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TURISMO | Conheça Potengi

Potengi é conhecida como “a cidade que não dorme”, mas não por ser badalada. Longe disso. Quem não deixa a cidade dormir são os ferreiros, que começam de madrugada a martelar, esquentar e afiar as ferramentas que aquecem o pequeno mercado de uma cidade de 10 mil habitantes. A terra dos ferreiros é também a terra onde Zefinha trança renda, onde os caretas brincam reisado sob o comando do Mestre Aldenir, Françuli dá asas aos seus sonhos de criança e Maria Piauí reza sobre as cabeças.

O ANFITRIÃO

Fotos: Augusto Pessoa

Potengi fica 44 km de Santana do Cariri. A estrada atravessa a área fértil do Cariri — o oásis — e entra no sertão de verdade. A vegetação é caatinga arbórea e arbustiva, o biólogo Jefferson Bob nos explica. Ele vai além do olhar científico sobre a cidade e enxerga o que um turista desacompanhado e até outros potengienses não percebem. Como secretário de Cultura de Potengi, ele conseguiu eleger três mestres da cultura, reconhecidos pelo Governo do Estado do Ceará.

Apaixonado por fotografia e por pássaros, ele descobriu que a mania de fotografar passarinho no meio do mato tem nome gringo e é profissão séria: Jefferson hoje é guia birdwatching e recebe turistas de diversos lugares do Brasil, que procuram em Potengi as quase 180 espécies nativas de aves.

No Sítio Pau Preto, encostada a um açude, está a casa onde Jefferson Bob e a mãe, Ivete Guedes, recebem os visitantes. Na varanda, pousando em pés de umbu e algaroba, pode-se ver , em um só relance, pelo menos uma dúzia de passarinhos. Há outros tantos que só podem ser observados quando caminhamos com calma por dentro do mato. Um rápido olhar por Potengi também não absorve tudo o que a cidade tem; por isso chamamos Bob para nos guiar.

OS FERREIROS

Fotos: Augusto Pessoa

Há quem diga que os ferreiros de Potengi não deixam ninguém dormir. Há quem diga que, depois de tantos anos ouvindo o tec tec tec do martelo no ferro, o ouvido ignora a zoada e é possível viver em paz. Mas a verdade é que, ame ou odeie, todo potengiense vai dizer que se orgulha de ser da terra dos ferreiros. A cada mês, saem de Potengi cerca de 500 ferramentas — entre foices, machados, chibancas e roçadeiras — com a insígnia LL marcada em sua base. São as peças da oficina Dois L, em homenagem a Luiz Leite, antigo mestre ferreiro da cidade.

Aos 20 anos, Luiz só encontrou emprego em uma roça em Cajazeiras. Em 1953, quando chegou em Paraíba a notícia de que sua cidade se tornou produtora de ferro para o Brasil inteiro, ele voltou para Potengi e por mais de 50 anos deu continuidade ao trabalho de Antônio Leite, seu tio. Vanderlei, filho de Luiz, está na terceira geração de ferreiros da família Leite, mas fala do ofício sem entusiasmo. Para concorrer com as indústrias, ele precisa diminuir o preço (apesar de seus produtos serem reconhecidamente de melhor qualidade). Além disso, falta segurança nas oficinas; falta dinheiro para investir em uma estrutura adequada; falta trabalho melhor.

Há 15 oficinas ainda em funcionamento em Potengi, as quais abastecem zonas agrícolas do Pará, Tocantins, Maranhão e Goiás. Em uma casa pequena e de um só vão, construída em tijolo ou taipa, com teto baixo e quase sem ventilação, eles acendem o fogo que ajuda a moldar o ferro e batucam alto com marretas. Isto é, os ferreiros estão expostos ao barulho e a altas temperaturas o dia todo. Para driblar a quentura e não trabalhar com o sol a pino, os ferreiros saem de casa ainda na boca da madrugada e ficam nas oficinas até antes de meio-dia. Na manhã em que a CARIRI foi a Potengi, os trabalhadores da Dois L tinham acabado de chegar. Era começo de julho, época de vento gelado na região, e a cidade chegava a marcar 13 graus durante a noite. Acostumados a aguentar o forno, os ferreiros fugiam do frio.

