as de Luiz Gonzaga e de Patativa do Assaré. Para clientes de esquerda, Din também faz Che Guevara e Paulo Freire. Hoje ele já não lembra mais qual a primeira de suas obras exportadas, mas sabe que há várias nos Estados Unidos, França, Itália e Portugal. O blog Din Chocolate recebe encomendas de outros países.

A sobrevivência pelas mãos

Não é de hoje que famílias tiram sustento e sobrevivência do uso das mãos e da criatividade em Juazeiro do Norte. As casas feitas de argila e pedaços de pau durante os piores anos do século XIX foram as primeiras obras para enfrentar a pobreza que assolava a região. Estimulados pelo Padre Cícero, os que estavam desocupados descobriam um jeito de transformar palha em cesto, metal em candeeiro, couro em sapato e bolsa, madeira em pilão e espingarda, algodão em rede. “Em cada sala, um altar. Em cada quintal, uma oficina”, o padre teria dito, marcando duas características pelas quais os juazeirenses são conhecidos mundo afora: o gosto pela reza e a destreza no artesanato.

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