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Canções do exílio: como é ser caririense fora do Cariri?

Xico Sá

E quando eu me vi sozinho / Vi que não entendia nada / Nem de pro que eu ia indo / Nem dos sonhos que eu sonhava.” (Torquato Neto)

 

Mãe, ainda me lembro quando tu colocaste a rede no fundo da mala, mala de couro, forrada com brim cáqui, e perguntaste, tentando sorrir no prumo da estrada: “Filho, será que na capital tem armador nas paredes?”

Naquela noite eu partiria para o Recife, que conhecia apenas de fotos e do mar de histórias trazidos pelos amigos. Lembro de uma penca de fotografias em especial, que ilustrava uma bolsa de plástico a qual usava para carregar meus livros e cadernos. Lá estavam as pontes do centro, casario da Aurora ao fundo. Lá estava a sede da Sudene, símbolo de grandeza naquele apagar dos anos 1970. Lá estava o Colosso do Arruda, o estádio do Santa…

Quando o ônibus gemeu as dores da partida, aquela zoada inesquecível que carregamos para todo o sempre, tu me olhaste firme, e eu segurei as lágrimas tão-somente para dizer que já era um homem, que era chegada a hora de ganhar o mundo, pé na estrada, o mundo estrangeiro que conhecia somente pelo rádio, meu vício desde pequeno, no rádio em que ouvia os Beatles, as resenhas e as transmissões esportivas, além de todo um sortimento de novidades daqui e de fora.

Lembro que naquele dia, mãe, ouvimos juntos o horóscopo de Omar Cardoso, na rádio Educadora do Crato (ou teria sido na Progresso de Juazeiro?). Ele falava dos novos rumos do signo de Libra. Você disse: “Tá vendo, meu filho, você será muito feliz bem longe”.

A voz de Omar Cardoso e o seu mantra ecoava no juízo: “Todos os dias, sob todos os pontos de vista, vou cada vez melhor!”

Foi o dia mais curto de toda a existência. O almoço chegou correndo, a merenda da tarde passou voando… e quando dei fé estava diante da placa Crato/Recife, Viação Princesa do Agreste.

Todo choro que segurei na tua frente, mãe, foi derramado em todas as léguas seguintes. Mal o ônibus chegou em Barbalha, eu já estava com os dois lenços de pano — outro cuidado seu com o rebento — molhados. Em Missão Velha, uma moça bonita, estudante que voltava de férias, me confortou: “É para o seu bem, foi assim também comigo”.

Quando chegou em Salgueiro, além dos lenços e da camisa nova — xadrezinha, da marca Guararapes —, o livro Angústia, de Graciliano Ramos, um dos motivos da minha vontade de conhecer a vida, também já estava encharcado.

E assim foi a viagem toda, com direito a soluços que acordaram a velhinha que ia ao meu lado. Ao amanhecer, o ônibus chegou no Recife.

Arrastei a mala pelo bairro de São José e procurei a pensão mais econômica.

Sim, mãe, tem armador de rede, escrevi na primeira carta. Naquele tempo não se usava, em famílias sem muito dinheiro, o telefone. Era tudo na base do “espero que esta te encontre com saúde”, como a gente escrevia na formalidade das missivas.

É mãe, neste teu dia, que está quase chegando a hora, quero lembrar que a coisa que mais me comoveu foi tua coragem, que eu até achava, cá entre nós, que fosse dureza além da conta d’alma. Até falei, um dia no divã, sobre o assunto, como se eu quisesse que naquela despedida o sertão virasse o teu mar de pranto.

Eis que recentemente me contaste como foi duro, que tudo não passava de um jeito para não fazer com que eu desistisse de ganhar a rodagem. Aí me lembrei de uma sabedoria que citava nas cartas e bilhetes, quando eu esmorecia um pouco na sobrevivência da cidade grande: “Saudade não bota panela no fogo”. E ainda reforçava: “Saudade não cozinha feijão, coragem, filho, coragem”.

Em nome das mães de todos os meninos e meninas que partiram, dona Maria do Socorro, quero te deixar beijos e flores.

