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Daniel Peixoto tem fome de viver!

Desbravador de fronteiras em direções e sentidos amplificados, Daniel Peixoto se define um artista livre. “Fazer música eletrônica de boa qualidade, mixada a ritmos e elementos tropicais, me dá uma visibilidade diferenciada. Essa é a ideia!”, situa o jovem músico cearense, que nunca negou as raízes caririenses nem temeu alastrar-se em variadas mixagens pelas esferas globais do universo pop. Em carreira solo, o popstar nacional desde a banda electropunk Montage – formada por ele em 2005 e com a qual rodou meio mundo até meados de 2009 – se desligou do duo para conectar-se melhor consigo, temperou as células criativas com condimentos nacionais e lançou o primeiro disco solo, “Mastigando Humanos”, em abril deste ano. Pouco depois zarpou para a Europa, dilatando horizontes.

Por Kiko Bloc-Boris

De Amsterdã, na Holanda, onde gira em temporada, ele emplaca êxitos pelo Velho Continente. O álbum de estréia virou dois discos em difusão por um selo francês. Sem desplugar das redes sociais, abocanha com gula novas composições mundo afora. É de lá, e pela Internet – o meio democrático em que se divulga e disponibiliza os
sons e imagens que lhe erigiram a fama –, que o moço de 20 e alguns anos alardeia um sonoro tropicalismo bem
casado à música eletrônica, e lembra das vivências e iniciações nas artes pelas terras do Sul do Ceará.

Filho da cratense Valéria Peixoto com o carioca de ascendência alemã Oswaldo Moellmann Cordeiro de Farias, Daniel Peixoto nasceu em Fortaleza. Ainda no colo foi para o Rio de Janeiro e aos três anos chegou ao Crato, onde permaneceu por uma década. Estudou nos colégios Diocesano, Pequeno Príncipe e Nosso Mundo, habilitando-se no canto, dança, teatro e coral pela Sociedade de Cultura Artística do Crato. Com 11 anos já viajava como ator de teatro. Para Daniel, “o Cariri representa um caldeirão cultural de etnias. De lá retirei toda a vontade de ser artista e as primeiras referências, em todos os sentidos, música, artes plásticas, cênicas…”.

Em casa, na escola, nas ruas caririenses, DP deglutiu influências, assimilou manifestações e alicerçou o futuro nos ambientes artísticos. Os amigos da mãe “eram na maioria atores, bailarinos, poetas, cantores. Estar no meio deles me deu uma bagagem de estímulos. Cresci vendo Abdoral e Pachele Jamacaru cantarem, Elina Sousa dançar, João do Crato em performances absurdas com aquele visual único”, remonta. Na trajetória pessoal, não se censura de expressar o que pode unir pela música. Ecoa com escrachos, arremates visuais e esculachos, as transgressões sem agressões que lhe propagaram como um cantor performático, andrógino, que se maquia, usa vestidos. O que prega é diversão, diversidade, verdade e coragem.

“Madonna e Bowie serão sempre fontes inesgotáveis de inspiração”, identifica Peixoto, para se alongar em extensões atentas. “Estou muitíssimo influenciado por nomes novos, como IAMX, Placebo e Ladytron, mas adoro os sons brasileiros da Gaby Amarantos e essa galera do ‘guetho paraense’… Sou uma mistura, graças a Deus!”. A variedade já rendia ao obstinado adolescente, que em 1999 veio morar na capital. Em Fortaleza modelou a persona de facetas nonsense-sexy-bagaceira, com ar romantic-freak-clubber-outsider. Na paixão pela música, especialmente a eletrônica, desdobrou ligas, armou-se com o Montage, emigrou em 2005 para São Paulo, fez rádio, atuou como DJ e, sem raias pré-estabelecidas, fez-se celebridade na TV e na Web.

Carismático, DP transmuta-se nos cortes e coloridos dos cabelos, roupas e adereços. Ama a expressão corporal, que evidencia nas tatuagens e no desnudamento em cena. “Hoje o personagem sou eu exagerado. É o Dani x 4 para o palco e vídeos”. Mas reconhece: “Se a música não for boa, sólida, não há roupa, foto ou desempenho que sustentem um trabalho. Moda e hype passam, músicas boas ficam”. Resume então: “Minha voz está melhor, a performance tem amadurecido. Continuo apostando na atenção da audiência, só que aliado a uma musicalidade mais sólida e com mais identidade  pessoal”. No comando da trilha, o sertanejo cosmopolita brada que “tudo fica mais lindo misturado”.

