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Conversa com o Padre Cícero

Essa entrevista com o Padre Cícero pode ser lida, na íntegra, no livro “Padre Cícero na Berlinda”, do pesquisador Daniel Walker, que utiliza o recurso jornalístico conhecido como entrevista-montagem. As respostas de Cícero às perguntas foram extraídas literalmente de publicações consultadas por Walker e publicadas pela CARIRI em versão compilada.

Há homens que jamais caberão em poucas palavras. Enquanto Irineu Pinheiro considera Padre Cícero “um dos maiores fatores de progresso da vida econômica sul cearense”, a escritora Maria de Lourdes M. Janotti o situa como “o mais célebre dos coroneis”. Sem demora, José Boaventura de Sousa intervém: “Foi um coronel porque todos o procuravam como um líder”,  ao passo que Euclides da Cunha reduz o Padre a expressões duras: “heresiarca sinistro”. Manuel Diniz, advogado, rebate: “Heresiarca por que, se Cícero jamais deixou de obedecer até mesmo ao zelo inexplicável de seus superiores?”. Rachel de Queiroz defende: “Padre Cícero é o nosso santo”. Rodolfo Teófilo ataca: “Padre Cícero se passava por santo”. Sentado à nossa frente, o homem de batina preta e olhos azuis abre o coração e conta, com suas próprias palavras, o que aconteceu em Juazeiro, defendendo-se das acusações que resultaram na suspensão de suas ordens. No alto de seus 90 anos, Padre Cícero fala pausadamente, sem pressa, desfiando suas convicções sobre fé, política, seca no Nordeste, Juazeiro, Floro Bartolomeu e outros temas que até hoje apaixonam os estudiosos.

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Vamos começar com um assunto melindroso: a Questão Religiosa. Como ocorreu pela primeira vez o chamado Milagre da Hóstia?

Pe. Cícero: Temos aqui uma Irmandade do Sagrado Coração de Jesus – o Apostolado da Oração – com muita gente. Chegou a primeira sexta-feira do mês de março, da quaresma do ano de 1889, eu chamo a toda a irmandade, como de costume, para uma comunhão reparadora do mês e todos mais que quisessem tomar parte. Passei toda a noite confessando homens, na igreja, aonde passavam também orando seis ou oito mulheres; com pena delas, interrompi o trabalho e fui despachá-las, dando-lhes a comunhão de quatro e meia para às cinco horas, antes dos outros.

Quando dei à beata Maria de Araujo, que era a primeira, a sagrada forma, logo que a depositei na boca dela, imediatamente transformou-se em porção de sangue, que uma parte ela engoliu, servindo-lhe de comunhão e outra correu pela toalha, caindo algum no chão. Eu não esperava e vexado para continuar as confissões interrompidas, que eram ainda muitas, não prestei atenção e por isto não apreendi o fato na ocasião em que se deu; porém depois que depositei a âmbula no Sacrário e vou descendo, ela vem entender-se comigo, cheia de aflição e vexame de morte, trazendo a toalha dobrada, para que não vissem, e levantava a mão esquerda aonde nas costas havia caído um pouco e corria um fio pelo braço e ela com temor de tocar com a outra mão naquele sangue, como certa que era a mesma hóstia, conservava um certo equilíbrio para não gotejar no chão.

O senhor chamou algum médico para testemunhar o fenômeno?

PC: Dois médicos e um farmacêutico distinto do Crato todos viram e examinaram com o maior escrúpulo e consciência, afirmando a verdade e sinceridade do fato.

Mas, a verdade é que a Igreja condenou o milagre.

PC: De fato, a Igreja condenou, mas a condenação resultou do modo como fizeram o processo aqui no Ceará. Foi empregado tudo, ameaças, seduções de todo modo, os mais refinados sentimentos de compaixão, até as lágrimas de fino cômico. Padre Alexandrino e os outros encarregados de destruir a verdade pegaram uma pobre mocinha e, aterrada, sem saber o que dizia, afirmou horrores, cobrindo tudo de infâmia e dizendo que davam sangue de pinto para se botar nas hóstias, e outros absurdos.

