Perfil, Revista 2

Como falar de uma flor

Violeta foi irmã de Miguel Arraes, grande nome da política brasileira. Foi “embaixadora” dos exilados em Paris durante a ditadura militar, Secretária de Cultura do Estado e reitora da URCA. Porém, ela foi muito mais que isso. Para traçar um perfil de Violeta Arraes, buscamos sua essência: ela foi ”senhora dos encontros”, ativista da cultura, madrinha dos artistas e caririense em tempo integral.

Há fragmentos de Violeta por aí. Quando suas cinzas foram jogadas da serra do Crato e voaram pela Chapada do Araripe, dançando com o vento frio de junho e descansando sobre a imensidão verde, foi como se uma poesia fosse recitada em voz alta, como se uma profecia se concretizasse, como se uma metáfora saísse da subjetividade e ganhasse forma para todo o mundo ver. Há fragmentos reais: em livros sobre a história do Brasil, documentos oficiais, títulos e honrarias; aparições em biografias, em patrimônios batizados com seu nome e em históricos de cargos públicos que ela ocupou.

Porém, há outros fragmentos difíceis de traduzir em palavras. Guel Arraes, Alemberg Quindins e Espedito Seleiro tomavam um café em meio a uma turma quando o assunto veio à mesa e um deles perguntou: “Como a gente explica a eles quem foi Violeta?”. Conversa vai, conversa vem, nenhum dos três conseguiu dar uma fórmula. Difícil passar a energia, o calor, o sentimento para quem não conviveu com ela. Impossível fazê-lo em um rápido bate-papo.

Naquele dia, Guel, sobrinho de Violeta, apresentava em Nova Olinda O Auto da Compadecida, filme que começou a gravar na companhia da tia. Alemberg, criador da Fundação Casa Grande, viu seu projeto ganhar reconhecimento nacional e internacional graças à ajuda dela. Espedito, mestre seleiro hoje famosíssimo, deixou de ser um simples artesão do couro e entrou na lista VIP do design quando ela lhe deu uma mãozinha. Movidos pela existência de Violeta Arraes – e reunidos pelo seu poder de juntar pessoas –, eles se preparavam para dar início ao assunto, com plateia, mas nenhum dos três conseguia defini-la.

Na noite da missa de corpo presente de Violeta, Caetano Veloso fez show no Rio de Janeiro e cantou Cajuína em homenagem à amiga. “Pelo menos pela ‘lágrima nordestina’, nós todos aqui cantamos essa canção hoje em homenagem à memória de Violeta Arraes Gervaiseau”, ele explicou à plateia. “Eu a cantaria sozinho em homenagem à memória dela, mas acho que o Brasil inteiro pode e deve fazer a mesma coisa. Não é preciso que cada um saiba [quem foi ela], mas podem confiar em mim. Eu sei”.

A ROSA PEQUENINA

Violeta foi para não voltar. “No fundo, no fundo, eu sabia que se voltasse para casa, eu ficaria por lá, definitivamente. Não viajaria nunca mais”, ela relembrou 45 anos depois. Era 1940, Violeta Arraes tinha 14 anos e chegava no Rio de Janeiro, deixando para trás o Crato, com os cinemas e as livrarias que ela tanto amava. Deixava a casa na rua Dr. João Pessoa, onde morava com as cinco irmãs, os pais José Almino e Maria Benigna, o conforto, a comodidade e o destino predeterminado: ser professora normalista, casar, ter filhos. Deixava ela mesma para trás. Aquela Violeta nunca mais voltou. Almina Arraes aos 92 anos lembra-se de detalhes da trajetória de Miguel e Violeta, o irmão mais velho e a caçula, dois sonhadores que, em pensamento e comportamento, destoavam do restante dos Arraes. Almina lembra-se da irmã como uma jovem “alegre e comedida nas coisas”.

No Sacré-Coeur de Marie, “colégio superelitista”, nas palavras da própria Violeta, ela era vigiada na hora do banho, nas conversas com as colegas e até enquanto dormia. Não demorou muito para perceber que não aguentaria permanecer ali por muito tempo. Por meio de uma prima, conheceu o padre Hélder Câmara, encarregado do ensino católico no Rio, que facilitou sua transferência para o Colégio Santo Amaro. “Ele [Hélder] foi muito importante na minha vida. Eu diria que fundamental para a minha formação, em todos os sentidos”, declarou.

