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Do Japão para o sertão

Eles gostam de chamar atenção, fazem rolezinhos, sofrem com calor e também com alta do dólar. Conheça os cosplays.

Vestido de Neji, personagem do anime Naruto, Felipe Xenofonte, 20, foi ao seu primeiro encontro de cosplays no ano de 2009. Graças à habilidade da tia em costurar, ele viveu o ninja japonês que foi o primeiro dos mais de dez heróis que interpretou. Sair pela São Pedro em Juazeiro do Norte em busca de tecidos, perucas e lentes de contato colorida não é fácil – o que leva muitos cosplays a investirem na possibilidade de improviso com materiais mais básicos. Grande parte dos materiais usados na produção do cosplay, ou até a fantasia completa, vêm dos Estados Unidos. “Não é um hobby barato. Ou pode até ser, se você for o artista do improviso” ressalta.

“Mas qual o hobby que é barato?”, pergunta Luana Cortez, 24. Ela é enfática: “não dá para ser cosplay sem ser otaku”. A estudante de Design de Produto da Universidade Federal do Cariri fala que já fez mais de 14 personagens, sendo vencedora em segundo e terceiro lugares de alguns concursos. “Meus primeiros cosplays foram um desastre!”, exclama. Enquanto Luana vende as fantasias que não cabem no guarda-roupa, o estudante Gabriel Leite, 19, confessa: “Eu já fiz oito personagens, mas não vendo minhas fantasias. Eu me apego!”.

Felipe Xenofonte

Felipe Xenofonte em Hades – Saint Seiya The Lost Canvas

Os três têm relatos parecidos quando o assunto é sobre como se tornaram otaku. A TV aberta foi a grande responsável por despertar a imaginação deles. Quando encontraram na internet a continuação para os desenhos que viam na televisão, a paixão se consolidou de vez. Como um sonho, como um prazer de sentir os pixels na pele, aquelas vontades foram se projetando, tornando a brincadeira de ser aquele personagem, um sonho real.

O prazer do cosplay não é só em se fantasiar. Eles até gostam de chamar atenção atuando como personagens, mas a determinação para conseguir todas as vestimentas e a idealização da fantasia é a grande satisfação.  “É como se fosse teatro, voltado para o nosso prazer”, diz Luana.

 ROLEZINHO COSPLAY

“Às vezes você está dentro do carro, parado no semáforo e para alguém do seu lado e encara com uma interrogação enorme na testa: ‘O que é isso?’”, relata Luana sobre sair de casa nos dias de eventos. Sofrendo com o calor de baixo das quatro roupas da fantasia, Gabriel diz que já passou a catraca do ônibus fantasiado, e os olhares não foram poucos. Afinal, não é todos os dias que você encara os Cavaleiros do Zodíaco dentro de um Via Metro.

Luana Cortez em LUX de League Of Legends

Luana Cortez em LUX de League Of Legends

Dentro do evento a história já é outra. Os olhares se voltam não como espanto e, sim, admiração. Se do lado de fora há questionamentos como “é muita falta do que fazer”, do lado de dentro eles não podem descansar nem para aliviar os pés daquele peso todo. Os inúmeros pedidos de “podemos tirar uma foto?”, são a parte boa e ruim de ser cosplay. Eles contam que são tantos cliques que perdem a conta.

“Ao mesmo tempo que o evento cresce na região, ele perde a qualidade”, diz Felipe. Sem lugar próprio para ocorrer, os grandes eventos no Cariri, como o Sana Cariri, Expoanime e Sertão Otaku, já não comportam tanta gente. Também sem ter o reconhecimento merecido, os cosplays, que são as verdadeiras celebridades que movimentam a cena, não têm direito a camarim. “Muita gente deixa de ir, pelas mesmas premiações e atrações” completa ele, “quem faz, realmente faz porque gosta”.

As premiações ocorrem através de diversas formas de apresentações, como desfile, apresentação individual e esquete de grupos que estejam fiéis ao personagem. Quanto mais trabalhoso e surreal estiver a fantasia, mais chances de subir no pódio. Muita gente vive de ser cosplay lá fora, ganhando a vida com patrocínios de grandes empresas de games e animes. Para eles aqui, é um hobby que acaba se tornando caro pela falta de recursos e a alta do dólar nesse período de crise. “Comprar com esse preço do dólar é o mesmo que comprar os caros produtos brasileiros”, diz Gabriel.

 MODINHA?

É muito comum pessoas optarem por fazer aquele determinado personagem por achar bonito. “Tem evento que você vai de cosplay e já chegam fazendo um interrogatório, para saber se você é realmente fã”, conta Luana. O que os incomoda é alguém que faz por moda e toma o lugar de quem faz profissionalmente. Ainda, os três dizem que é muito comum práticas preconceituosas dentro dos eventos e em redes sociais, difamando alguns cosplays. As mulheres costumam sofrer assédio quando usam fantasias sensuais e discriminação quando interpretam personagens masculinos. Também é considerado errado um negro interpretar um personagem branco ou um gay que interpreta um personagem dito másculo e viril. “Não existem restrições para ser cosplay. É uma prática livre!”, diz Felipe.

Luana sempre está fazendo personagens nos quais está acompanhando, seja por desenhos ou jogos. Sua grande paixão está na estante, com todos os mangás dos Cavaleiros do Zodíaco. Felipe tatuou nas costas seu jogo preferido, Kingdom Hearts e acredita que, como qualquer arte, o cosplay é uma inspiração para a vida. Gabriel declara que está sempre pensando em fazer cosplay. Para ele, ser cosplay é chegar em casa, tirar a fantasia e pensar: “O que vamos fazer no próximo?”, ouvindo a mãe dizer “Tu inventa cada uma…”, brinca.

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Gabriel Leite em Azazel X-men First Class

 

GLOSSÁRIO

Otaku: é um termo usado no Japão e outros países para designar os fãs de animes e mangás.

Cosplay: é a abreviação de costume play ou ainda de costume que pode traduzir-se por “representação de personagem a caráter”, “disfarce” ou “fantasia”

Mangá: é a palavra usada para designar histórias em quadrinhos.

Sugestões de Leitura

  • Felipe Xenofonte

    Amei, obrigado pela visibilidade! Ótima matéria 😀