A MULHER RENDEIRA

“Eu faço renda desde muito novinha. Com oito, nove anos eu já ajudava a minha mãe”, dona Zefinha conta. “Já vendi até para a Califórnia, Estados Unidos”, completa. Orgulha-se do dia em que uma pesquisadora americana, que nem falava sua língua, veio comprar sua renda. Reconhecimento em casa também não falta. Por dois anos seguidos, ela foi tema de quadrilhas juninas da cidade, que competiram com música, coreografia e vestimentas inspiradas em sua história — e, claro, aproveitando a deixa do “olê, mulher rendeira”. Filha da rendeira Raimunda, de Assaré, Josefa Pereira se mudou para Potengi em 1959, quando ninguém fazia renda na cidade. Ela continua sendo a única. Só na cidade vizinha, Santana do Cariri, é que as artesãs do Museu da Renda ajudam a dar continuidade ao ofício. O mercado é que não tem ajudado em nada.

Muito apreciada e pouco comprada, a renda é cara porque é difícil de fazer. Dona Zefinha, que ensinou as quatro filhas a rendar, levava mais de dois meses fazendo uma rede — isso porque a varanda, o tecido que cai por fora da rede, ela comprava de outra costureira, para não demorar mais ainda. Zefinha continua aceitando encomenda, mas não produz para procurar comprador. O avançar da idade a impede de ir às feiras e de costurar com frequência. Em 2013, ela entrou se tornou Tesouro Vivo e entrou na lista de mestres da cultura de Potengi. O título, além de engrandecer seu trabalho, melhora a situação financeira da artesã.

Fotos: Augusto Pessoa

O AVIADOR

Fotos: Augusto Pessoa

Françuli tem a voz mais doce que um senhor de 76 anos pode ter. Ele nasceu Francisco Dias de Oliveira. Logo ganhou o apelido pelo qual ficou famoso e, desde que foi reconhecido no edital Tesouros Vivos, do Governo do Estado, é chamado de Mestre Françuli. De uma vara de umburana ele fez seu primeiro aviãozinho. Aí sua imaginação voou e nunca mais pousou. Como acontece às coisas que envelhecem, o sonho de Françuli virou relíquia e foi exposta em museu. O endereço do Invenção do Sertão é Beco de Françuli, vizinho à oficina onde até hoje se usam tiras de zinco para produzir candeeiro, balde, bacia, tubo, forno para fogão a lenha e aquela que é a obra de sua vida: avião de brinquedo.

A Invenção do Sertão é um museu onde Françuli expõe a si mesmo. Sua fixação por aviões e os milhares de brinquedos que ele confeccionou deram ao artista a notoriedade para expor em salões até do Pernambuco e para ver a Central de Artesanato do Ceará (Cearte) revender seus produtos. Perguntado se se sente feliz em ver seu sonho tomar essa proporção, ele responde, mais doce impossível: “Tô satisfeito, graças a Deus. Porque eu já conheci tanta gente que eu não conhecia, rapaz! Já vêi tanta gente aqui. De Brasília mermo já veio uma mulher aqui três vez. Aí eu acho bom porque eu vejo gente de fora”.

O MESTRE

Tudo começou em 1998. O fotógrafo cratense Tiago Santana combinou de encontrar todo mundo em frente à casa do Mestre Antônio Luiz, em um domingo de manhã bem cedo. Tiago fez a mise-en-scène: dois brincantes ficaram na porta, outro na janela, a filha de um deles no batente, uma criança fantasiada de burrinha e posicionada no meio, mais um brincante em primeiro plano e um sanfoneiro — que não tinha muito a ver, mas que queria ganhar 10 reais — dedilhando umas notas na ponta esquerda. Click. A fotografia foi um estouro. Até hoje, uma cópia chega a custar 4.410 reais. E o Reisado de Caretas de Potengi passou a existir para além do Sítio Sassaré.