Padre Hélder Pessoa Câmara (1909-1999), cearense de Fortaleza, viria a ser nomeado bispo auxiliar do Rio de Janeiro em 1952. Por intermédio dele, ela aprendeu que havia diferença entre ser devota e ser cristã. “Devoção é fácil, é afetividade”, Violeta lembrava. “Com Dom Hélder a gente estudava, debatia, comparava as coisas. Isso nos deu um alimento intelectual realmente significativo. Era muito mais pensamento do que sentimentalismo.”

As falas aqui reproduzidas foram transcritas por Tonico Mercador na extinta revista A Palavra, na edição de outubro de 1999. Dom Hélder havia falecido em agosto, e Violeta acabara de assumir o cargo de reitora da Universidade Regional do Cariri, onde permaneceria por mais cinco anos, até voltar a morar no Rio de Janeiro para tratar de um câncer. Na conversa com Tonico, como em qualquer outra conversa sobre sua vida, ela não falou apenas de si, mas de História do Brasil. E é aí que está a particularidade da memória de Violeta Arraes. Não se trata de falar apenas da mulher, mas da mulher no seu tempo.

Em outra entrevista, em 2006, desta vez à Revista Key, publicação de moda que veiculou até 2008, ela foi questionada sobre uma possível biografia que José Serra, então governador de São Paulo, estaria organizando sobre a sua vida. “Eu tenho falado que não quero que seja sobre mim. Penso que minha vida tem um sentido como um exemplo de alguém da geração do pós-guerra, que foi justamente a geração que surgiu para viver utopias no mundo inteiro”, ela explicou. “Só faz sentido contar minha história tendo como referência esse grupo maior, a minha geração: com os seus sonhos, projetos, dificuldades e lutas”, Violeta declarou em outra ocasião.

É importante seguir o conselho dela e explicar o contexto: em 1945, ano do fim da Segunda Guerra Mundial, Dom Hélder, seu conselheiro e amigo, a convidou para entrar na Juventude Estudantil Católica, braço da Ação Católica, um projeto importado da Igreja em Roma. Com o Vaticano apoiando o regime de Mussolini, a Ação Católica chegou ao Brasil com ideais anticomunistas e se propunha a “dilatar e consolidar o reino de Jesus Cristo”.

Porém, sob a direção de Dom Hélder, a Ação no Brasil migrou para o lado oposto: tornou-se um espaço de conscientização política e ideológica dos jovens católicos. “Penso que duas instituições formaram um sem-número de pessoas. Uma foi a Ação Católica, outra foi o Partido Comunista. Essas duas instituições deram à mocidade uma consciência física, um conteúdo de fé e de formação intelectual”, ela disse. Depois de passar pela Juventude Estudantil Católica, ela cursou Sociologia na Pontifícia Universidade Católica (PUC) – com uma bolsa de estudos que conseguiu graças aos apelos de seu mestre na universidade – e passou a fazer parte da direção nacional da Juventude Universitária Católica, ao lado de Cândido Mendes e Célio Borja.

Violeta conheceu Dom Hélder Câmara quando era adolescente: “Com Dom Hélder a gente estudava, debatia, comparava as coisas. Isso nos deu um alimento intelectual realmente significativo”, ela relembrava.

A QUE SERÁ QUE SE DESTINA?

Em 1950, Violeta viajou à Europa pela primeira vez e participou do encontro mundial da JUC na Alemanha. Enquanto estava lá, Dom Hélder a ajudou a chegar mais longe: desta vez, conseguiu para ela um estágio ao lado de um pensador que há muito tempo Violeta admirava, apenas como leitora: Louis-Joseph Lebret (1897-1966). Conhecido como padre Lebret, o religioso e economista francês foi um dos primeiros a aproximar o pensamento cristão do conceito de economia e humanismo. Violeta passou um ano trabalhando ao lado do padre em Lyon e acompanhando-o em viagens pela Suíça e Bélgica. Foi na Économie et Humanisme, associação fundada por Lebret, que ela conheceu Pierre Gervaiseau, com quem se casaria no ano seguinte.

