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O montador que mal vê

Ele só tem 10% da visão e conserta carros como ninguém

Zezinho conhece pouco da cidade onde mora, não pode atravessar a rua desacompanhado e tem dificuldade em distinguir formas e cores a mais de um metro de distância por causa de uma condição congênita e hereditária que lhe tirou 90% da visão. Por outro lado, José Borges Simião, o Zezinho, leva consigo mais de 30 anos de serviço em oficinas mecânicas, onde desenvolveu habilidade ímpar como montador. Sabe onde vai cada peça, da menor a maior, de qualquer carro. Conhece todos os traços, curvas e lacunas das partes, identificando falhas milimétricas apenas com o tato.

“Tem profissionais que tem vocação, são diferentes, e aí não tem jeito”, comenta o mecânico Reginaldo, colega de Zezinho por anos em oficina de concessionária em Juazeiro do Norte. “Independentemente da visão do jeito que é, Borges é muito bom. Um grande montador. Nasceu para fazer isso”, elogia.

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“Ninguém sabe como eu consigo fazer isso só com 10% de visão. Muitas vezes eu via um defeito no carro que pessoas com a boa visão não viam, mas eu sim”, diz ele.

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A primeira vez que entrou numa oficina foi aos 9 anos, criança, para servir de ajudante e conseguir uns trocados para ajudar na renda familiar. “Eram outros tempos. Todo mundo tinha que ajudar”, pondera. Largou a escola cedo demais, pela dificuldade de aprender sem conseguir enxergar dois palmos a frente. “Óculos nenhum me deu jeito. Só quando o médico descobriu a condição, (ele) soube que não era óculos que ia resolver. É uma atrofia no nervo óptico. Muitos da minha família têm”, conta Zé.

Hereditária, a condição veio da mãe, que se passou por José e mais três de suas 7 irmãs. Emanuele, filha de José, também tem baixa visão – o que, assim como para o pai, não a empatou de fazer nada. Esse ano ela, aos 18, se matriculou no curso de Direito da Faculdade Paraíso, em Juazeiro do Norte.

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Dentro de uma oficina mecânica desde os 9 anos, Zezinho acredita ter nascido com o dom para ser montador.

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Aposentado, mas ainda ajudando a dirigir o próprio negócio na oficina que montou há 10 anos, não falta trabalho para Zezinho Borges, que se diz tão acostumado a trabalhar que parar lhe causa agonia. “Desmonto, ajeito, tiro barulho, monto de novo, avalio se retinho, tudo no devido lugar”, descreve. “Ninguém sabe como eu consigo fazer isso só com 10% de visão. Muitas vezes eu via um defeito no carro que pessoas com a boa visão não viam, mas eu sim”. “É um dom que Deus me deu”, ele finaliza em tom de agradecimento.

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Milimétrico: é pelo toque que Zezinho sabe se está tudo alinhado ou não.

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