Sim, mãe, agora já sabes que somos de uma família de homens chorões. São 18h40 de um sábado, e eu choro um pouco, como fazia no fundo daquela rede colorida que puseste no fundo da mala. Chorava tanto nos sótãos das pensões do Recife que os chinelos amanheciam boiando no quarto, como se quisessem tomar o caminho de volta para casa.

 

 

Allan Luna

Saí do Cariri aos 16 anos. Quando decidi estudar Comunicação, de certa forma assinei um contrato de autoexílio. Era 1998 e não tinha havido ainda Lula e a coisa toda. Então, o Brasil seguia sendo aquele sertão de Euclides da Cunha, margeado por um litoral estrangeiro dentro do próprio país. No Recife, busquei os cariris possíveis, algo que, em Pernambuco, não chega a ser tarefa das mais inglórias: uma tradição política que remonta à Bárbara de Alencar e à família Arraes, assim como uma tradição estética que tem em Gonzaga o seu ápice e sua síntese, fazem da região e do estado espécie de zona franca alheia à arbitrariedade das fronteiras geográficas. Essa Confederação do Equador permanente aquietou meu coração nômade por longos e bons 10 anos. Mas o tal contrato que assinei comigo me traria para mais longe. No Rio de Janeiro, terminei por encontrar o Cariri onde menos esperava. Não na Feira de São Cristóvão — que os cariocas muito naturalmente chamam de “Feira dos Paraíbas”, num preconceito tão fortemente interiorizado que lhes passa despercebido —, mas em hábitos que fazem do Rio a mais provinciana das metrópoles (ou do Cariri a província mais cosmopolita do Brasil). O fato é que o gosto pela cadeira na calçada, pela conversa no balcão do boteco, pela vida que se vive do lado de fora de casa — e pelos laços que disso resultam — tornam o cotidiano carioca, curiosamente, mais próximo do Cariri que o vivenciado no Recife, uma cidade ocupada demais em ser e parecer grande. Talvez tudo isso seja só projeção da minha parte — um wishful thinking, para usar um jargão caro ao jornalismo. Mas me conforta essa visão idílica. Vinte anos depois que parti, o Brasil volta a desafiar nossa esperança no que quer que seja, mas sigo cultivando minha Pasárgada particular. Haja o que houver, como um Bogart caboclo, eu sempre terei o Cariri: pai, mãe, uma família que parece ramificar-se como os Buendía de García Marquez, banho de bica no Caldas, banda de pife no Pau da Bandeira, peixe frito na Arajara, rolezinho na noite do Crato e Padre Cícero mais pop que Che Guevara em camiseta adolescente. Vivencio tudo isso de fato nas muitas vezes em que volto à região — e mais ainda nas infalíveis vezes em que torno a sair. É que o Cariri, mesmo jactando-se do cinturão verde de chapada que o circunda, não escapa à sina do sertão mitológico de Guimarães Rosa: ele é dentro da gente.

 

 

Helayne Candido Pereira

Nasci juazeirense de ancestralidade portuguesa, italiana e indígena kariri. Desde 2005, por conta dos meus estudos como professora, minha alma cigana ultrapassa quilômetros de fronteiras entre os mundos do Cariri, da Paraíba e do Rio de Janeiro. Atualmente, resido na capital fluminense, onde faço um doutorado, e a cada partida, por mais que esses lugares atravessem cada um dos meus sentidos, percebo-me como caririense em cada fragmento de memória que carrego comigo e é acionado em cada novo mundo que conheço e se converge com minha identidade territorial.

Fui forjada escutando, no rádio, do forró de Mastruz com Leite ao rock dos Beatles, guardando os domingos para assistir à missa no Santuário dos Franciscanos. Tomando banho de nascente no Caldas, em Barbalha, e nas piscinas do Granjeiro, no Crato. Bebendo Cajuína São Geraldo com bolo e sequilho nas Renovações do Sagrado Coração de Jesus. Indo dar um rolê com as amigas no Cariri Shopping e depois paquerar na praça da La Favorita. Aprendendo a me expressar com meu sotaque interiorano, carregado, sonoro, sertanejo. Assistindo ao reisado na praça Padre Cícero e aos shows de banda de metal no SESC. Observando o cristianismo popular de quem tem fé no Padre Cicero, misturado ao misticismo das benzedeiras. Sendo abraçada pela Chapada do Araripe da janela da minha antiga casa e sentindo a paz infinita que é a força da natureza que nos protege.

