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Cidades Partidas

“(…) Cada uma das outras cidades [que não são a justa] é, como diz o provérbio, não uma, mas muitas. São pelo menos duas, inimigas uma da outra, uma dos pobres e outra dos ricos! Em cada uma destas duas há muitas outras.” Não, o texto não é de Marx ou de algum marxista. Este trecho faz parte de umas das obras clássicas do pensamento ocidental, a República 422e, de Platão, do séc. IV a.C. Lembrei desta passagem ao assistir uma reportagem-documento de 1989, sobre a ida dos moradores do subúrbio carioca às praias nos fins-de-semana.

São impactantes tanto as condições às quais os moradores do subúrbio são submetidos para chegarem até o mar, quanto o enorme preconceito e desprezo social que a fala dos jovens moradores da zona sul e da Barra revela sobre estas pessoas, quanto, ainda, os modos contraventores com que os excluídos resistem, vão até a praia e habitam aquele espaço.

O vídeo voltou à circulação nas redes sociais depois de alguns acontecimentos recentes na capital fluminense. A prefeitura, junto às empresas de ônibus, resolveu diminuir drasticamente a circulação de linhas entre a zona sul e as demais áreas da cidade. Neste último fim-de-semana (19 e 20 de setembro de 2015), “coincidentemente” (?), moradores de Copacabana atacaram fisicamente alguns usuários de transporte público vindos dos subúrbios sob a alegação de que estes teriam realizado furtos, assaltos e arrastões no bairro. Há vídeos, fotos e reportagens do ocorrido; como este, por exemplo . A maioria dos comentários intitula a ação de “fazer justiça com as próprias mãos”… Justiça? Mas é possível justiça em uma cidade partida?

Ampliando o foco, vemos situação semelhante ocorrendo no mundo. Refugiados do norte da África e de países ao oriente tentando entrar no “velho mundo civilizado”, e o medo e a crueldade de alguns cidadãos e governos reagindo, dificultando, algumas vezes impedindo que os imigrantes cheguem. É possível justiça em um mundo partido?

Foquemos agora no nosso Cariri e vejamos como estamos sedimentando aqui também uma urbanidade partida. Não é de hoje a injustiça, é claro. Qualquer pessoa que estude um pouco de história do Brasil é capaz de remontar as causas da desigualdade social até 1500. Talvez já tenha sido pior. Mas, neste momento, de concentração urbana e de crescimento econômico e populacional, podemos ver lado-a-lado os condomínios de apartamentos milionários e o esgoto a céu aberto. Podemos ver ainda, lado-a-lado, as Hilux e os ônibus sucateados das empresas responsáveis pelo transporte público.

Esta última imagem me é especialmente cara aqui porque reflete, também como drama de locomoção espacial, a farsa que é a locomoção social, uma das promessas da nossa organização capitalista. Farsa não pela impossibilidade de que atores sociais consigam individualmente enriquecer, ainda que seja um processo muito difícil e necessariamente reduzido a uma minoria. O que há de mais ilusório na promessa da mobilidade social (pelo esforço, ainda mais) é a naturalização dos lugares sociais (nas suas versões mais ou menos preconceituosas: ricos e pobres, elite e povo, gente de bem e gentinha). Tudo o que é visto como “natural” torna-se inquestionável; contra as “leis da natureza”, o que poderíamos nós fazer? (É interessante notar que na hora de produzir tecnologia não pensamos assim.)

Não estão distantes de nós as violências e os “justiçamentos”. Há alguns meses tivemos a perseguição e a morte provocada em um acidente de moto de dois rapazes que assaltaram e levaram um celular de um homem, na Lagoa Seca. Um pouco antes, tivemos o assassinato de vários jovens no Crato como represália à morte de um policial em um assalto dentro de uma farmácia. O problema está aqui do nosso lado. O que fazer?

Acho relevante que a fissura social tenha sido realçada mais uma vez no Rio de Janeiro em um fim-de-semana de ida à praia. A praia é gratuita, um espaço que é, em princípio, e contra a vontade de alguns, de todos. O fim-de-semana é o tempo que temos para nós mesmos, para decidirmos o quê, como e onde vamos fazer. Que nesse espaço e nesse tempo apareça claramente que as muitas cidades de ricos e pobres habitam uma só é um sintoma interessante. Os sintomas servem para que olhemos as doenças. Os sintomas são, assim, sinal de que há ainda alguma saúde. E que precisamos cuidar dela. Mas como?

É ainda Platão quem diz: o que corrompe os cidadãos são a riqueza e a pobreza (República 4221d). Corrupção (me ensinou a Monja Coen, esta semana, em uma palestra, na IV Semana Freiriana do Cariri) significa etimologicamente algo como “coração rompido”. Coração que é centro de pulsação, responsável pela circulação do sangue e nutrientes para todo o corpo. Precisamos recuperar nosso coração. Recuperar porque este coração, esta unidade, é algo que ainda temos, se nos resta alguma saúde. Ainda segundo o pensamento platônico, em cada cidade injusta mora, como possibilidade, a cidade justa. Mirarmos nela depende de que cirzamos os nossos corações partidos, as nossas vias de interrompidas, depende de que invadamos e habitemos a nossa praia comum. Não será fácil, mas também não é fácil viver sem coração. Não é fácil, mas “as coisas belas são difíceis” (República 435c).

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