Arte e Cultura, Revista 1

Em busca do homem kariri

A jornada de Rosiane Limaverde pelos sítios arqueológicos do Cariri

Fazia apenas três graus naquela manhã de 28 de março de 2015 em Coimbra. Sob o “fato de doutoramento”, como os portugueses chamam o tradicional terno usado pelos acadêmicos, Rosiane Limaverde tremia, num misto de frio e nervosismo que nem o imenso hábito talar – que a cobria do pescoço aos pés – conseguia disfarçar. Às 10 horas ela começou a falar para uma pequena plateia nas duas fileiras de bancos sem encosto e mais seis doutores e o reitor da Universidade de Coimbra, João Gabriel Silva. Em tais ocasiões, a banca senta-se acima do doutorando e o reitor acima de todos na Sala dos Actos, também conhecida como Sala dos Capelos, onde funcionou a antiga Sala dos Tronos da Corte. O espaço é um dos mais importantes da Universidade fundada em 1290 e é conhecido como um símbolo lusitano, a sala onde se acredita ter surgido a civilização moderna de Portugal.

Quando ligou a projeção da sua tese, intitulada Arqueologia social inclusiva – A Fundação Casa Grande e a gestão do patrimônio cultural da Chapada do Araripe, Rosiane sentiu-se pequena e falou por trinta minutos como se sete espingardas estivessem apontadas para ela. No momento em que encerrou a fala, ouviram-se aplausos e nenhum tiro. Com o sotaque arrastado do Alentejo, Santiago Macias, prefeito da cidade de Moura e doutor em História da Arte, deu início à sua avaliação, dizendo: “Começo por a felicitar por esta caminhada. Acredite que o faço não apenas por dever de ofício ou por cortesia, mas porque esta dissertação não se cinge a um case-study, representando algo mais vasto, entre o compromisso social e a investigação científica”.

A passagem de Rosiane pela Universidade de Coimbra teve, desde o início, a marca do reconhecimento. Ela foi admitida no Centro de Estudos em Arqueologia e Ciências do Património pelo mérito do trabalho na Fundação Casa Grande, sendo dispensada de atender às disciplinas e chamada a dar aulas e seminários em Portugal. A tese foi escrita em formato narrativo, fugindo do que normalmente é visto em uma universidade tão tradicional, mas atraindo a atenção da banca, que se impressionou tanto com o trabalho da Casa Grande quanto com o projeto de Rosiane, que falava por toda a cidade de Nova Olinda.

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Passaram-se quase cinco horas desde a apresentação até a última discussão feita pelos membros da banca avaliadora. Como é de praxe em uma instituição formal, a cerimônia é um tanto mais longa do que nas demais universidades. A própria Sala dos Actos, por sua importância para a história de Portugal, é ritualística e só acolhe os doutorandos selecionados, os honoris causa e os esporádicos eventos de posse dos reitores. Pela particularidade da tese de Rosiane e o caso da cidade de Nova Olinda – somado ao fato de ser brasileira – a ela foi dada a honra de usar a Sala dos Actos. A tradição manda que, encerrada a apresentação, os doutores e o reitor se retirem para outra sala, onde vão discutir a nota, que não é dada de 0 a 10, mas em três classificações possíveis. O candidato pode ser apenas aprovado (significa que ele passou sem surpreender e a notícia é dada por uma secretária da Universidade), aprovado com louvor (o seu trabalho agradou e o doutorando é chamado até o topo de uma escada, onde o orientador avisa a decisão) ou aprovado com louvor e distinção (ele obteve a nota máxima e o ritual que se segue é ainda mais cerimonioso). Rosiane havia sido admitida no doutorado em 2009, precisou interromper em 2012 para cuidar da saúde e retomou o trabalho no ano seguinte. Naquele 28 de março, ela completava seis anos de estudos, pesquisas e busca pelos vestígios do mais antigo homem kariri. Eram três da tarde quando ela sentou e esperou.

 

12 MIL ANOS ANTES

Uma leve inclinação na Chapada do Araripe deita a serra para o lado de cá, fazendo toda a diferença. Os seis graus de pendor garantiram que a água da chuva, barrada na montanha, escorresse pelas cidades do Cariri, sendo sugada pela areia, descendo até o calcário a 730 metros de altitude e formando uma imensa piscina subterrânea que desaguava nas fontes. Há 12.000 anos, o clima do planeta esquentou a ponto de toda a floresta brasileira se dividir em Tropical e Mata Atlântica, com o cerrado e o sertão entre elas. Resumo da ópera: por causa da pequena inclinação, o Cariri tornou-se uma amostra do que foi essa floresta e cemitério aberto da megafauna que por aqui viveu e que hoje descobrimos através dos fósseis.

