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Arte e Cultura, Revista 0

Câmeras na mão e mil ideias na cabeça

Num tempo em que a arte expressa-se em versões tecnológicas mirabolantes, o cinema, arte associada à tecnologia por excelência, ocupa o cenário em múltiplos espaços, muito além das tradicionais salas de projeção. A CARIRI ouviu criadores, produtores e animadores culturais para rastrear um pouco do que se faz no Ceará e quais as perspectivas dessa atividade, não mais restrita aos diletantes.

Por Tuty Osório
Fotos: Rafael Vilarouca

Juan Luís Buñuel, filho do genial Luís Buñuel, criador de obras primas do cinema moderno como “Um Cão Andaluz”, “O Anjo Exterminador”, “A Bela da Tarde” e “O Discreto Charme da Burguesia” –, para citar apenas as mais famosas – disse de seu pai que este nasceu cineasta e que só poderia ter vivido a sua vida fazendo cinema. “Se tivesse nascido antes da invenção do cinema, certamente, meu pai não teria sobrevivido”, afirma Juan, em entrevista que acompanha a edição em DVD de “Um Cão Andaluz”. Mais do que histórias contadas por imagens, os filmes de Buñuel são a vida lida pela câmera, como se de uma realidade paralela se tratasse.

Em sua época de maior produção, Buñuel antecipava o futuro, agora presente, das virtualidades vividas como verdades, das fantasias sobrepondo-se à concretude, da imagem mais credível que a cena original que lhe deu origem. O nosso pensamento é um trailler e as nossas ações existem a partir da sua publicação em imagens. A tecnologia e sua massificação trouxeram possibilidades infinitas de acesso à produção e distribuição, para um número cada vez maior de autores e de públicos. Do celular doméstico à captação digital de alta resolução, o cinema está cada vez mais vivo.

AS LUZES DO CARIRI
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Glauco Vieira e Ythallo Rodrigues: fazer cinema é inevitável

“Eu trabalho com cinema, é a minha vida, e eu de fato trabalho com isso já há 10 anos”, conta Ythallo Rodrigues,
cineasta residente no Crato, atuante em curtas e longas, principalmente em projetos desenvolvidos em grupo. Integrou o Coletivo Alumbramento, originado em Fortaleza, até 2011. O Alumbramento começou como um coletivo múltiplo, onde diversas linguagens eram trabalhadas em conjunto com o cinema. Hoje é uma produtora composta por seis pessoas e tem seus resultados inteiramente voltados para o audiovisual, desempenhando um papel de destaque na cena de produção independente do Ceará.

Ytallo revela que lida com todas as etapas de realização de um filme, uma característica comum aos cineastas da região. Por excesso de talento ou escassez de profissionais capacitados, quem decide fazer cinema no Cariri acaba assumindo variadas tarefas. “A única coisa com que de fato eu nunca trabalhei foi com som, mas já fui produtor, fui assistente de direção, já fotografei filme, faço montagem de filme, enfim… Na época em que eu estava junto com o pessoal da Alumbramento, mais especificamente em 2007 e 2008, eu trabalhava como produtor do Coletivo e acabamos realizando diversos trabalhos, como ‘Sábado à Noite’, que é um longa do Ivo Lopes, o ‘Praia do Futuro’, que é um longa coletivo do grupo. O ‘Estrada para Ythaca’ (filme de baixíssimo custo, premiado nacionalmente), na
realidade, eu já estava afastado, mas também participei com a galera”, relembra.

Glauco Vieira fez o caminho inverso de Ythallo. Natural de Fortaleza, migrou para o Cariri levado pela carreira acadêmica, há 11 anos. Com formação em geografia, professor e pesquisador da Urca – Universidade Regional do Cariri, Glauco desenvolve uma pesquisa de doutorado que estabelece o diálogo entre o cinema e a cidade. “Inicialmente meu conhecimento de cinema, do ponto de vista de realizador, começou aqui no Cariri, muito irmanado com os colegas que resistiram desde 2003 pra cá, a exemplo do Ythallo Rodrigues”, explica o pesquisador
sobre o seu lado cineasta e o seu encontro com a região.

