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CRÔNICA | A primeira delas

No final de junho, Wiarlley Almeida (ou Wiarlley Spears, ou só Wiarlley, assim como é a Madonna) foi a primeira travesti a se formar na Universidade Regional do Cariri

Quem vê Wiarlley andando na rua pensa em mil xingamentos, ou não pensa em nada, só olha sem parar, até ela dobrar a esquina. Alguém com a mente bem pequena, onde falta conhecimento e sobra preconceito, alguém que não suporta o que foge à regra, que não sabe que Wiarlley é atriz, autora de três peças de teatro e, portanto, é acostumada a ser admirada por muito mais tempo enquanto se apresenta em seus espetáculos, alguém homofóbico e transfóbico, que vê Wiarlley andando na rua carregando uma bolsa no ombro e um medo dos pés à cabeça.

Alguém que ignora o fato de que, no quarteirão anterior, um outro alguém já havia sido indelicado com ela e já há mais outro no quarteirão seguinte, que ainda nem sabe que por ali vai passar a primeira travesti a se graduar na Universidade Regional do Cariri e que honestamente não se importa com as piadas, os cochichos, os olhares insistentes, porque ela é uma Spears de 25 anos e uma longa carreira pela frente. Não há tempo para o recalque.

Wiarlley de Almeida Barros é Wiarlley Spears no Facebook porque foi Britney Spears quem a ajudou se descobrir travesti. “Britney é meio travesti também, né? Aquela jogada de cabelo não engana”, ela diz, soltando uma risada gostosa. Mas seu nome artístico e como ela se apresenta é apenas Wiarlley porque, como Madonna, não há outra dela. Por enquanto não há outra travesti como aluna egressa da Urca, mas, daqui a dois anos, uma transexual também vai pegar seu diploma e Wiarlley estará mais feliz do que já está. É uma amiga que ainda mantém a aparência masculina porque não tem o apoio necessário para fazer a transição. “Ele precisa esperar pela hora certa pra assumir sua identidade trans. Por enquanto, ele se considera como trans, mas ainda não pode ser”.

Pergunto o que acha das classificações de gênero e ela ri: “São confusas”. “A diferença que eu vejo entre uma travesti e uma transexual é que as trans estão em processo de cirurgia para mudança de sexo. Não é o meu caso. Não pretendo, de forma alguma. A travesti é a pessoa que possui o corpo masculino, mas com traços femininos. Usa maquiagem, roupas e sandálias de mulher, se comporta de forma feminina”.

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Foi no Campus Pirajá, onde a Urca abriga o curso de Teatro, que Wiarley diz ter se sentido livre “para que eu pudesse mostrar quem eu realmente queria ser”. Na conversa que tive com ela, notei como ela é grata aos professores, colegas e, principalmente, à Universidade – não a instituição, mas o espaço: “lá você é livre para se expressar, você pode ser quem você é”. A Wiarley nasceu em 2012 e, até então, era o Wiarley que se vestia de mulher esporadicamente, para incorporar Britney Spears, mesmo sem nenhuma semelhança.

Ela e suas amig@s do grupo Bonecas do Crato agitavam festas e gincanas do colégio com os covers de divas pop. Felipe era Shakira, o outro Felipe era Rihanna, Fabiano era Beyonce (depois virou Lady Gaga), Rafinha começou fazendo Stefany (a Absoluta, do Crossfox), mas depois preferiu ser Katy Perry. Quando gravaram uma paródia de Three, da Britney, o vídeo ficou famoso no YouTube e elas foram convidadas a ir aos programas da TV Diário: João Inácio Show, Ênio Carlos, Sábado Alegre e Testa com Rapadura, com o humorista Tirulipa.

Fissurado em perguntar quando elas resolveram “deixar de ser menino” e querendo, insistentemente, saber se era bom ser gay, João Inácio falou com cada uma, lembrando-as que elas haviam nascido homem e perguntando repetidas vezes se elas queriam “tirar o que tá pendurado aí”. O João Inácio Show é o programa da TV Diário que veiculou o quadro Glitter, o RuPaul’s Drag Race brasileiro.

No programa em que Tirulipa apresenta vestido como a sua personagem “Rapadura”, foi ainda mais degradante. “Ele criticou muito a gente, dizendo que era brincadeira. Mas me senti bastante incomodada, porque a gente estava ali pra ser zoada”, Wiarlley lembra, “Mas se ele não tivesse feito tanta brincadeira, não teria audiência, essa é que é a verdade”. Realmente, a entrevista é o primeiro resultado que aparece em uma busca pelo programa no Google. No Brasil, há inúmeros humoristas e atores ganhando dinheiro vestidos de mulher, contribuindo com a ridicularização das travestis, que podem existir no Zorra Total, mas não na rua.

Wiarlley existe dentro de salas de aula do Ensino Médio há quatro anos, desde que passou a ser professora de Artes através de um projeto da faculdade. Ela passou pelo Estado da Bahia, no Crato, depois Adauto Bezerra e Maria Amélia, no Juazeiro. Alunos das três escolas seguiram seus passos e sob a liderança dela criaram a Cia. Mákara de Teatro, que já tem quatro espetáculos apresentados, três deles com roteiro escritos por Wiarlley. Pergunto se o tempo como professora foi bom e ela responde sem pensar, fazendo crescer um sorriso: “Foi tão bom, que dali nasceu minha companhia de teatro”.

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“Ainda dói”, ela diz, quando pergunto o que o preconceito causa nela. “Não são olhares como quem assiste a um espetáculo meu, me admirando. São pessoas que olham pra mim como se eu fosse uma aberração, sei lá, como se eu nem devesse existir. Mas eu ignoro porque, se eu fosse dar importância…”, ela sorri em vez de terminar a frase e eu sorrio também porque eu sei que ela não anda de uma esquina a outra sem incomodar pelo menos uma pessoa, porque ela foi a primeira travesti que eu entrevistei na redação da CARIRI Revista, então espero que ela seja também a primeira professora travesti em mais escolas da região.

“Não me sinto segura nem em casa, não que minha casa não seja um lugar acolhedor, porque é. Mas porque eu não estou segura nem por um minuto. Eu saio de casa sem saber se vou voltar porque a gente vive em um país que mata travestis e transexuais. Apesar da sociedade ser homofóbica, eu ainda tinha mais aceitação como gay. Aumentaram as piadas, os cochichos, os olhares”.

Quem vê Wiarlley na rua pode suspeitar que ela sempre teve a voz fina e que a vida dela era difícil a partir do momento em que abrisse a boca na escola, e que, de tão difícil que foi se assumir gay, ela achou que nunca teria coragem de se assumir também travesti. Alguém esclarecido, que não vê problema em um homem usar saia, que não se importa com o que o outro faz da própria vida, que não se limita à sigla LGBTTQI (que pode ter sido atualizada enquanto você lia esse texto), porque o que importa é ser o que acha que é. Alguém que enxerga pessoas além do que elas aparentam ser, que não perde tempo pensando “é homem ou é mulher?” e que vê Wiarlley na rua, irá sentir orgulho mesmo sem conhece-la bem, irá sorrir para ela, sentir-se grato por ela ser a primeira de muitas que virão e vai seguir andando, desejando silenciosamente que ela tenha um futuro brilhante.

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  • Max Petterson

    Que lindo!