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Educar e instruir

Esta semana vi mais uma vez uma publicação no Facebook que dizia mais ou menos assim: “senhores responsáveis, lembrem-se de que quando mandam seus filhos à escola para receberem instrução, devem mandar junto com o material escolar, boas maneiras, educação e respeito”. Duas coisas me deixam desconfortável com o que aí se diz: em primeiro lugar, a ideia de que na escola as crianças e adolescentes “recebem” “instrução”. “Receber” tende a ser interpretado como um verbo passivo. Alguém (os professores, por suposto) dá e os “vossos” filhos recebem. Coerente com esta ideia é o “objeto” a ser recebido: “instrução”, que pode ser entendido como conhecimento, mas em uma concepção informativa e adestradora. Aí eu pergunto aos educadores que subscreveram a publicação: é isto mesmo? O que vocês se propõem a fazer é “dar instruções”? Se é, eu gostaria de alertá-los de que está correndo também nas redes sociais uma notícia de que na China houve a primeira aula dada por um robô.

Para instruir (de máquina à máquina) vamos nos tornando dispensáveis.

Em segundo lugar, me assusta o fato de que “educação e respeito” sejam comparados ao material escolar. Parece que à família também cabe “dar”, neste discurso, um adestramento social, que, parece, tem a materialidade dos cadernos, livros, lápis e borracha. Quem sabe até não haja para esta educação distinção de classes tal como faz o mercado com os produtos escolares? Quem sabe ao colocar a educação e o respeito como produtos que devem ser adquiridos pelas famílias, os professores não estão estimulando o uso das drogas “educativas” (ritalinas e tais)?

Mas é claro que eu entendo que a publicação não trata primordialmente da concepção de educação da escola, é mais um grito de socorro diante de muitas situações de desrespeito completo vivenciadas pelos professores. A família é, em nossa organização social, o grupo responsável pelas primeiras experiências comunitárias das crianças e, assim sendo, quando crianças e adolescentes mostram-se inteiramente incapazes de respeito pelos outros e de modos “civilizados”, é razoável chamar às falas os responsáveis. Se crianças e adolescentes estão agressivos e grosseiros, a responsabilidade não é em primeiro lugar do professor e da escola, mas da família. A desvalorização (salarial, sobretudo) e culpabilização dos profissionais da educação nos permitem compreender o grito dos professores que se sentem impotentes.

Será, no entanto, que não seria necessário e possível aos profissionais da educação mais do que se dispensarem de responsabilidade pelo que parece uma crise da civilização? Ouvi o Renato Roseno, há um tempo, lembrando-nos de que o termo “responsabilidade” está ligado etimologicamente ao termo “resposta”. Se os professores não querem responder a questão que a crise educativa coloca a eles, haverá quem o faça. Por exemplo, um primo meu publicou um vídeo em que um estudante desrespeitava e batia em uma professora. A legenda do vídeo dizia algo assim: “Olha no que dá o construtivismo, Paulo Freire e estes marxistas na educação”. Esta resposta me parece ser das mais perigosas. Além de ser um absurdo e de uma ignorância aterradora o que se diz de Paulo Freire no resto do comentário, a ideia de que é a educação libertária e questionadora (inclusive das injustiças sociais) a responsável pela crise civilizatória parece coincidir com o que regimes totalitários de todas as vertentes usaram como desculpa para as maiores atrocidades em todos os tempos. Opor autoritarismo a uma liberalidade destrutiva, como já dizia Platão, e foi redito por Paulo Freire, por exemplo, é uma grande falácia. Projetos de militarização de escolas públicas rondam o Cariri sob o pretexto da necessidade de disciplinar os jovens.

Foucault, filósofo francês contemporâneo, que analisou a sociedade disciplinar, materializada exemplarmente nas escolas, nos presídios, nos hospícios, hospitais, nos exércitos e igrejas, no fim de sua vida empreendeu uma pesquisa sobre a concepção grega de “cuidado de si”, que envolve práticas espirituais (em que há transformação do sujeito em sua relação com o conhecimento) e que permitem uma preparação para a liberdade e a verdade, princípios fundamentais de qualquer ética. A diferença fundamental entre a disciplina e os exercícios espirituais, me parece, está em que a disciplina é imposta (por força ou sedução) de fora, enquanto os exercícios buscam desenvolver uma medida própria, o que precisa envolver um verdadeiro desejo do sujeito, por si mesmo responsável. Isto significa dizer que ser libertário não envolve uma negação de limites, mas uma procura por limites autênticos.

Em outras palavras, o problema da violência e do desrespeito nas escolas talvez esteja sinalizando que (só) pelo controle e pela disciplina não é (mais) possível manter a ordem. Isto, quem sabe, é uma oportunidade. Que tal se nós, educadores que somos (em primeiro lugar de nós mesmos), em vez de fugir da discussão responsabilizando famílias e dopando crianças e jovens, ou, por outro lado, em vez de repetirmos besteiras sobre “falta de autoridade” causada pelo ensino libertário e crítico, ou pelos direitos humanos, aprofundarmos nossas reflexões olhando para o fenômeno da crise?

O mundo atual das crianças, dos adolescentes e dos adultos é extremamente violento, no seu ritmo acelerado, nos seus infinitos estímulos sensoriais, na presença constante de violência real e concreta ou esperada (penso por um lado nos pobres que convivem com polícia-bandidos violentíssimos, com transportes públicos lotados e sucateados, com exploração e com desrespeito a seus direitos básicos no trabalho e, por outro lado, nos ricos que convivem com cercas elétricas, muros, blindagens, armas, medo constante, ainda quando não consciente). Dizer que faltam “boas maneiras” é focar no sintoma mais superficial. Falta boa vida, falta tempo, falta carinho, falta zelo, falta delicadeza, falta simpatia pela dor do outro, falta experiência de alegria compartilhada, de tristeza compartilhada, falta experiência de superação das frustrações, falta experiência de troca franca de ideias. E, isto, admitamos, falta-nos a todos, inclusive aos professores.

Depois de 19 anos, voltei a uma sala-de-aula de Ensino Médio regular. Fiquei tremendamente angustiada não com desrespeitos, desorganizações ou agressões dos estudantes. Não, o que me assustou foi a apatia completa. Era tudo igual a como era no meu tempo: a sala fechada, as carteiras enfileiradas, o dia lááá fora, o texto superficial do livro didático (tão próximo dos tons das falas instrutivas da televisão), o sinal. Aí reconheci a angústia daqueles anos em que estive no Ensino Médio. Lembrei-me de que a todos os desconfortos e crises de crescimento que a adolescência já é, associa-se esta angústia escolar como “calmante” (no menos pior dos casos) ou como explosivo (quando já nunca se teve conforto e alegria).

Não sei o que podemos fazer para transformar isto, mas dizer que não temos nada com isso e continuarmos cúmplices da nossa desgraça, não me parece uma boa. Pior ainda abrirmos mão da nossa liberdade de ação e pensamento por medo da “falta de controle”. Estou mais com o José, filho de uma querida amiga que disse, em um dia chuvoso: “mãe, eu sou um pirata e piratas não vão para a creche”. Em um sistema educacional doente, salve a indisciplina pirata de José, é um cuidado-de-si.

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