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Foto: Bruno Zanardo

NOVAS MONTAGENS

No Montage, Daniel conheceu bem as facetas afáveis e contrastantes do sucesso. Ele e o parceiro Leco Jucá pousaram em todos os estados do Brasil, fizeram shows, se exibiram em festivais dentro e fora do país. Eleitos
pela Folha de SP o melhor show do Brasil, em 2005 e 2006, também venceram por júri popular os prêmios London Burning de Melhor Artista em 2007 e o HellCity de Melhor Show em 2008. Tocaram ao lado de bandas e músicos do naipe do Justice, Digitalism, The Killers, Artick Monkeys, Hot Chip, Supergrass, Stereo Total, Neon Judgement e Gang of Four. Peixoto tem “muitíssimo orgulho de ter dividido palco com artistas que me influenciaram bastante, como Björk, Prodigy e The Cardigans, parece surreal na minha cabeça até hoje”.

O fim amigável da banda em 2009 não esmaeceu excitações passadas. Daniel, que já se destacava como “maravilhoso”, “o novo David Bowie” para o jornalista inglês Peter Culshaw do The Guardian, também era apontado no site pessoal do astro Justin Timberlake como “um encontro entre Shine Toy Guns, Prodigy e a paixão tipicamente brasileira”. Ao trilhar novas e independentes veredas, lembra que no Montage seu forte era a performance ao vivo. “Ficava meio com vergonha de interferir nas ideias do meu parceiro Leco Jucá, um músico profissional e excelente produtor”, confessa, recordando que musicalmente era “quase regra o grupo não soar brasileiro, não ter referências
locais”. Para o trabalho solo decidiu adubar faixas com sonoridades brazucas e regravou “Raio de Fogo” e “I Trut My Dealer”, que já rolavam nas apresentações e gravações do duo. “Agora sim, estão exatamente como gostaria que fossem”.

SOLOS PARA RENOVAÇÕES!

A independência e energia de Daniel Peixoto multiplicaram-se na busca da identidade artística própria. Apresentações com seu nome à frente, incursões como DJ e hostess de festas, aparições na TV e editorias de moda, tudo fluiu no sedimentar da fase solo. A empatia persuasiva e o dom de aglutinar repercutiam em parcerias com novos e tarimbados DJs, produtores de música eletrônica, diretores, fotógrafos e um arsenal de profissionais. A latinidade vibrava nos embalos do músico-cantor, que arquitetou interseções vocais em português, inglês e nos dialetos dos badalos notívagos, amalgamando percussões e brasilidades com batidões eletrônicos. Toda a arregimentação convergiu na diversidade de estilos musicais e na comunhão de participações do álbum solo. Mas incursões anteriores já vinham com tais contornos.

Em outubro de 2009, o happening melodioso de Daniel com guitarradas paraenses, lundus tecnobregas e outras cadências ecoavam em apelo irrecusável a convocar fãs, amigos fashionistas e ferventes festeiros em Belém para a filmagem do clipe de “Come to Me”. Exibido em abril de 2010, inicialmente com exclusividade pela MTV Brasil (onde DP é um queridíssimo colaborador desde que surgiu no mapa pop nacional), marcaria a temporada independente, deflagrada com o lançamento do primeiro single, que imprimiu e motivou outras tantas promoções à nova fase.

O álbum com 16 versões diferentes de “Come to Me” traz cada faixa trabalhada por uma nata de aliados, entre eles Luca Lauri, Leco Jucá, DJ Chernobyl, Killers on the Dance Floor, Database e Camilo Rocha, a partir da base lírica entoada a cappella por Daniel, que flama a uma memorável intimidade. Ainda em junho de 2010, ele confirmou o poder conclamatório ao cantar ao vivo para uma multidão de 3,5 milhões de pessoas na maior parada gay do mundo em SP, para a qual compôs “Sinta o Amor em Mim” e juntou no trio elétrico ostentado com seu nome uma considerável trupe de artistas.

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Show em Barcelona (Foto: Arquivo Pessoal)

“MASTIGANDO HUMANOS” = “SHINE” + “DON’T GIVE UP”

Embriões concebidos, Daniel estava preparado para solar, bem acompanhado. Em abril, o álbum “Mastigando Humanos”, com 12 músicas inéditas, duas novas versões de hits e um encarte recheado de referências
ao Cariri, saía nacionalmente pela Fora do Eixo Discos em parceria com o site Toque no Brasil, que se ateve ao preceito de DP e torna públicas as músicas para download, vídeos, fotos e biografia pelo link.

O título do CD até sugere leituras antropofágicas. Todavia vem mesmo do romance psicodélico de Santiago Nazarian, escritor amigo, que também assina a letra da canção homônima. A deglutição voraz à qual Daniel se refere tem mais a ver com as próprias sendas existenciais. Desde que saiu do Crato para tentar a vida e atentar às artes, diz que não fez muito além de absorver, degustar e digerir provas humanas, alheias e pessoais.