Antes do período Cretáceo, há 150 milhões de anos, quando os países ainda eram todos imbricados, formando o supercontinente da Gondwana, o Cariri era um imenso lago de água doce, que se juntou com o mar depois que o movimento das placas tectônicas fez erguer aqui uma imensa chapada. Primeiro formou-se uma camada de argilito no que hoje é a base da serra, que depois foi coberta por calcário e gipsita e, mais na superfície, deixou uma mistura de folhelho e nódulos calcários. O que a geologia chama de estratigrafia geomorfológica em camadas, Alemberg Quindins diz que são “livros na prateleira”. Foi o mexe-mexe das placas tectônicas que colocou livro por livro nessa imensa prateleira que chamamos de Chapada do Araripe.

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O Nordeste passou a ser o que é hoje depois do esquentamento há 12.000 anos, que enxugou as matas, drenou os rios e obrigou o homem a se adaptar e a se locomover em busca de condições de sobrevivência, água e caça. Quando tudo em volta secou, o Cariri manteve vida. É comum ouvir que a região é um “oásis no meio do sertão”, o que o geógrafo Aziz Ab’Saber explica em seu estudo sobre as “ilhas de umidade”. Ainda temos quase 300 fontes jorrando água e uma vegetação que dá pistas de nossa pré-história, assim como um pouco de mata atlântica e partes do cerrado e da caatinga que surgiram na época da mudança climática. É provável que já existisse o índio que conviveu com a floresta e esses animais, já que há indícios de presença humana aqui perto, em São Raimundo Nonato (PI). Lá foi encontrada uma fogueira de 50.000 anos, mas o número gera controvérsias. De qualquer forma, foi para cá que o índio migrou, em busca do oásis.

Olhando o mapa, encontram-se vestígios da passagem do homem pela Serra da Capivara, no Piauí, e pela região do Seridó, no Rio Grande do Norte. “A Chapada do Araripe está entre os dois lugares, então é bem provável que o homem tenha cruzado o Cariri”, Rosiane explica. Ela começou a seguir o rastro desse homem a convite do marido e companheiro na carreira musical que a dupla começou a trilhar em meados dos anos 80. Alemberg quis fazer um estudo pelo “sovaco da serra”, procurando relatos sobre a Pedra da Batateira. A ideia era escrever uma música sobre a lenda da pedra que iria rolar, inundando o Crato, mas os dois acabaram encontrando o fio de uma meada ainda mais extensa. Foi então que a pesquisa musical voltou-se completamente para o índio kariri, sua mitologia e arqueologia.

r3 (773x1024)“Com verdade decidida / Uma dupla preferida / Vou apresentar aqui / Para que ninguém se engane / Alemberg e Rosiane / Artistas do Cariri”, Patativa do Assaré escreveu em um cordel, homenageando os dois. Em 1985, eles chegaram ao sítio arqueológico de Santa Fé, no distrito onde ela nasceu e passou boa parte da infância. O abrigo indígena, que se encontrava na propriedade do fazendeiro Erivan Teles, está visivelmente intacto, apesar de quimicamente não ser mais o mesmo, depois de decomposições naturais na rocha. O local é estratégico: está a poucos metros da fonte onde nasce o Rio Cárias e, mais importante, está aos pés da Chapada do Araripe, dentro de uma ilha de umidade no meio do Nordeste. A 800 metros de altitude, acredita-se que, por sua posição e pelas gravuras, tratava-se de um santuário para rituais. O abrigo não tinha visibilidade, era guardado e escondido pela mata, que era ainda mais fechada há milhares de anos.

A alguns quilômetros dali, em Nova Olinda, o casal encontrou outro sítio arqueológico, dessa vez soterrado por sedimentos e impactado por incêndios e pelo desmatamento em seu entorno. Batizado de Olho d’Água, o abrigo indígena com pinturas rupestres tornou-se o cenário onde Rosiane realizou os estudos para sua tese de doutorado. Já que o abrigo em Santa Fé está praticamente intacto e uma escavação irá parcialmente destruí-lo, ela preferiu interferir no Olho d’Água. “Se outro arqueólogo chegar ali, ele não vai partir de onde eu parti. Ele vai partir de onde eu comecei”, lamenta. Rosiane considera o sítio Santa Fé o principal entre os sítios arqueológicos do Cariri: “Não me senti em condições de mexer em um sítio tão importante. Preferi deixar para um momento pós-doc, para, com maturidade, eu poder fazer um trabalho lá”.