Talvez seja correto dizer que tudo começou mesmo na década de 1930, quando bisavô de Mestre Antônio puxava a brincadeira em volta da lagoa Sassaré a cada Dia de Reis. Depois dele, Mestre Maximiliano assumiu o comando, passado para os mestres Chagas e Muliquim. Em 1975, Antônio herdou o posto do Mestre Muliquim. O reisado de Potengi tem uma magia própria, com suas vestimentas e personagens. Em vez do tema medieval visto na maioria dos reisados, o de Sassaré conta com o Velho Bacurau e a Velha Quitéra, acompanhados pelos caretas, um boi, uma burrinha, um urubu, um jegue, um carneiro, um cavalo e uma ema.

Sem escolaridade alguma, ele se orgulha de dois certificados na parede. Um é o Título de Notório Saber em Cultura Popular, oferecido pela Universidade Estadual do Ceará. O outro é o de Tesouro Vivo da Cultura. “Foi o presente melhor que eu já recebi em minha vida, até hoje”, o Mestre comenta, soltando um sorriso tímido. Do outro lado da sala, o calendário ainda é o de agosto de 2000. Nenhum apego à data, mas à imagem da página: é a foto de Tiago Santana.

Fotos: Augusto Pessoa

A REZADEIRA

Fotos: Augusto Pessoa

“Eu converso com as almas”, Dona Maria Piauí fala com naturalidade para explicar de onde vêm as revelações que recebe. Na sala onde ela reza, Iemanjá e Nossa Senhora Aparecida se destacam. Há dezenas de outras divindades, mas ela diz não ter favorita e que não é devota de nenhuma. Fora uma fotopintura de um homem que ela não sabe quem é, as paredes são cobertas de imagens de santos católicos e de religiões africanas, fotografias de Papas, de padres famosos, padres cantores, padres bonitos, representações do Espírito Santo e de Jesus Cristo, fotografias 3×4 e lembrancinhas de missa de sétimo dia.

Em 10 minutos de oração sobre a cabeça de quem chega precisando de reza, as folhas de aroeira vão murchando — porque aroeira absorve energia ruim ou porque folhas secam mesmo, vai depender da fé —, enquanto ela espanta mau-olhado, pede livramento, repreende o mal, espanta os inimigos e abre caminhos. Sua casa fica na entrada da cidade por onde passamos na manhã em que chegamos a Potengi, mas a sala já estava lotada. Tentamos novamente na saída, quando não havia mais ninguém. 38 pessoas passaram por lá só naquela manhã. Em dias tranquilos, pelo menos 20 batem à sua porta.

Soledad, avó de Maria, percebeu que a neta tinha o dom e a forçava a rezar. Ela negou o ofício o quanto pôde, mas aos 15 anos se rendeu. Desde então, é só isso que ela tem feito, sobrevivendo da caridade de quem acha que ela merece receber uma oferta pela reza. E são muitos os que acham. Maria já viu dois caminhões inteiros estacionarem eu seu terreiro, trazendo gente necessitada de oração. “Semana passada mesmo chegou aqui um carro com quatro pessoas do São Paulo, que veio atrás de mim”, ela conta, com mais cansaço do que vaidade.

O nome Piauí está atrelado ao seu pelo simples fato de que seu pai se mudou do Piauí para Nova Olinda quando era criança. Maria nunca pisou lá. Perguntada de que cidade o pai era, ela responde com uma preguiça genuína: “Nunca perguntei, nunca tive interesse em saber”. Ela foge para não responder quantos anos tem, mas se deixar vencer pelo cansaço e diz um número para agradar: “Fiz 60 em janeiro”. Maria é só mistério. Ela já avisou a um homem jurado de morte que seu assassino o esperava em tal lugar. Como sabia? “Me disseram.”

Maria parece saber o que existe depois da morte, mas só alerta que “a vida é para sempre, só morre a carne”. Ela olha para o nosso carro e diz que está tudo bem, que a viagem de volta vai ser tranquila. Como sabe? “Se fosse acontecer alguma coisa ruim, eles me diriam.” Tranquila e infalível. Ao se despedir, falou: “Quando estiver precisando de uma reza, peça ao Espírito Santo: diga a Dona Maria que se lembre de mim”.