Na mescla de programações eletrônicas com percussões e incidências regionalistas, Peixoto compôs um saladão rítmico que chama “electro-brega-industrialpop-punk-tropical”. Liga trip hop, menções às sonoridades 90’s e vertentes do rock com sotaques nacionais no estrondo de pandeiros, atabaques, “um tamborzão mais frenético”, elementos de samba, macumba, carimbó, tecnobrega e forró para refrescar o fundamento eletrônico. O ecletismo na pluralidade do trabalho e “a participação de muita gente bacana” não abreviam a capitania de Dani em “Mastigando Humanos”.

Sempre confessional, DP é um catalisador do que vive, um amplificador do que o cerca. Abre o disco na delicadeza embalada de “Olhos Castanhos”, romantiza com a viajante “A Fish Alone” e começa a acelerar na inequívoca brasilidade melodiosa, sexual e bem humorada de “Flei”. A canção-título do disco evidencia as farragens mandatórias, que não abrandam em “Shine”, quando se une ao luzente vocal de Nayra Costa para chamar às pistas. E a levada caliente ecoa no acelerado hit “Come to Me”.

Dani amaina na declarativa “My Love Has Green Lips” e mareja pop nas ondulações híbridas de “Praia do Futuro”, que também sapecam em “Raio de Fogo”, com participação de Thalma de Freitas (vocalista da Orquestra Imperial). Na entusiástica “Don’t Give Up”, divide créditos com o rapper Xis e Clowie de Wolf. A diversão bomba na descarada “Eu só Paro se Cair”, e “I Trust My Dealer” volta com novos arranjos e efeitos, antes do agitado remixe de Discokillah para “Come to Me” ganhar os apaziguamentos de despedida da acalentadora “Desacelerando”, com backing vocal da também cearense Laya Lopes.

EURO DISCO

“Mastigando Humanos” mal começava a ser devorado no Brasil, elogiado pelas revistas Rolling Stones e MixMag, abalizado por sites como MadDecente do Dj Diplo de NY, e Daniel já seguia em excursão por Paris e Berlim. Tendo garantido o lançamento digital do trabalho pelo selo francês Abtjour Records, com distribuição pela inglesa Pias Records (a mesma de artistas como Adele, Radiohead e Massive Attack), ele explica que “o label francês decidiu dividir o disco em dois por acreditar que 14 faixas seria muito para um lançamento na Europa, já que a maioria lança EPs”.

Batizada “Shine”, nome fácil, curto e com o apelo pop que a canção confere, no dia 18 de julho saía na Europa a primeira versão compactada do CD, que traz a faixa homônima, além de “Flei”, “Eu só Paro se Cair”, “Come to Me” (Discokillah remix) e “I Trust my Dealer”. DP, que grava clipe de “Shine” com uma equipe “muito competente na Holanda”, adianta que “em alguns meses lanço o segundo disco, ‘Don’t Give Up’, com as faixas que ficaram de fora do primeiro e umas inéditas que já produzo”.

A gingada no exterior era prevista pelo artista. “Certeza, meu disco foi feito pensado bastante no mercado gringo”. Os preparativos para apresentar algo que soasse diferente e se encaixasse comercialmente valeram. O selo europeu fez parceria com a Microsoft e o MSN, disponibilizando gratuitamente a faixa de “Shine” para baixar na página de abertura dos sites ligados às empresas em cinco países europeus, “o que aqueceu as vendas do álbum e divulgou o meu trabalho”, saúda Peixoto.

ÚLTIMAS PELO CARIRI

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O regresso ao que realmente importa a Daniel incluiu revisitas às fontes, alusões e ilações ao seu Cariri. “Minha última passagem pelo Crato foi em outubro de 2010, quando votei pra presidente e aproveitei para fotografar o encarte de ‘Mastigando Humanos’ e gravar um videoclipe inédito”. O clipe, recém-lançado, é o da canção “Olhos Castanhos”, em que Daniel entoa com legitimidade pessoal, sob batidas compassadas, tocantes confissões, invocando um penitente que se flagela para se regenerar, reconstruir, sobreviver.

No filme, o brincante popstar cearense se reconecta com as riquezas e ambiguidades de manifestações religiosas e culturais caririenses, numa espécie de prece pelos cenários de onde artisticamente emergiu. Em meio às simbólicas imagens do artesanato de Mestre Noza, num santuário caseiro, aos pés da estátua do Padre Cícero e em dançantes conjunções com folganças locais, o moderno retirante nordestino despe-se, literalmente e em orações. Vestido em trajes folclóricos e na t-shirt estampada com “Juazeiro do Norte”, evoca uma ode à estranha São Paulo, outro palco familiar de tantas cheganças.