Glauco sempre esteve ligado à universidade e agora complementa seus estudos no doutorado, abordando uma temática que busca um forte diálogo com o cinema. “Hoje há um campo adventício na geografia que trata desses temas, que aborda a cultura, que aborda as manifestações de ocupação do espaço, e nós entendemos que a linguagem do cinema e da fotografia também são linguagens artísticas que abraçam o diálogo com o espaço de uma forma muito evidente”, discorre, enfatizando as amplas possibilidades do audiovisual na interface com outras áreas acadêmicas, estabelecendo o tal olhar específico que Buñuel preconizou.

A UNIVERSIDADE COMO ESPAÇO AGLUTINADOR
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Espedito Seleiro em ação nas imagens de “Couro Tecido”

Adriana Botelho, também acadêmica fortalezense apaixonada pela região, concorda com Glauco sobre a relevância que a universidade vem adquirindo no Ceará, no que se refere ao fortalecimento da atividade cinematográfica e da arte em geral. Defende que hoje as instituições de ensino superior são pontos de encontro interessantes para a formação de movimentos, a partir do lugar privilegiado de serem difusoras de conhecimento e de experiências de criação. Adriana iniciou o seu trabalho num tempo em não havia escola formal de cinema. Foi formada por pequenos cursos, em Fortaleza, na Casa Amarela, equipamento cultural da Universidade Federal do Ceará que foi pioneira na
capacitação voltada para o audiovisual.

“Depois a gente teve um período de investimento, de se pensar cultura como investimento de fato, ligado ao Estado, com o Dragão do Mar. É um equipamento de cultura que tem teatro, espaço de exposição e um colégio de artes que engloba cinema, design, gastronomia e dança”, recorda Adriana, referindo-se à era iniciada pelo ex- secretário de Cultura Paulo Linhares, idealizador do Centro Cultural Dragão do Mar, em Fortaleza, que hoje preside e no qual promove uma intensa revitalização. “Aqui na região há um campo muito fértil, o Cariri é um nascedouro de artistas, de temas, de ideias, de revoluções não só sociais, mas também culturais, e dentro desse ponto de vista a Urca (Universidade Regional do Cariri), desde 2006, iniciou um trabalho chamado Imago, que é um grupo de pesquisa que tem como finalidade agregar pesquisadores em torno da temática da imagem, aglutinando áreas afins como geografia, história, sociologia”, exemplifica Glauco Vieira, reforçando a ideia de Adriana Botelho, que também defende, enfaticamente, a criação do curso de cinema e audiovisual na Universidade Federal do Ceará no Cariri, a exemplo do que ocorreu em Fortaleza há 4 anos – ênfase na qual é entusiasticamente apoiada por todos os cineastas ouvidos pela CARIRI.

RESGATE DA INVISIBILIDADE

Até o final de 2013 o Imago produzirá alguns curtas relacionados aos sujeitos “invisibilizados” de Juazeiro do
Norte, resultantes de uma pesquisa intitulada “Juazeiros Invisíveis”. Sublinhando, mais uma vez, o olhar do cinema na leitura da vida, Glauco Vieira sintetiza o espírito do seu trabalho e dos tempos que correm: “sempre a minha busca no cinema, além de ser uma tentativa de expressão no âmbito da estética, foi também uma tentativa de abraçar o conhecimento a partir dessa linguagem. Eu escrevo roteiro, dirijo e recentemente, em 2003, produzi um documentário, junto com o Ythallo, com o Daniel Batata e com a Débora Costa, pela produtora local, Filmes de Alvenaria, baseado num livro de contos do Flávio Vieira, ‘A Delicada Trama do Labirinto’. Esse filme foi exibido no Largo da REFFSA, no Crato, um espaço público que deu uma visibilidade interessante de acesso à população”, conta.

“Recentemente, muitos dos filmes gerados aqui têm trazido à tona uma Juazeiro que normalmente não era bem percebida ou divulgada pela mídia, pela televisão, pelas produções, até de longas”, esclarece Glauco, citando como exemplo o filme “Lampião”, de Ythallo Rodrigues, de 2011, que aborda um cantor, personagem da cidade chamado Raul Lampião, atração do comércio de rua que mistura as características de Raul Seixas e de Lampião, para divulgar as ofertas das lojas. Outro exemplo citado por Glauco é “Também Sou Teu Povo”, que aborda a questão dos travestis cultivadores de uma fé fervorosa e alvos de discriminação em participar das procissões.