Pierre e Violeta tiveram três filhos. Maria Benigna e Henri moram em São Paulo e João Paulo, em Paris. Só Pierre, hoje com 92 anos, permaneceu no Crato, cuidando de um outro filho que ele e Violeta geraram: a Fundação Araripe. Pergunto como era a sua esposa, e ele responde com o carregado sotaque francês e uma risada que surge instantaneamente: “Era uma pessoa marravilhosa! Tanto é que casei com ela. Lógico. Fiquei encantado”. Pierre conta que sua esposa “tinha muito respeito pelas diferenças, era uma pessoa muito aberta, muito católica, que respirava a alegria de viver”.

Violeta e Pierre

Em 1953, Pierre foi convidado a integrar a equipe da Fundação de Assistência ao Trabalhador Rural, no Paraná. Dois anos depois, quando o novo governador do Estado acabou com o projeto, o casal retornou à França. “Voltamos para morar definitivamente na França, só que eu iria descobrir, tempos depois, que ‘definitivamente’ é algo que jamais existiria em minha vida”, ela falou. Não demorou muito para Violeta atravessar o oceano mais uma vez: em 1959, Miguel Arraes (1916-2005) se preparava para concorrer à Prefeitura de Recife e queria a irmã ao seu lado.

Miguel venceu com a responsabilidade de desenvolver a educação e a cultura recifenses. A principal promessa de campanha foi construir pelo menos uma escola em cada bairro da cidade – projeto capitaneado por um pensador que mais tarde se tornaria o grande expoente da educação brasileira: Paulo Freire. Também foi criado o Movimento Popular de Cultura, onde Violeta teve forte atuação. O MPC foi inspirado no movimento francês Peuple et Culture, onde Violeta e Pierre estiveram envolvidos. “Convidamos vários intelectuais a participarem de nossos encontros, divulgando e valorizando nossa cultura”, ela contou. Quando encerrou sua colaboração na Prefeitura de Recife, ela voltou a Paris, mas foi “num pé e noutro”. Em 1962, Miguel se candidatava a governador e precisava dela, mais uma vez.

Assim como aconteceu com o Brasil, a partir daquele ano, a vida de Violeta se agitou com força. Miguel venceu por uma diferença de 15 mil votos, com o apoio de ligas camponesas e organizações de classes trabalhadoras. Inevitavelmente, passou a ser considerado um “comunista perigoso”. Documentos do exército, que vieram a público por meio do portal Brasil: Nunca Mais, mostram que os militares estavam de olho em Violeta: ela era apontada como a “mentora intelectual do irmão”.

No dia 31 de março de 1964, a mão da ditadura esmagou de vez a democracia. Duas semanas depois, no Palácio do Governo, em Recife, Violeta estava ao lado do irmão quando os militares chegaram. Miguel se recusou a renunciar e foi preso em quartéis generais antes de ser levado à base militar de Fernando de Noronha. Violeta, por sua vez, foi escoltada até em casa. Com a ajuda do amigo Dom Hélder, naquela época arcebispo de Olinda e Recife, que falou pessoalmente com o presidente Castelo Branco, ela e Pierre escaparam da cadeia e receberam ordem de prisão domiciliar. Em maio, ela foi chamada a comparecer à delegacia, onde foi informada de que a família tinha 48 horas para deixar o país.

No dia do golpe militar, Miguel foi surpreendido. Violeta observa ao fundo.

A CASA MAIS CEARENSE DE TODAS

Violeta, Pierre, Maria Benigna, João Paulo e Henri voltaram à França, dessa vez a contragosto. Para Pierre, foi mais que um exílio: “fomos expulsos do Brasil”. “Mas foi uma bênção, porque da França pudemos informar a imprensa sobre o que estava acontecendo no Brasil. Houve uma mobilização dos meios governamentais do mundo ocidental para que Miguel fosse libertado.” Demorou mais de um ano para que Miguel Arraes fosse solto e pudesse se exilar com a família na Argélia. Com a irmã em Paris, o ex-governador continuou a enfrentar a ditadura militar.