Tudo que exigiram que dissesse, ela dizia, e outro servindo de secretário escrevia para ser mandado ao Sr. Bispo, e este à Santa Sé, como documentos fidedignos. Pagaram até a pessoas inconscientes, doando 5.000 réis, vestidos e outros manejos indecentes, fazendo-as dizer calúnias contra mim e outras pessoas. Fizeram como se fez com Joana d’Arc: um processo para um resultado condenatório. O Santo Ofício, perante um tal processo, devia condenar como fez, e não podia julgar de outro modo. O processo foi deturpado. O mesmo bispo disse a Mons. Monteiro que tinha arranjado o seu relatório, e na Pastoral declarou que havia juntado outras peças. Tudo fez para destruir o fato do Juazeiro. Peço encerrar com esta afirmação este assunto. Jurei, prometi ao Tribunal do Santo Ofício, não falar mais sobre estas cousas.

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Pessoalmente o senhor acredita no milagre?

PC: Eu sou obrigado a dizer que é verdade porque fui testemunha muitas vezes. Ainda que exceda a pouca fé minha e de outras pessoas, que não sabemos os excessos de amor do Sagrado Coração de Jesus, fazendo esforços para salvar os homens, não posso duvidar, porque vi muitas vezes.

Sendo assim, por que não o sustentou publicamente?

PC: Não quero de forma alguma sustentar nem defender os fatos ocorridos no Juazeiro, quando já declarei e torno a declarar que, uma vez que a Suprema Congregação do Santo Ofício os condenou e reprovou, eu os condeno e reprovo, obedecendo sem restrição nem reserva a sua decisão e decretos, como filho submisso e obediente da Santa Igreja.

Alguns escritores disseram que o propalado milagre não passou de um embuste, e até chegam a insinuar a sua participação.

PC: Perante Deus tenho a minha consciência tranquila. Neste mundo, durante toda a minha vida, quer como homem, quer como sacerdote, nunca, graças a Deus, cometi um ato de desonestidade, seja sob que ponto de vista se possa ou se queira encarar, nem nunca cometi nem alimentei embuste de espécie alguma. Eu ofereço Deus como meu Juiz inteiro em testemunho de minha inocência.

Queriam os seus superiores hierárquicos impedir a visita dos romeiros à sua casa, e isto o senhor não aceitou. Por que?

PC: Não posso fechar as portas de minha casa aos que me vêm visitar. Não recebê-los seria não somente imperdoável descortesia, mas uma ingratidão inominável. São amigos meus que vêm de muito longe, com sacrifícios de toda sorte, render seu preito de veneração a Nossa Senhora das Dores.

O ato de suspensão de suas ordens teve alguma repercussão?

PC: Foi um horror terem-me assim roubado o meu sacerdócio e terem-me assim coberto de tão grande injúria no meio da sociedade e no meio da Igreja, com tais penas e opressões tão grandes contra mim e contra os meus. Foi tão grave aos olhos de todos que uma grande parte do Brasil onde sou muito conhecido, todos ficaram admirados, e outros escandalizados e cheios de indignação por cousa tão inesperada, como se vê dos mesmos jornais de diferentes Estados.

Como o senhor foi tratado em Roma?

PC: Com muita consideração e com a melhor boa vontade fui tratado em Roma. Apresentei-me ao Santo Tribunal do Santo Ofício em várias sessões, julgaram-me inocente, dando-me absolvição se por ventura incorresse em alguma censura, ficando absolvido de todas, e mandaram-me para o meu domicílio – o Juazeiro -, para aqui mesmo celebrar. Requeri ao Santo Padre a faculdade de Oratório Privado, alegando o estado de cegueira e de doença de minha mãe e a Santa Congregação dos Bispos de Trento me concedeu por um Rescripto Apostólico, o qual o Sr. Dom Joaquim não
quis dar o visto e nem o considerou em nada.

E como o Bispo o recebeu, depois que o senhor voltou de Roma, absolvido?