EUROPEANS NIGHTLIFES E CONTATOS EXTRATERRENOS

Ele canta e avisa em português mesmo: “Eu só paro se cair”. E se cair vai até o chão, levanta, dá a volta por cima, por baixo, mas parar não pára não. Tudo rola super bem no solo europeu. O primeiro disco emplacou, logo renderá repercussões no lançamento sequencial da segunda parte do trabalho. Neste ínterim, Dani mantém o single de “Eu só Paro se Cair” nas paradas. Na Alemanha o hit lidera acessos e downloads em sites como o www.oljo.de, que sublinha o artista como “Mr. Gaga”, em alusiva referência à diva do momento.

“A ideia agora é fazer mais shows, circular o nome para o ano que vem entrar no circuito de festivais”, tenciona ele, que voltou a ser atração em clubes e bares “como quando comecei meu trabalho musical no Brasil”. Ao invés de cinco músicos, na Europa trabalha com um DJ executando o live p.a., o que possibilita tocar e mostrar seus vídeos “em qualquer buraco”. Em viagens com rumos certeiros já fez Holanda, França, Suíça, Bélgica, Alemanha, Espanha e Itália. “Estou adorando formar novo público e apresentar meu show a brasileiros que vivem nesses locais, que conheciam meu trabalho, mas nunca me viram em ação ao vivo”.

Atualmente Daniel toca com a cearense Priscilla Dieb e Anderson Villa Nova, dois DJs brasileiros que vivem em Amsterdã. Desde agosto, trabalha com uma empresária suíça e um assessor de imprensa alemão. “No começo corri atrás de tudo sozinho, o que causava deficiência em algum ponto, já que minha prioridade é o criativo e a execução ao vivo. Delegando funções, me concentro”. Coisas bacanas já acontecem. “Meu clipe nas MTV de vários países e meu single ‘Eu Só Paro se Cair’ há semanas nos chartes da Alemanha, enquanto os remixes começam a rolar. Vou lançando aos poucos para não dividir informações e desviar a atenção do público. Tenho sido paciente e organizado, um passo a cada vez”, pondera animado.

Em meados de julho, Daniel ganhou loas em outra dimensão hemisférica ao ser eleito com 65,73% dos votos o Artista da Semana no site da MTV Iggy de NY. Chamadas o apresentaram com honrosos codnomes, remissivos aos gêneros musicais em que se inclui, como “o Hedwig português” e “o rapaz Lovefoxxx” (em alusão à bandleader do grupo brasileiro CSS, fenômeno electropop lá fora). Nas distinções às ousadias de traje e comportamento, a vitória massiva coroou a “encantadora nova revelação” com frisos no site e bateu papo desnudante com o proclamado “Príncipe Brasileiro do Electro”.

®EVOLUÇÕES

Há dois anos e alguns meses, no dia 30 de janeiro de 2009, tudo na vida de Daniel mudou com a vinda de Daniel Peixoto Teixeira Cordeiro de Farias. “Meu filho tem o mesmo nome que o meu, incluindo o Teixeira da mãe. Com ele as responsabilidades cresceram e eu passei a ver o futuro com outros olhos. Antes vivia somente o presente”. Apesar de passarem o máximo de tempo juntos, o Daniel filho mora com a mãe em Fortaleza, enquanto o pai percorre o mundo. Até um breve retorno ao Brasil, Daniel não se desliga do filho. “Todo dia a mãe dele me manda fotos e vídeos para que à distância eu possa acompanhar o seu crescimento. Quando conseguimos conciliar o fuso horário fazemos
sessões ao vivo na webcam”.

Enérgico e vibrante, Daniel Peixoto contabiliza mutações em evolução. “Avalio que sou um cara de muita sorte e atrevido. Sonho alto demais. Quero ser uma pessoa e um artista melhor. Essa evolução é notória aos que acompanham meu trabalho e vida pessoal. Cresci muito com as experiências e principalmente correndo os riscos que corri e corro! Não sou medroso, isso me dá substância para crescer”. Ímpeto realmente não falta a DP. Sobre o prazo de validade da recente onda sonora mais regionalista, ele avisa que “não defino meu trabalho por épocas ou modas. Adoro ser mutante e deixo meu feeling me levar”. Na batalha, os remixes são armas certeiras. “Por exemplo, agora na
Europa o pau que rola é o dubstep. Não tenho nada disso no meu CD, mas providenciei remixes para me inserir nisso. Assim funciona!”, evolui.

Surpreender é com Dani, que desfecha uma revelação final. “Estou super satisfeito com minha sonoridade, mas penso no futuro fazer algo mais brasileiro ainda… Usar o repertório de artistas que amo, como Cartola, Alceu Valença, Cazuza, Luiz Gonzaga, Fagner. Parece estranho vindo de mim, mas vai acontecer certamente!”, promete.

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