“Ela e Miguel organizaram uma rede de resistência muito importante fora do Brasil, que foi responsável por levar grande parte do que estava acontecendo aqui para conhecimento fora do país”, explica Sonia Menezes, professora da Universidade Regional do Cariri e grande conhecedora da trajetória de Violeta. “Conheci Violeta no dia em que tomei posse na URCA, mas eu ainda não tinha compreensão de quem ela era”, a historiadora recorda. Sonia dedicou sua dissertação de mestrado e sua tese de doutorado a estudar a ditadura militar – e foi aí que ela se deparou com o passado da reitora. “Em A Ditadura Escancarada, Elio Gaspari apresenta Violeta como uma das pessoas mais fortes na luta contra a ditadura, de papel fundamental na recepção dos exilados e na resistência lá fora.”

Fernando Henrique Cardoso e Violeta no sofá da “casa mais cearense de todas”.

“Brincavam dizendo que a nossa casa era a embaixada dos exilados”, Maria Benigna ri. A filha de Violeta viu a sala do apartamento na Villa Flore ganhar movimento a cada nova chegada de exilados na Europa, que aconteceram em “levas”: em 1964, 1968, 1970 e em 1973, quando o casal recebeu também os chilenos que fugiam de Augusto Pinochet. Violeta e Pierre davam apoio a quem fugia da ditadura e chegava a Paris sem lenço e sem documento. Jorge Mautner, Zé Celso Martinez e dezenas de outros militantes, artistas e intelectuais encontraram abrigo na casa. Em entrevistas recentes, os dois recordaram a generosidade do casal e declararam nutrir até hoje profunda gratidão pelo acolhimento nos anos de chumbo.

Os exilados traziam notícias que moviam a Frente Brasileira de Informação. “Era uma rede – clandestina, obviamente – que reunia informações que eles divulgavam em boletins e distribuíam entre jornalistas, estudantes e políticos de outros países”, a professora Sonia explica. Além de resistência política, também aconteciam encontros na sala da casa de Violeta. Naquele sofá, sentaram Glauber Rocha, Sebastião Salgado, Celso Furtado, Geraldo Vandré, Caetano Veloso e por aí vai. Tinha café, uma rede convidando a balançar, boa prosa, altas gaitadas. Vendo tudo isso, Tasso Jereissati declarou: “nem no Ceará eu vi uma casa tão cearense”. Violeta amou.

Contei a Maria Benigna de um encontro que tive com Juca Ferreira, ministro da Cultura no governo Dilma, que me falou que conheceu muita gente por meio de Violeta, entre elas pessoas de suma importância para sua carreira política, como Ruth Cardoso e Gilberto Gil, com quem ele veio a trabalhar no período em que o músico foi ministro de Lula. “Eu penso em Violeta como uma ponte. Ela sempre estava apresentando alguém a alguém”, eu lhe disse. “É, ela era especialista nisso aí”, Benigna me respondeu, orgulhosa da mãe. “Em tudo o que ela achava que dava um bom samba, ela botava as pessoas. E acontecia às vezes da forma mais inesperada.” Maria Bethânia traz a recordação daquela casa frequentemente em suas entrevistas. Ainda esse ano, comentando a atual situação política do Brasil, ela mencionou ter conhecido Fernando Henrique Cardoso “na casa de Violeta Arraes, minha grande amiga, em Paris”.

“Mestra da minha vida”, Maria Bethânia dedicou a Violeta o espetáculo ‘Bethânia e as Palavras’, de 2015

“Gilberto Gil é a pessoa mais espiritualizada que eu já conheci”, Violeta costumava declarar. Na foto, os amigos durante viagem na Espanha, no exílio

“Violeta segue nos ensinando, com conversas, com gestos, com roupas que escolhe para vestir, como se faz para dignificar o ser cariri, o ser nordestino, o ser brasileiro, o ser humano”, Caetano escreveu em 2002