A parede com desenhos no Olho d’Água, entre o chão e a cobertura do abrigo, tinha altura de 1,70 m. Rosiane, então, teve a ideia de escavar o sedimento, já que o tamanho curto do abrigo poderia indicar que haveria mais intervenção humana abaixo do chão que ela pisava. Depois de duas campanhas, cada uma de dez dias de duração, ela achou, a menos de um metro, concentração de carvão – datado de 800 anos AP (antes do presente). Ela então desceu ainda mais, até chegar a uma pedra, descobrindo tratar-se de um abrigo realmente curto, onde o índio deve ter pintado sentado. Seguindo a pedra, viu-se que o lugar tem um declive, como uma leve ladeira, por onde Rosiane escavou até chegar aos 2,5 metros. Na descida, encontrou ferramentas e sinais do riacho que brotava de uma fonte que foi geologicamente tapada – e hoje estoura na fonte Zabelê.

Foram pigmentos de tinta derramada e, mais abaixo, uma fogueira ainda bem estruturada, datada de 1.800 anos AP, com as pedras bem arranjadas e madeira queimada, datada de 3.150 anos AP – todos eles enviados em amostras para laboratório nos Estados Unidos, analisados em carbono 14. As diferentes datas apontam que vários momentos do povo kariri estão ali. A convite de Rosiane, Jean Pierre Peulvast, geólogo da Sorbonne, visitou o abrigo. Ele percebeu que os grandes blocos de pedra no lugar haviam se soltado como resultado de cataclismos – que podem voltar a acontecer.

 

22 ANOS ANTES

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As andanças de Alemberg e Rosiane renderam muito pano para manga, tanto nas músicas que a dupla cantava em festivais pelo Brasil, quando nos achados arqueológicos. Em 1992, depois de tanto pensar no que fazer com os artefatos indígenas, o casal chegou à “casa velha”, como os novolindenses chamavam o casarão que Neco Trajano, avô de Alemberg, comprou em 1932. O ciclo do couro, que colonizou o sertão no século XIX, passava pela cidade de Nova Olinda e ali ergueu uma tapera onde os comboios descansavam. Construída de taipa, adobe e tijolo, o acampamento deu lugar ao casarão onde hoje se encontra a Fundação Casa Grande – Memorial do Homem Kariri.

Quando o povo kariri foi aldeado, o índio virou vaqueiro ou morador do colonizador. Registros da época apontam que, até o século XIX, a maioria da população do Crato ainda era indígena. Eles não resistiram à miscigenação, mas culturalmente deixaram sua marca. Com um já considerável acervo de objetos indígenas e achados arqueológicos, Rosiane e Alemberg precisavam colocar aquilo tudo em um só lugar, aberto a visitação e que colaborasse com outras pesquisas, inclusive as acadêmicas, que careciam de suporte. Até então, eles guardavam o material na casa da Rua Ratisbona, no Centro do Crato, onde moravam, até que reformaram a casa velha, reconstruindo apenas uma parede – todo o resto foi restaurado do original – e incorporando um prédio vizinho, no ano de 2000.

A coleção que atualmente é vista no museu do Memorial do Homem Kariri foi formada a partir de doações, “com uma panela que Dona Mariinha nos doou, uma machadinha que Seu José chegou e disse: olha o que eu achei na minha roça”, como conta Rosiane sobre o processo de criação do acervo. “A gente foi se tornando uma referência regional em arqueologia”, ela explica. “Começou a existir um ponto no Cariri que se preocupava com a arqueologia. Então foram surgindo outras descobertas pela região, aí as pessoas doavam o que elas encontravam”. Depois de tantos anos de pesquisa, veio a necessidade de ter um profissional que pudesse responder por aquele acervo. “Eu já tinha feito o curso de História e especialização em História do Brasil. Como eu estava dentro do processo desde o início, então a pessoa mais habilitada a estudar arqueologia era eu”, Rosiane diz, lembrando da bifurcação na estrada, o momento em que o estudo sobre o emblemático homem kariri, o homem da Chapada do Araripe, deixou de ser uma pesquisa artística e passou a ser científica.

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Rosiane tornou-se mestre em Arqueologia e Preservação do Patrimônio em 2006, pela Universidade Federal do Pernambuco. “A partir de então, a gente começou a sistematizar cientificamente as pesquisas na região. Tudo o que tínhamos feito de uma forma intuitiva começou a ser estudado com um olhar mais apurado, para que pudéssemos ter dados mais concretos desse homem e dessa história”, conta. A primeira escavação no Cariri viria a ser feita por ela em 2008, no Sítio São Bento, no Crato. Quando ainda era recém-formada, uma extração de areia para venda no Sítio São Bento deu de cara com uma urna com restos mortais. Encontrado o material, a obra no terreno foi embargada e o proprietário foi proibido até de entrar nele.

