Colunas, Crônicas 0

É sempre tarde em Fortaleza

Já era tarde. Sempre é tarde nesse lugar. Embora as horas corram normalmente, as pessoas parecem se guiar por outros compassos de tempo, guiado pelos pés ou o medidor do velocímetro. O coração bate cada vez mais devagar, nunca consegue acompanhar a frenética correria das calçadas.

As calçadas são quase um rio que tem como impulso o movimento, nunca é o mesmo… As calçadas são quase um rio, a poeira que se instala levam-nas sempre a ser outras. Messejana, Papicu, Benfica, Paracuru. Tem um pouco de tudo em toda parte.

No fundo, dá aquela vontade de apagar a luz, encostar-se na parede que fica entre o guarda-roupa e a cama, agarrar os joelhos e desmanchar no choro. Que morte horrível! É muito mais fácil que procurar amigos em lugares onde eles não estão. Na verdade falo da tarefa, diante do novo, de encontrar novos amigos.

Quando se é adulto é muito mais difícil fazer amigos. Quem dera os seis anos. Em uma semana já tinha mais amigos do que dedos. A esse época não se sabia contar, é verdade. Mas se calculava pela felicidade, sorrisos e histórias que levava pra casa ao final do dia. Quem dera a habilidade dos seis anos aos vinte e quatro.

Aos vinte quatro vejo tanta gente com tantos sonhos. Cada qual lutando para ser visto, ser reconhecido… Cada qual tentando afirmar sua individualidade, e eu apenas querendo um amigo. Acho – apenas acho – que por ironia do destino só tu, ô Fortaleza do meu abuso, só tu que vais amigar comigo. Nos bares e botecos dentro da noite, é tu que vais sentar ao meu lado. Enquanto o sol nasce, és tu.

A gente toda da cidade parece estar completamente atarefada. Ali, na 13 de Maio, de uma extremidade a outra do Shopping Benfica – e arredores – é quase impossível não carregar nada. As pessoas todas estão com mochilas, bolsas e sacolas. Sempre. É constrangedor passar por ali sem nada, logo me vejo carregando um monte de medo de ser percebido.

Oh! Tu, Fortaleza, que ou expulsa ou assimila, tinhas logo de vir a ser minha amiga. E veja, aqui não é de todo um mal. Quando olho para a praça da Gentilândia, bosque Moreira Campos, as Rodas do CH, e tantos outros espaços ocupados, é possível ver uma dinâmica particular, há uma vida cheia de peculiaridades em cada lugar.

Fortaleza me ajuda a ver o Cariri com os olhos da saudade, pois tive que abrir mão do Cariri para poder entender a dinâmica dos seus lugares.


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