SENHORA DOS ENCONTROS

Violeta só voltou ao Brasil após a Anistia, em 1979. Quando Tasso Jereissati foi eleito governador do Ceará, em uma gestão que prometia acabar com o legado de coronéis e generais no Estado, ela foi convidada a assumir a Secretaria de Cultura. “Foi uma posse muito festejada”, José Anderson Sandes recorda da noite em 1989. Anderson era editor do caderno de cultura do Diário do Nordeste no período em que Violeta foi Secretária. “Ela disse para mim, em uma entrevista: ‘Tasso me deu um cheque em branco’. E era verdade. Ela vinha para mudar a estrutura da cultura no Ceará. Então desmontou vários projetos anteriores, criou várias arestas, várias brigas com pessoas importantes da cena cultural. Ela quis fazer e refazer. E ela tinha alguma razão, porque a forma de se fazer cultura no Ceará ainda guardava resquícios da ditadura”, o jornalista conta.

As brigas que Anderson menciona são lembradas por Rosemberg Cariry como um “ranço provinciano” com que “alguns expoentes da área cultural no Ceará a receberam”. “O Ceará entraria na rota de grandes acontecimentos culturais e sediaria eventos importantes, com a presença de artistas e intelectuais europeus. Estabeleceu-se um rico e diversificado debate”, o cineasta conta. O meio artístico fortalezense não gostou de ver a Secretária chegar arrastando tanta gente de fora. Foi por meio dela que o Theatre du Soleil pisou pela primeira vez no Estado e aqui se estabeleceu durante meses, para se apresentar e dar cursos para atores em Fortaleza. De novo, Violeta promovendo encontros.

Rosemberg Cariry (em pé), Sylvie Debs, Pierre Gervaiseau na casa em Paris, em 1997

Com o irmão, Miguel, na noite da posse na Secretaria de Cultura.

Para criar o Complexo Industrial de Produções Cinematográficas e Audiovisuais do Nordeste, ela convidou nomes de peso da época. A empreitada resultou na vinda do festival carioca de cinema, o Fest Rio, para Fortaleza, com presenças nacionais e internacionais. “Sou de opinião de que, de todos, esse foi talvez o projeto mais ousado e mesmo visionário da Violeta Arraes, numa antecipação do que viria a se tornar a consolidação do audiovisual brasileiro, na primeira década do século 21”, Rosemberg afirma. Anderson acompanhou de perto a gestão de Violeta à frente da Cultura. “Eu fui, sou e sempre serei criticada”, Violeta lhe falou. “A posição que tomei foi, sobretudo, fortificar as instituições culturais – para mim, a melhor maneira de servir à cultura”.

Ela encerrou sua gestão com aquele que é talvez o principal de seus projetos na Secretaria, pelo qual ela é lembrada até hoje: a reforma do Theatro José de Alencar. Mas até nisso ela apanhou. “Afirmavam que eu ia fechar o teatro por razões políticas e não pelo risco real de desabamento do teto”, ela contou a Anderson. O editor esteve várias vezes com a Secretária durante a reforma. “Ela virou mestre de obras”, ele fala. “A reinauguração aconteceu com a exibição da ópera italiana Don Giovanni, de Wolfgang Amadeus Mozart, dirigida por Bia Lessa. Uma festa de arte europeia, mas que, ao mesmo tempo, abriu espaço para o Boi Ceará do Mestre Zé Pio, o maracatu de Fortaleza, os grupos de macumba e de coco, a família de sanfoneiros que fazia ponto na praça e o canto afiado de Pedro Boca Rica”, Rosemberg recorda.

Reforma do Theatro José de Alencar

Reinauguração do Theatro José de Alencar

Ao fim de sua gestão, em 1991, ela se preparava para entregar a cadeira – sem reeleição na época, Tasso encerrava seu governo. Por três noites seguidas, Anderson pôde entrevistá-la em seu quarto no Hotel Esplanada, onde a Secretária morou durante os três anos de mandato. O repórter encontrou um livro de Drummond na cabeceira, outro de Proust na mesa, muito artesanato caririense decorando o quarto. Os dois conversaram sobre tudo, da infância no Crato à rede no apartamento em Paris. “Para mim, cultura é o chão que pisamos”, ela lhe disse.