“Até que alguém disse, ‘rapaz, tem uma arqueóloga aqui no Crato!’, aí o coitado chegou me pedindo pelo amor de Deus pra eu ajudar a desempancar a obra no terreno dele”, ela relembra. O trabalho foi executado pela Fundação Casa Grande, sem custos. Quando varreu o local, Rosiane encontrou apenas a base da urna e cerca de 300 fragmentos espalhados, entre machados de pedra polida e ferramentas de lasca. Depois de enviar os restos ao laboratório, descobriu-se que os ossos eram de cavalo ou boi, o que indica que foram guardados depois do aldeamento, já que, antes do branco chegar, esses animais não existiam no Cariri.

A empresa de consultoria A & R realiza a chamada “arqueologia de contrato”, serviço voltado para grandes empreendimentos que causam impacto na natureza, como rodovias, barragens e represas, que precisam de fiscalização. No Cariri, é necessário verificar se essas obras estão escavando sítios arqueológicos. O comércio de areia para construção civil, extraída geralmente no entorno de onde passavam rios, revolve as terras onde os índios costumavam estacionar e é onde está a maioria dos sítios arqueológicos de indígenas ceramistas. “O peão não tem nenhum interesse naquele material. O que ele quer é extrair areia. Muitas vezes encontram panelas e vasilhames inteiros, que eles jogam fora”, comenta Rosiane.

Há registros de material lítico e cerâmico achado no século XX em plantações de cana-de-açúcar e em expedições pelo pé da serra. A primeira descoberta que se tem notícia aconteceu em 1933, quando foi extraída do Sítio Fernandes, durante a construção de uma pista de pouso, uma urna funerária com ossos humanos e um cachimbo. Mais utensílios e restos mortais de índios foram achados e até catalogados ao longo do tempo, mas todo esse material sumiu.

 

COIMBRA, 28 DE MARÇO DE 2015

r5“O pano de fundo para o seu trabalho é um projeto de intervenção política. Não necessariamente no sentido eletivo ou de participação em órgãos de decisão, mas no sentido de intervenção e de modificação da sociedade. E falo numa atitude revolucionária e não de mero reformismo”, Santiago Macias continuou dizendo em sua fala, parabenizando Rosiane pela tese que acabara de apresentar e também pelo que a Fundação Casa Grande significa para os estudos de arqueologia no Cariri e para as crianças de Nova Olinda. “Rosiane se disse representante do povo do Cariri. Ao longo de toda a apresentação, ela postou-se como se estivesse fazendo uma prova em nome do povo de Nova Olinda. Foi muito bonito”, Maria Conceição Lopes, orientadora de Rosiane na tese, relembrou mais tarde em uma conversa por telefone.

A coordenadora do Centro de Estudos de Arqueologia, Artes e Ciências do Património da Universidade de Coimbra explicou que o trabalho de inclusão do povo de Nova Olinda chamou atenção por ter maior envolvência com a comunidade. “Na Universidade nós somos mais formais, escrevemos na terceira pessoa do plural, enquanto Rosiane escreveu como ‘eu’, como se o eu quem fala é a Casa Grande”. Outro professor que fazia parte da banca e que se emocionou com o trabalho de Rosiane foi Claudio Torres, fundador do Campo Arqueológico de Mértola, uma cidade que passou a ser conhecida e visitada a partir de 1978, através de um projeto que lembra o da Fundação Casa Grande em Nova Olinda. “Trazer um povo inteiro para dentro da academia não é exatamente normal, é um ato corajoso, claro”, pontua Conceição Lopes, admitindo orgulhosa que a tese fugiu dos padrões da universidade.

Depois que a banca retirou-se para decidir a nota de Rosiane, ela sabia que havia três possibilidades de tornar-se doutora pela Universidade de Coimbra. Ela poderia ser somente aprovada, aprovada com louvor ou aprovada com louvor e distinção. As duas primeiras são formas mais práticas e rápidas, sem muitos floreios. Para aprovar um doutor com louvor e distinção, é preciso ter unanimidade e cada avaliador deve defender seu ponto de vista em um discurso que é todo redigido em ata. A demora já indicava que seria esse o resultado. Ou será que os sete preparavam a reprovação? Frio e nervosismo se misturavam novamente, até que, horas depois, Rosiane foi chamada à sala onde o reitor e os professores a esperavam para anunciar: aprovada por unanimidade com louvor e distinção.

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