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Dia 08 de março: o que as feministas do Cariri têm a dizer?

Elas exigem: “Nenhum direito a menos, nenhum passo para trás!”. Com isso abrem mão da promoção no conjunto de panelas, das rosas de plástico e também aqueles cartões corporativos que, na fraca tentativa de parabenizar as mulheres pelo seu Dia Internacional, muito mais reforçam o quanto elas são exploradas. “Parabenizar o quê?”, as feministas questionam, ressaltando que antes de data comemorativa, o histórico 08 de março é lembrete de que a luta das mulheres por uma vida digna ainda tem muito que ser superado.

Neste Dia Internacional das Mulheres, 08 de março, a CARIRI conversou com três mulheres que lideram movimentos sociais em prol da igualdade de gênero, pelo fim do racismo e da lesbo-homo-bi-transfobia e explicam porque falar de feminismo em uma das regiões que mais matam mulheres é da maior importância.

Suamy Soares, Frente de Mulheres dos Movimentos do Cariri, explica onde avançamos e onde regredimos:

“O Cariri avançou muito nos últimos cinco anos quando se fala na luta das mulheres. Tivemos a multiplicação dos coletivos, entidades e organizações que trabalham com pautas de gênero. Ainda discussões fortes dentro dos conselhos e conferências. Houve uma ampliação do debate, mas não necessariamente uma efetivação dos direitos. Uma coisa é a mulherada pressionar o Estado para mais direitos, outra coisa é o Estado fazer políticas que atendam a essas demandas”.

Políticas Públicas

“Apesar de nos últimos 10 anos termos conquistado muita coisa, essas conquistas estão estagnadas. Por exemplo: temos a Delegacia da Mulher no Crato, mas ela não funciona nos fins de semana ou pela noite, que são os horários onde acontecem mais casos de violência contra a mulher. Sem falar nos casos de estupro que aumentam a cada ano, nos feminicídios em Barbalha, uma das cidades que mais matam mulheres. Muitas vezes quando as mulheres chegam para denunciar seus agressores, o posicionamento da Delegacia é de conciliar agressor com agredida, aconselham a pensar melhor sobre a denúncia. Isso é uma situação bastante complicada”. 

Suamy Soares é servidora pública, assistente social e feminista.

“Mas feminismo não é só política pública. A política pública é um elemento que pode melhorar a vida das mulheres, mas a nossa luta é por liberdade e autonomia. Mesmo se tivermos políticas voltada para as mulheres, ainda não somos livres. Quando ando na cidade, a noite, tenho medo de ser estuprada, então vou calculando em quais ruas vou andar. Certamente qualquer mulher passa por isso também. Um homem sozinho a noite pode até ser roubado, mas um mulher sempre corre o risco de violência sexual”.

Aborto

“Outra coisa é o alto número de abortos, em contraposição o movimento feminista daqui tem debatido muito pouco nosso posicionamento sobre o aborto, muito pela ligação com a religiosidade. Pelo Mapa do Aborto no Brasil, nosso número é alto, mas não dá para saber se são abortos espontâneos ou não-espontâneos. Como aborto é crime no Brasil, as mulheres têm dificuldade em assumir a prática e quando precisam de cuidados médicos são violentadas institucionalmente do atendente da maternidade até o médico, se percebem se houve indução. Esse cenário é muito difícil para as mulheres.

A partir de 2011 temos a Marcha das Vadias, depois vem a Ato contra o Feminicído em Barbalha, tivemos as movimentações da Marcha das Mulheres Negras, com 2.000 mulheres aqui. Cada vez mais surgem grupos de mulheres se fortalecendo, os movimentos sociais pautam a questão de gênero, as mulheres jovens criam iniciativas… Isso mostra que temos representatividade, mas mesmo assim ainda acontecem casos de violência, inclusive dentro das instituições de ensino, a exemplo da URCA”.

Verônica Isidoro, Conselho da Mulher Cratense, releva problemas gritantes para a mulher caririense:

“Infelizmente ainda é a violência doméstica. Em Crato também está em alta a questão da saúde feminina. Estão acontecendo vários casos de negligência, falta de recursos e despreparo da administração no tratamento das mulheres… É o não funcionamento das políticas públicas voltadas paras as mulheres. Faltam postos de saúde nos distritos e comunidades, com isso os hospitais do centro da cidade lotam e ficam incapacitados de dar atendimento de qualidade às gestantes que precisam fazer pré-natal, por exemplo. Isso tem prejudicado de forma absurda a vida das mulheres e das meninas”.

Denúncias

“Ainda não temos os dados de violência de 2015, mas sabemos que o número de denúncias aumentou bastante nos últimos anos. O Centro de Referência às Mulheres (CRM) e a Delegacia da Mulher operam sob esses dados, mas ainda não foram tabulados os de 2015. Os dados nunca são precisos, é importante ressaltar. Eles só conseguem registrar aqueles que vão ao CRM, aos postos de saúde e os que vão até a delegacia. Aqueles casos que são obscuros a sociedade, casos que acontecem dentro das casas, não sabemos. Os estupros constantes, as violências cotidianas, seja física, moral ou psicológica, esses não são visibilizados. Essas violências não são menores do que a violência física. É preciso se movimentar para acabar isso”.

Dayze Vidal, Pretas Simoa, alerta para a condição da mulher negra na sociedade:

“A trajetória das mulheres negras no Brasil é permeada por dificuldades e isso aparece até mesmo quando queremos desenvolver alguns trabalhos. Uma das barreiras que sentimos é a homogeneização das mulheres, mas sabemos que nem todas as mulheres são iguais. Precisa-se sempre pensar: de que mulher você está falando? Se você fala de uma mulher negra lésbica, é muito diferente de falar de uma mulher negra heterossexual. Ou de uma mulher negra que mora na periferia e uma das poucas que moram em um bairro de classe média alta. Ou mesmo comparar todas essas a uma mulher branca. No Pretas Simoa, queremos sempre tocar nas especificidades dessas mulheres”.

Dayze Vidal, estudante de Ciências Sociais na URCA e membro do grupo de mulheres negras Pretas Simoa.

Dayze Vidal, cientista social e membro do grupo de mulheres negras Pretas Simoa.

Barreiras a serem superadas

“Em cada lugar, existe sua especificidade, mas acabamos vendo uma série de recorrências, a exemplo da hiperssexualização do corpo da mulher negra na mídia, nas festas, nas ruas. O mercado de trabalho é outro campo complicado. Onde estão as mulheres de cor? No último relatório do DIEESE, mais de 75% das empregadas domésticas no país eram negras. Será que é falta de capacidade de ocupar outros cargos ou a inexistência de oportunidades? Para mais perto de nós, as mulheres que mais são agredidas e violentadas também são negras. Isso tudo é reflexo da nossa sociedade racista”.

Racismo

“O brasileiro não quer ser preconceituoso. Se você perguntar a uma pessoa se ela é racista, ela vai te olhar com cara de espanto, dizer que jamais, que no Brasil não existe isso. Será que o racismo realmente não existe? Então por que as piores estatísticas estão legadas a população negra? Por que os presídios estão lotados de negros? Por que as mulheres negras ganham menos que mulheres brancas? Por que os bairros de negros são os mais precários? Por que ainda em 2016 acontece de estudantes negras de Medicina terem seus jalecos pichados com “aqui não é senzala”?”

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