“Violeta não veio para agradar. Nem a gregos, nem a troianos. Enfrentou crises. Choques culturais e políticos na sua trajetória. Não só como Secretária do Estado do Ceará. Mas na sua trajetória de vida”, Anderson escreveu no dia da morte de Violeta. Ele se referia a quando Tasso Jereissati a chamou de volta ao Brasil, em seu terceiro mandato, que se iniciou em 1999. Dessa vez, o governador queria a amiga como reitora da Universidade Regional do Cariri.

O apelido que lhe deram, maldosamente, era Zazá, em referência à personagem da novela, que também usava echarpe e queria voar. Violeta era a sonhadora de echarpe caído sobre os ombros, que queria ver a URCA decolar. Quem se incomodava com a presença de estranhos, separavam “os daqui e os de fora”. “Os de fora” eram: Pina Bausch, que deu uma palestra histórica na Universidade; Gilberto Gil, que, um belo dia, surpreendeu os alunos entrando em uma sala e se sentando para assistir aula; Maria Elisa Costa – filha de Lúcio Costa, que desenhou o Plano Piloto de Brasília –, arquiteta responsável pela reforma do campus Pimenta. De novo, os encontros.

No dia da posse como reitora da Urca

O projeto de Violeta para a URCA era grandioso. Além de formar profissionais, a reitora pensava no futuro da reserva de água e da floresta na Chapada. Ao lado de Pierre, ela construiu a base do projeto que veio a criar a Floresta Nacional do Araripe, de onde nasceu a Fundação Araripe, em atividade até hoje. Vendo a riqueza de fósseis de Santana do Cariri sendo escoada pelo contrabando, ela correu para erguer o Museu de Paleontologia – e a cidade hoje recebe pesquisadores de todos os lugares do mundo. Se tivesse mais tempo, ela teria feito ali o “Jurassic Park do Ceará”.

Violeta dedicou seu período de volta ao Crato para impulsionar a cultura caririense. As histórias são muitas. Lurdes Batista pode contar a influência de Violeta na divulgação do trabalho dos artesãos e das artesãs de Juazeiro do Norte. Os xilogravuristas e escultores do Centro Cultural Mestre Noza vão falar o quão importante ela foi em anunciar suas obras, hoje comercializadas por diversos países. Tatiana Vanderlei lembrará do incentivo em sua carreira internacional como cantora lírica. Padre Ágio vai se emocionar ao lembrar o apoio dela na concretização do sonho de construir uma escola de música no Belmonte, no Crato. Espedito Seleiro vai dizer que os primeiros designers a admirar seu talento chegaram a seu atelier trazidos por ela.

Rosemberg conta: “O poeta Patativa do Assaré recebeu de Violeta Arraes todo o apoio na divulgação da sua obra e o seu aniversário foi transformado em acontecimento anual, de grande importância cultural. Ao mesmo tempo, reconhecia e ajudava a talentos como Paulo Abel, em sua carreira internacional como cantor lírico, e valorizava nomes de intelectuais como Oswald Barroso, a quem ajudou a fazer cursos de especialização em Paris”. O cineasta fala que Violeta teve grande importância em sua carreira, incentivando sua produção e montando uma rede de relações para ele na Europa.

Salete Maria, professora e cordelista, amiga íntima de Violeta, lembra: “Incontáveis vezes eu a acompanhei ao Mestre Noza. Uma memória boa que tenho é da presença de Violeta no evento de lançamento da Sociedade dos Cordelistas Mauditos. Ela estava na primeira fila, vibrando. Após o lançamento dos cordéis, fez questão de cumprimentar e tirar foto com o grupo de cordelistas caririenses que subverteram a literatura de cordel”.

Com Tasso Jereissati, em Paris

A LÁGRIMA NORDESTINA

Pina Bausch chorou vendo os Irmãos Aniceto se apresentarem. Como a mais renomada coreógrafa do século XX veio bater no Crato, esteve em contato com o grupo de tradição e voltou à Alemanha pensando em colocar aquela dança no seu espetáculo Água, inspirado no que ela viu no Cariri? Graças à Violeta, claro. Quando se atravessa a lateral do campus Pimenta da URCA, observa-se a parede coberta de azulejos de Athos Bulcão. Como aquela quantidade de obra original do grande pintor que participou da construção de Brasília embeleza uma universidade do interior? Violeta. Sempre ela.