PC: Voltando de Roma na melhor boa fé, o Sr. Bispo quis retirar-me de Juazeiro, e tendo a Santa Sé dado-me positivamente a faculdade de aqui morar e aqui celebrar, ele, entretanto, não fez caso da prescrição da Santa Sé e tratou de continuar a proibição de celebrar no Juazeiro. Podia celebrar em outra parte. Tirou-me a faculdade de Oratório Privado. Eu, não obstante o Secretário da Congregação dos Bispos de Trento me ter dito que, no caso de ele fazer oposição, reclamasse para a Santa Sé, eu, que nunca quis fazer questão, calei-me.

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Sendo assim, de nada adiantou sua viagem a Roma!

PC: De nada, pois, aproveitou-me ter ido a Roma, ter-me submetido a tudo o que o Santo Ofício quis de mim, como sacerdote, nem ter sido absolvido de todas as penas.

O senhor alguma vez desejou ser político?

PC: Nunca desejei ser político; mas em 191l, quando foi elevado o Juazeiro, então povoado, à categoria de Vila, para atender aos insistentes pedidos do então Presidente do Estado, o meu saudoso amigo Comendador Antônio Pinto Nogueira Acioli, e para evitar, ao mesmo tempo, que outro cidadão, na direção política deste povo, por não saber ou não poder manter o equilíbrio de ordem, até esse tempo mantido por mim, comprometesse a boa marcha desta terra, vi-me forçado a colaborar na política.

Falemos agora da Sedição de Juazeiro. Apesar de Dr. Floro Bartolomeu da Costa haver declarado que foi ele o chefe e único responsável pelo famoso movimento sedicioso que culminou com a deposição do governo Franco Rabelo, ainda há quem atribua ao senhor a responsabilidade direta.

PC: Posso afirmar, sem nenhum peso de consciência, que não fiz revolução, nela não tomei parte, nem para ela concorri, nem tive nem tenho a menor parcela de responsabilidade direta ou indiretamente nos fatos ocorridos.

Mas dizem que o senhor chegou a pedir a renúncia do Presidente Franco Rabelo?

PC: Quando, em novembro de 1913, o meu amigo Dr. Floro Bartolomeu da Costa, atual Deputado Federal por esta cidade e diretor político desta terra, de volta do Rio de Janeiro me informou que os chefes do partido decaído haviam resolvido reunir a Assembleia Estadual aqui, por ser impossível a reunião em Fortaleza, em virtude da pressão exercida pelo partido governante, e dar-lhe a direção do movimento reacionário, com a maior lealdade ponderei, em carta reservada ao coronel Franco Rabelo, sobre a vantagem da sua renúncia. E assim procedi porque,
sem nada mais de grave propriamente saber, a não ser da reunião da Assembléia, percebi, pelos precedentes de
violência do então governo, a possibilidade de uma luta.

Quem foi Dr. Floro para o senhor?

PC: Meu grande e inolvidável amigo, cuja morte refuto uma grande perda para o Juazeiro, para o Ceará e mesmo
para a Nação.

Em 1926 o Bispo lhe ofereceu a oportunidade de anular a pena de suspensão de ordens, desde que o senhor deixasse Juazeiro. Por que o senhor não aceitou a oferta?

PC: Seria uma calamidade se eu me visse na contingência de abandonar esta cidade, porque, além do mais, acredito e devo dizer que o povo não se conformaria com uma tal medida, que talvez desse lugar a um movimento de desastrosas consequências.

E o que dizer da seca do Ceará?
PC: Só quem viu 77 entre nós, pode avaliar o que seja o flagelo das secas nos sertões do Norte! É uma aflição os horrores da seca; parece que fica deserto o Ceará. Cada cearense deve ser uma trombeta na imprensa e em toda parte, gritando com toda força, pedindo socorro para o grande naufrágio do Ceará. Pode ser que esses governos, que têm dever de salvar os Estados nas calamidades públicas, despertem este clamor e não queiram passar por assassinos, deixando morrer caprichosamente milhares de vidas que podiam salvar e não querem.

Estamos certos que só a Providência nos dará remédios. O que o senhor aspira da vida?

PC: Aspiro a um cantinho esquecido e desapegado de tudo, cuidando só de salvar-me.

Ao final desta entrevista, quais as suas últimas palavras?

PC: No céu pedirei a Deus por vocês todos.

Daniel Walker, pesquisador e escritor juazeirense

Daniel Walker, pesquisador e escritor juazeirense

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