Sobre as recentes produções locais, tanto Ytallo Rodrigues como Glauco Vieira destacam outros filmes que abordam a questão da sexualidade, tema que tem sido recorrente, não só no Cariri mas pelo Brasil e pelo mundo, como sintoma das preocupações contemporâneas e de todas as mudanças de expressão de comportamentos, antes reprimidos e recolhidos ao espaço privado. “Queria Ser Igual um Beija- Flor”, vencedor de prêmios, e  “Travesthriller”, em finalização, vêm somar-se aos exemplos dessa abordagem. Adriana Botelho refere-se aos mesmos trabalhos citados pelos dois colegas e, ela própria, promoveu recentemente um resgate de memória fundamental de uma outra visibilidade ameaçada. O seu curta, “Couro Tecido”, conta a história de mestre Espedito Seleiro e de Mestre Luís, artistas do couro reclusos em suas pequenas cidades de produção, invisíveis num mundo massificado e quase que inteiramente automatizado, que condena os artesãos ao ostracismo do espaço e do tempo.

A invisibilidade, aliás, interessou recentemente cineastas do mundo inteiro que se debruçaram sobre o tema, em produções rodadas na cidade de São Paulo. Participaram do projeto nomes de peso como Wim Wenders, alemão, e Maria de Medeiros, portuguesa, em curtas metragens que juntos deram origem a um longa, “Mundo Invisível”, com abordagens variadas da invisibilidade social.

INVESTIMENTOS E APOSTAS

Todos os cineastas entrevistados são unânimes na expressão de dificuldades de captação de recursos para viabilizar os projetos de audiovisual. Não existem linhas de financiamento para a cultura no Brasil – nem integrando as políticas públicas, nem por parte das instituições financeiras públicas ou privadas. Composta por atividades com imenso potencial econômico de geração de renda e de importância fundamental para a saudável estruturação da sociedade, a cultura não recebe, nem das instituições, nem das pessoas, a atenção condizente com o status que deveria ocupar.

Prédios de luxo ocupam mais espaço nas prioridades de investimento. Porém, formar, por exemplo, um eletricista envolve custos e esforços equivalentes à formação de um operário da construção civil, sendo que a profissão que o cinema propicia é mais salubre fisicamente e mais gratificante intelectualmente, além de melhor remunerada. Sem falar nas oportunidades de trabalho para níveis médios e superiores de capacitação, oferecendo aos jovens opções fora das convencionais e superlotadas carreiras, quase sempre destinadas a atividades burocráticas.

“O financiamento direto para fazer qualquer tipo de filme aqui é através de editais públicos, fora isso é grana do bolso, que o realizador coloca”, resume Ytallo Rodrigues. Glauco Vieira reforça. “No Brasil tem outro problema que é a falta de comunicação, de interação entre as escalas nacional e regional, estadual e local. Uma política de editais aqui na região ainda está para surgir. Espero que surja, porque a cena de produção, realização e exibição já existe aqui, então seria um incentivo até para discutir novos valores, não somente a questão da realização, mas também a questão do acervo, gerar um centro de documentação”, sugere Glauco.

Para Jefferson Albuquerque, nascido no Crato, residente entre o Cariri e o Rio de Janeiro, em atividade desde 1973, com carreira internacional, a questão do patrocínio continua difícil em qualquer lugar e não melhorou. “Eu venho acompanhando o cinema do Brasil, trabalhando desde o tempo da Embrafilme (Empresa Brasileira de Cinema, extinta no início da década de 90, no governo Collor) e há momentos que tem mais financiamento, momentos que tem menos, mas sempre é uma coisa muito direcionada para determinados diretores ou tipos de produção”, expõe Jefferson, e esclarece que em outros países não se encontra uma realidade muito diferente. O cineasta desabafa que o pior inimigo de todas as produções é o cinema americano. Segundo Jefferson, os Estados Unidos impõem um padrão de cinema de ação, de efeitos especiais, e dominam o mercado. O público passa a ter essa estética como a única
consumível e desconhece que há outras propostas de entretenimento e de reflexão.