Alemberg Quindins a conheceu quando ela era Secretária de Cultura do Ceará e ele trabalhava na Secretaria de Cultura do Crato. Ele foi a Fortaleza e a procurou pedindo o apoio do Estado para o festival Chapada Musical. Violeta analisou o cartaz do evento e disparou uma crítica: “Esse desenho aqui não tem nada a ver com o Cariri”. “Ela não apoiou o festival e eu voltei puto”, ele ri. A conexão entre os dois foi maior do que o incentivo à cultura e dali nasceu uma amizade forte.

Pina Bausch durante visita ao Cariri

Maria Elisa Costa, amiga e arquiteta responsável pela reforma da Urca e do teatro batizado com seu nome

Com Miguel Arraes

Alemberg e sua esposa, Rosiane Limaverde (1964- 2017), criaram a Fundação Casa Grande em 1992, quando a amiga já havia voltado à França. Em 1995, Ruth Cardoso (1930-2008), que tinha Violeta como uma de suas melhores amigas, passava por Nova Olinda em uma ação da Universidade Solidária, projeto criado pela então primeira-dama. Ruth tentou atender ao pedido de passar pela Casa Grande, mas não teve tempo. Violeta prometeu continuar se esforçando para ajudar o projeto de Alemberg e Rosiane.

Não foi preciso muito esforço. Enquanto esteve no Crato, durante o período à frente da URCA, Violeta se dedicou a atrair pessoas à Fundação Casa Grande. Regina Casé foi uma das primeiras celebridades a visitar a casa em Nova Olinda e a torná-la conhecida em todo o país. Outros artistas e diversos políticos passaram por lá por meio de seus convites. “Em todo evento que tem na Casa Grande, eu me arrepio todo. Enche de água os olhos. Sinto ela, muito forte”, Alemberg desabafa.

Sempre um filme sintetiza os momentos da vida de Alemberg. Um exemplo de como era sua amizade com Violeta é O Carteiro e o Poeta. “Veja esse filme e você vai saber como a gente era. Eu ia à casa dela pra beber ensinamento. Lá nós tivemos noites de conversas memoráveis”, recorda. A casa no Crato virou uma reprodução do apartamento em Paris. Cordelistas, repentistas, artesãos e artistas caririenses se juntavam para conversar naquela varanda.

Violeta foi diagnosticada com câncer de pulmão em setembro de 2004 e veio a falecer em 17 de junho de 2008, no Rio de Janeiro. José Almino, filho mais velho de Miguel Arraes, foi o primeiro para quem ela deu a notícia do resultado dos exames. O sobrinho esteve presente durante todo o período de tratamento e acompanhou a tia até a morte. A amizade dos dois foi marcada por companheirismo. A primeira memória que ele tem dela é de uma viagem que fizeram de Recife ao Crato com Maria Benigna, a avó, quando Almino ainda era criança.

“Era uma viagem longa na época, então nós paramos em uma pousada à noite para dormir e Tia Violeta me ensinou a rezar.” “Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador…”, ele aprendeu a recitar naquele dia. Na última vez que se viram, Violeta já fraca, Almino juntou as mãos e repetiu para a tia: “Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador…”. Sem conseguir dizer palavra, Violeta falou pelo olhar que se lembrava de onde vinha aquela oração.

Os dois não se desgrudaram nunca mais. Já durante a adolescência, quando Violeta morava na casa de Miguel, em Recife, foi por meio dela que Almino descobriu o mundo. “A Tia me levava com ela toda vez que saía de casa. Ela me levou para vários lugares em Recife e isso teve papel importante em meu crescimento porque ela saía dizendo: ‘Isso é injusto, isso é justo. Isso tem caráter, isso não tem caráter’. E aquilo me influenciava porque eu me identificava com o pensamento dela”. Miguel Arraes contava que José Almino, o pai, fazia o mesmo com ela. Sempre que saía de casa, levava a caçula pela mão para passear no centro do Crato.

