Arte e Cultura, Perfil 1

Dizem que curo ressacas

Há 10 anos Tia Fran garante que sua noitada não termine numa brutal ressaca. Já passou da hora de você conhecê-la.

Depois que as pernas cansam, a festa acaba e os portões se fecham, o destino certeiro dos boêmios de plantão nas noitadas do Crato é esperar que as portas de tia Fran do Mercado se abram. Competindo cadeira com os trabalhadores que cedo madrugam e precisam do tanque cheio, os afobados conversam, gargalham e – as vezes – continuam a bebedeira na mesa em que logo Fran servirá os pratos de panelada, caldo de mocotó, tapioca com carne moída e ovo, cuscuz com frango e batata cozida, sobrando espaço para o sarapatel, a buchada e o baião de dois. Aqui é onde os fracos não tem vez ou, pelo menos, onde eles vêm recuperar as energias.

“Tem uns que dizem que a panelada cura ressaca. Para outros é a tapioca ou o caldo de mocotó”, tia Fran revela, mas de sua vista o prato mais pedido é o cuscuz com frango. Não passa um dia sequer sem que o prato saia pelo menos uma dúzia de vezes. Quem prepara tudo na noite e arrocha o passo até o final da tarde é Francinete, 50 anos, que completa em junho 10 só de mercado, causos da noite e insônia.

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O lugar onde o dia começa.

De uma da manhã ao pôr do sol, Fran batalha. Pelo cronograma vê-se que o trabalho não é fácil. “É preciso ter muita determinação, porque, você veja bem, ninguém gosta de trabalhar de madrugada, mas eu preciso”. E assim trabalha de segunda a sexta e ainda mais de sexta a domingo. Férias mesmo só em três dias ao ano: Dia das Mães, Natal e Ano Novo. E diz numa mistura de cansaço com graça que os clientes ainda reclamam por essas folgas. “Eu digo: mas, minha gente me dê, umeno um dia!”, ela ri se remexendo na cadeira.

Foi por exigência da vida que Fran precisou aprender a conviver com o pouco sono e trabalho duro. “A vida é feita de lados bons e ruins, não é? A gente precisa saber lidar com cada um eles”, aconselha, coisa que, aliás, faz de graça e de bom grado. Tão famosa quando sua comida são suas reflexões, comentários e histórias de quem já passou por um bocado. Experiências de clientes fiéis recomendam para ouvir atentamente.

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Fran não abre mão do sorriso.

Vinda das terras de Araripe, o que do tupi-guarani quer dizer “lugar onde começa o dia”, uma coincidência poética demais para ser ignorada, as origens de Fran se ligam com sua vida atual. Lembra com saudade de sua infância, relevando a vontade jovial de dar o fora dali o mais rápido possível. Queria correr mundo, ela diz sobre a época que via o Crato como “cidade grande”. Evita, então, ouvir a música “Meu Pequeno Cachoeiro” já que a faz lembrar do lugar que deixou e não voltou.

Quando está sozinha preparando os temperos para o dia seguinte, Fran liga o som e canta com o sorriso frouxo. Com ela o assunto é MPB: Ana Carolina, Marisa Monte, Fagner e Roberto Carlos são os favoritos de cantoria. De Roberto, inclusive, viu o show no Parque de Exposições. Uma cortesia surpresa de clientes queridos. “Chorei a noite todinha, mulher! As amizades que a gente faz aqui… Eu sinto que eles tem um carinho grande por mim e eu por eles”.

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Cenas do dia e da noite no Mercado Público.

Abusada do barulho do mercado, conversas fiadas, gritaria, colher batendo em panela e a voz de Leo Magalhães saindo dos rádios o dia inteiro, o jeito que Fran quer mesmo passar seus dias de folga e, posteriormente, aposentadoria é no silêncio de sua casa ou na tranquilidade de um sítio ou clube. Até lá, zuada mesmo só se for para pedir aquele prato caprichado, um café bem forte e de quebra levar um sorriso e um bom conselho.

SERVIÇO

Tia Fran do Mercado, box 67

Mercado Público Wilson Roriz

Rua Monsenhor Esmeraldo (próximo ao SINE)

Encomende pelo telefone: 88 9 9223.4054

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  • Luciano Morais

    é muito amor de pessoa, meu povo! minha mãe no Crato <3