Sentir a imensidão desse Cariri que vive em mim é me jogar no coco de roda e no samba, no Açude Velho e na Praia de Ipanema, no São João de Campina Grande e no Carnaval de rua do Rio de Janeiro, no rubacão e na feijoada, na cachaça e na cerveja, em Augusto dos Anjos e Machado de Assis, no “arengar” e no “maneiro”. Sem nunca me perder, esquecer, e sim reconhecer minhas raízes no encontro com esses outros mundos.

Transitar é o meu verbo esvaziado de sentido que se revelou de significado na experiência de todos esses anos em partidas, carregando esse pequeno mundo afetivo que ilumina todas as rotas no meu coração, e nas voltas com outros mundos que completam o desenho do mapa da minha história. E confirma, neste movimento, que sou mais eu sendo outros mundos para compreender aquele sempre existirá em mim: o Cariri.

 

 

Max Petterson

De: Paris

Ao: Universo

 

Quando eu fui embora do Cariri, meu coração estava em pedaços. Lembro-me muito bem desse dia… Minha mãe chorava muito, meus amigos também. Entrei naquele ônibus pra viver na cidade grande. Pela janela dava pra ver minha vida, minha infância e adolescência. Tudo que vivi naquelas ruas e praças, Belchior cantava pra mim e, sozinho, pela primeira vez eu pude chorar.

Voltar a minha terra depois de dois anos foi um alívio, foi de uma paz espiritual imensa. Rever as pessoas, as danças, as músicas, os lugares que marcaram minha vida.  Hoje, depois de três anos morando longe, costumo dizer que o Cariri vive dentro de mim. Tá na minha forma andar, nas minhas expressões e no meu jeito de falar… Ah, esse jeito de falar! Essa é a representação de toda minha essência; é o que sou.

Viver, para mim, é uma aventura. E voltar ao Cariri é uma poesia. Foi nesse lugar que eu criei todos os meus sonhos, foi lá que eu vivi minhas melhores lembranças.  Eu amo o Brasil, amo minha terra, meu povo. Hoje choro mais uma vez de saudades. Choro por ter que deixar minha família, meus amigos, todos aqueles que acreditam em mim… E por isso eu tenho que ir.

E a saudade é assim mesmo. A vida da gente é sentir falta das coisas. Precisamos viver, precisamos seguir o caminho, precisamos sempre voltar.

 

 

 

 

Edianne Nobre

Estrangeira na casa do meu pai

O Cariri é descrito, na obra de memorialistas e historiadores, como um oásis no sertão. A Chapada do Araripe abraça o Vale como uma mãe abraça seu filho e o transforma nesse lugar mítico. Esse discurso foi incorporado às identidades de homens e mulheres que ali nasceram ou, por algum motivo, ali chegaram, afinal “quem bebe da água do Cariri não vai mais embora”. Água encantada. Nesse encantamento, o estrangeiro se torna nativo; o nativo que foi embora é torturado pelas saudades e sempre volta.

Desde muito tempo, escuto esses relatos apaixonados sobre a terra onde nasci há 33 ou “há dez mil anos atrás”, já não importa, embora eu saiba pouca coisa sobre o mundo, ao contrário de Raul. A verdade é que sempre me senti estrangeira no Cariri.

Julia Kristeva diz que o estrangeiro é a face oculta de nossa identidade, rebelde aos vínculos e às comunidades, e eu nunca pude assumir essa identidade que me era apresentada e, por vezes, cobrada. Nunca fui afetada (no sentido de desenvolver afeto) pelas romarias, pelos reisados e pelas bandas cabaçais, e, apesar de ter estudado tantos anos sobre a vida da beata Maria de Araújo, me interessava muito mais a trama da mística feminina do que o lugar. Acho bonito, mas para ser é preciso mais que achar.  Como Saramago, eu pertenço a tudo e não caibo em lugar nenhum.