MONÓLOGO SOBRE ALEGRAR UMA CRIANÇA E SOBRE COMO UMA VARA DE UMBURANA FAZ HISTÓRIA*

Quando eu era bem pequeninim e trabalhava mais meu pai na roça, eu dizia: “Ô, pai, eu vou fazer uma história preu deixar em Potengi”. Aí ele dizia “Cuma você vai fazer essa história? Porque é muito difícil”. Aí eu dizia: “Mas não é impossível. Eu vou fazer uma história preu deixar lá”. Aí fui trabaiano, trabaiano, trabaiano, até que fui me aperfeiçoando. Eu comecei a fazer brinquedo, eu tinha seis anos de idade. Os menino que morava perto ia lá pra casa, brincava, quebrava, eu fazia ôto. Usava uma faca véa e madeira de umburana, porque era bem molinha de trabalhar. Depois foi que apareceu aquelas lata de óleo. Mãe secava, jogava no mato, eu vinha da roça e via: “Ah, aqui dá pra fazer um avião, mas não tem com o que eu cortar”. Aí eu cortei com uma faca véa, abri a lata todinha, risquei e cortei com uma tesoura de mãe cortar fazenda. Mas quando ela viu, Ave Maria! Eu cortava, aí amolava e botava lá de volta, mas ela ainda não tinha dado fé. Aí quando foi um dia, ela viu eu cortando. “Menino, eu vou te dar uma surra! Tu tá acabando com minha tesoura!”. “Ô, mãe! Eu deixo do mermo jeitim que ela tava.” “Deixa nada.” “Se eu num deixar, você pode me surrar.” Aí amolei e entreguei a ela. “E aí, mãe?”. “Tá cortando melhor do que antes” [ri bastante]. Passei um bocado de tempo me sustentando só disso aqui.

Eu, na roça, vi um avião voando. Quando o avião passou, eu disse: “Pai, o que é aquilo, que não bate asa nem nada?”. Ele: “Nam, é um avião!”. Aí eu imaginei logo: daquele avião, eu vou fazer a minha história. Na merma hora! Na mer-ma hora! Eu tava sentado em um péda e na merma hora me veio esse sentido: “Desse avião eu vou fazer a minha história”. Aí já vim pra casa com esse pensamento. Já trouxe um pedaço de umburana desse tamain [alarga os dedos mostrando um espaço de mais ou menos 30 cm]. Cheguei em casa, mas não deu tempo criar, porque nós só fizemo almoçar e voltar. Mas no domingo eu passei o dia todim fazendo um aviãozim de pau bem feitim. Mas quebrava ligeiro. Os menino brincando, quebrava. [Pergunto como ele conseguiu fazer um avião de brinquedo se mal tinha visto um.] É porque eu ia pensando em minha cabeça. Eu aprendi por mim mermo.

A primeira vez que eu viajei de avião foi pra Amapá. Saiu de Juazeiro às 10 horas, quando foi 5 horas eu desci em Belém e peguei outro pra Amapá. Foi doutor Saloé que pagou. Vivia ligando pra mim: “Meu fí, venha aqui!”. “Não, eu num posso não, doutor!”. “Domingo você ligue pra mim, que eu tenho uma novidade pra lhe dizer”. Aí quando foi domingo eu liguei, aí ele: “Ó, sua passagem tá comprada no Juazeiro pra ir e voltar. Agora diga que não vem”. Aí quando cheguei lá tava a passagem. Passei lá [no Amapá] oito dias. Aí achei bom, rapaz! Quando entrei no avião, me deu uma sensação tão grande. “Agora, se Deus quiser, eu realizo meu sonho”. Ainda fui pra Fortaleza, outra vez pra São Paulo e outra pro Rio.

[Pergunto se nunca quis ser piloto de avião.] Não. Meu negócio é só admirar. Eu pensava assim: “Os cantor num alegra um bocado de gente? Aí eu vou fazer uma coisinha aqui pra alegrar as criança”. Aí quando as criança chega aqui, voltando do colégio, espatifa esses avião tudim, aí eu vou lá e ajunto. Ajeito com o maior prazer. [Quantos filhos tem?] Eu só tem quatro. [E quantos netos? Ao que ele responde, baixando a voz e a cabeça, trocando o tom até então alegre por uma expressão triste.] Neto… Só tem um.

*Inspirado no formato de transcrição de entrevistas criado pela jornalista russa Svetlana Aleksiévitx, autora de Vozes de Tchérnobil.

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