Almino, o sobrinho, acompanhou a família no exílio no final de 1965. Ele morou em Paris, onde fez faculdade e pôde continuar perto da tia. “Ali eu percebi duas características básicas de Tia Violeta, que são raras: a capacidade de escutar e a de olhar. Ela era extremamente observadora, do tipo que atraía pessoas. Há poucos psicanalistas e padres confessores que tenham atraído tantas pessoas quanto ela”, ele brinca. Almino repete uma constatação feita pelo pai: entre Violeta e Miguel, ela tinha mais jeito para carreira política do que ele. “Se você vê a política como atividade de conduzir e influenciar pessoas, como forma de agregação de talentos variados, como polo de atração e capacidade de empreendimento, ela que era a política da família mesmo. Ela circulou em muito mais meios do que ele.”

“Violeta conseguia enxergar talento”, Alemberg complementa. “Era uma alquimista. O sentimento que eu tenho é que convivi com uma rainha.” “Ela via o valor das pessoas, não importava sua posição social. Contam que tinha um faxineiro na URCA que era o melhor amigo dela. Todo evento e palestra na Universidade ele tinha que tá do lado dela, na primeira fila. Isso porque a inteligência dela era a sua inteligência. Ela instigava o que havia dentro de você”, diz.

Chego perto do fim deste perfil de Violeta Arraes com a certeza de que, de forma alguma, ele abarca completamente quem ela foi. Faltam centenas de entrevistados, falta narrar milhares de episódios. Não cabe, não dá tempo. “A obra da vida dela é inconsútil, não é objetivada”, Almino me acalma. “Não dá pra definir Violeta como secretária e reitora, porque eram cargos que estavam abaixo dela”, Alemberg me ajuda. “Não dá pra definir com edificações, porque ela não levantou nenhum prédio. Ela edificou pessoas. E não foi pelo lado de fora, foi pelo lado de dentro. A grandeza dos discípulos de dona Violeta é pelo lado de dentro.”

Quanto mais me contam histórias de Violeta, mais eu sinto que há mágica. O que ela fez em vida reverbera até hoje, mas de uma forma que está mais para ser sentida do que para ser vista. Talvez frustrado por não conseguir transmitir o que me passaram, sonho com ela. Violeta chega para mim e diz: “deixe eu te guiar”. Um caso narrado por Alemberg parece servir a esse propósito: “Todo mês de junho, período que tem muito vento aqui, ela gostava de ficar na varanda da casa dela. Uma vez eu cheguei lá e a primeira coisa que ela me disse foi: ‘Alemberg, o vento que sopra na Chapada do Araripe é o Cariri com saudade do mar’”.

Violeta fechava os olhos e contemplava o barulho das palmeiras, das folhas de macaúba e de buriti balançando, fazendo o som das ondas de quando o sertão era mar. O vento de junho conta histórias e fala de quem não está mais aqui. Feche os olhos e escute. Acredite em Caetano Veloso.

Sugestões de Leitura

  • Caboca De Melo

    Violeta Presente! Belo texto! Violeta sorria quando eu dizia que ela era a nossa embaixadora em Paris. Ela prestava sua solidariedade a todos os sul-americanos. Ela era muito amiga de meu primo o poeta Thiago de Mello. Raro encontrar um intelectual brasileiro em Paris que não conhecia o casal.
    Graças a Dom Helder e Violeta eu consegui uma bolsa de estudos para fazer meu doutorado. Eu fiz parte do grupo Economia e Humanismo no Centro Lebret e depois trabalhei muitos anos na cooperação internacional solidaria francesa, uma agência que foi criada logo depois que Josué de Castro, outro grande nordestino que criou a primeira campanha internacional contra a Fome, ele foi Presidente da FAO. Depois veio o Vaticano II e o Comité Contra a Fome e pelo desenvolvimento ganhou força …Lebret, Dom Helder, Josué de Castro, Abbé Pierre foram os fundadores. Eu tive a chance de trabalhar quase dez anos como responsável para o Brasil/Cône Sul. Se dependesse de Violeta que fez parte do comité de Honra do Comitê eu deveria ajudaria todo mundo… Grande Violeta! resta a saudade eterna e reconhecimento para sempre.

    • Pedro Philippe

      Que história maravilhosa! Obrigado por compartilhar com a gente =)