Sempre que retorno, minha impressão é que o Cariri não muda e nunca mudará, sendo mar ou sertão. E a mudança é a minha rotina. Fera ferida, desde criança sentia um desejo incontrolável de correr o mundo, pois o Vale era selva bravia e os braços da Chapada me sufocavam. Precisava ver o horizonte; muralhas me inquietam. Tornei-me gypsy e “já morei em tanta casa que nem me lembro mais”. De Juazeiro a Roma, todos os caminhos me levaram a não querer mais voltar. O destino é o nome que damos aos desejos do nosso inconsciente, dizia Jung.

Sair do Cariri foi a melhor coisa que fiz, porque o mundo me ajudou a perceber esse lugar de modo distinto e até a amá-lo mais. Admiro quem tem o sentimento de pertencimento, mas não invejo. Não sou a baleia encantada que mora debaixo da Sé cratense, e para me prender não há altar que chegue. Meu reflexo não cabe nos espelhos da roupa do Mateus. Essa música que mistura ladainhas, espadas e flautas não me cativa. Meus ouvidos estranham esse mundo barulhento. É um mundo bonito, não nego. Nem o renego, porém. Não busco (minha) origem. Tampouco o destino. O que eu quero mesmo é a estrada.

O Cariri, para mim, não é nostalgia. Saudade? Saudade eu tenho de gente, da minha avó que já se foi, da minha família, dos amigos que deixei lá. Eles moram no Cariri, mas vivem no meu coração. E, afinal, existe lugar mais importante que o coração de alguém?

 

Elandia Duarte

Era 2015 e eu estava cansada do Cariri. Mais precisamente, saturada da minha cidade natal, Juazeiro do Norte. Exausta de suas noites tediosas e vazias, de farras homéricas, sempre nos mesmos bares, com as mesmas pessoas, as mesmas conversas, os mesmos vazios. Abusada de suas praças, suas ruas, seu cenário cultural. Era cansaço de quê? De tudo e de nada, como diria o Pessoa. Eu tinha cansaço. Só isso, cansaço. Na tentativa de alívio e descanso, em 2016, mudei pra Brejo Santo, cidade vizinha, mas, pelo menos, pensei eu, lá teria cansaço de outras ruas, outros espaços, outras pessoas.
E Brejo Santo foi bonita comigo, me acolheu, me deu alegrias, amigos, recomeços e levezas. Lá foi onde me apaixonei pela última vez. Foi lá também que, pela primeira vez, entendi, pela práxis cotidiana, que afeto é também deixar partir. Mas Brejo ainda era Cariri, e meu cansaço era tão imenso que atingiu esse meu hiato geográfico. Parti.

É 2017 e estou em Fortaleza, e a capital, de início, mostrou-se fria, calculista, cinza. Não sei bem se pela resistência da própria cidade ou se por resistência minha. Só quem é do Cariri sabe a sensação de estranhamento e de não pertencimento que a capital carrega e joga nas costas da quem é do interior. Mas Fortaleza melhorou, me deu afetos, me deu família, me deu leituras, me deu poesia, me deu o forró nas quartas-feiras fugidas, me deu o coco ainda dançado de forma desajeitada, me deu recomeços, me deu vida! E o maior e mais importante de tudo, me deu de volta a saudade de Juazeiro e a alegria de ser Cariri.

“Não importa pra onde a gente vá. Estamos sempre voltando pra casa.” Essa frase, que sempre me passou despercebida nas inúmeras releituras que fiz de Lavoura arcaica, agora tem força e significado. Não importa o quão distante eu vá, que caminhos e demoras eu tome, estou sempre voltando pra lá. Estou sempre voltando pra mim mesma, estou sempre voltando pro Cariri. Penso que sair de nosso lar, nossa cidade, nosso canto no mundo, possibilita que a vejamos de novo com olhos deslumbrados e repletos de encantamento. Que entendamos nosso amor por ela e seus significados na nossa formação enquanto gente. Permite que percebamos toda sua inteireza e suas potencialidades. Parafraseando Sartre, hoje as outras cidades e lugares que me formam e me acolhem são amores necessários e contingentes. Cariri é meu amor indispensável e essencial.

 

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