“Tem uma produção grande de filmes da Espanha e nós não ficamos sabendo. Da França também é a mesma coisa. Tem um monte de filme que a gente não fica sabendo que estão sendo produzidos, e aqui no Ceará então…”, lamenta o cineasta de “Cinematógrafo Herege” e “História da Terra”, suas produções mais recentes, ambas baseadas em temáticas da região. Todavia, Jefferson Albuquerque é otimista na questão de captação de recursos. “Com relação à produção, hoje é economicamente muito mais viável do que no passado. Agora, o maior problema continua sendo a distribuição. É o mesmo problema que tinha no passado e ainda existe hoje”, aponta. Adriana Botelho concorda e chama a atenção para as centenas de curtas que são viabilizados com editais públicos e ficam guardados em salas de arquivo. Fazer a ponte entre essas produções e o público é urgente e necessário à sustentabilidade da atividade audiovisual.

MECENATO COLETIVO
A cineasta Nívia Uchôa

A cineasta Nívia Uchôa

A fotógrafa Nívia Uchôa, da produtora de arte Poesia de Luz, e o Coletivo Bando, autores do curta metragem
“Thavestrhiller”, com finalização prevista para 2013, defendem um modo autônomo de conferir sustentabilidade
ao trabalho. “O Bando tem uma visão de não captar recursos e fazer trabalhos independentes. Nós passamos um ano pra fazer ‘Thavestrhiller’, ainda não concluímos, e os produtores Orlando (falecido durante a produção), Ravena e Expedito conseguiam os patrocínios aqui mesmo, no Cariri”, explica Nívia. “Cajuína São Geraldo, algumas empresas pequenas e, às vezes dinheiro do nosso bolso pra realizar”, exemplifica.

Joseph, integrante do coletivo Bando, detalha com mais exemplos o modo criativo como o grupo viabiliza as produções. “A gente fez cenas no Teatro Municipal, e para isso entramos em contato com o pessoal de lá pra eles cederem o espaço. Grupos de teatro cederam o figurino, o Centro Cultural do BNB também cedeu o espaço e os próprios amigos se juntaram para participar. Tinha que montar o cenário e havia coisas específicas a fazer. A gente chamava os amigos, aí montava tudo, rodava, depois desmontava e devolvia tudo”, ilustra Joseph, revelando como funciona o cooperativismo informal do Bando.

Nívia conta que “Travesthriller” fala de um travesti de Juazeiro do Norte que quer engravidar e faz de tudo
pra conseguir essa graça. “Vai ao terreiro conversar com uma macumbeira, vai numa taróloga, vai ao Padre Cícero,
é uma peregrinação que ela faz pra conseguir engravidar”, descreve. O tema surgiu para Nívia em 2008 quando
participou de uma pesquisa do Ministério da Saúde, sobre política, educação e doença. “Elas conversavam muito mais, além dos questionários. E qual foi a ideia que eu tive? De levar a câmera pra rua e entrevistar essas travestis. Tudo começou a partir dessa pesquisa, da curiosidade de entender um pouco mais o universo. Fomos às ruas conversar com elas, e à pergunta ‘você quer engravidar?’ a maioria respondia que sim. Daí veio a vontade de falar dessa coragem fantástica”, recorda Nívia.

Daniel Batata, citado por todos os colegas cineastas como um artista que rompe com as convenções e usa caminhos alternativos com criatividade e talento, também busca os recursos por conta própria, agindo independente dos editais. Começou a produzir em 2010, com um filme feito no seu celular, que segundo ele, nasceu do prazer em fotografar e filmar. “Eu gostava de ficar fazendo foto e vídeo com ele porque ficava pixelado, eu achava legal porque ficava uma coisa meio impressionista, e comecei a ver isso no vídeo, quando colocava na tela grande dava um efeito mais interessante”, relata Daniel.

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Na estrada com “Travesthriller”

“Então comecei com a história dos vídeos-poema, que eram vídeos feitos com roteiros em cima das poesias que eu escrevo. Ainda com esse trabalho do celular, comecei a entrar na ficção e estou terminando um agora, o ‘Acorda’, que foi o primeiro realizado com uma equipe, reduzida, porque a verba era minha, foi uma grana que eu mesmo levantei para fazer e esse vai sair Full HD, progressivo, tem som direto. Está quase pronto e pretendo lançar logo, no Sesc Juazeiro”, planeja. Os filmes que Daniel faz com o celular estão na internet. “Eu fiz cinco filmes com o celular. O primeiro foi “Foradesordem”, filmado a partir de uma intervenção do Bando (o coletivo de “Travestrhiler”). Eu peguei a questão da imagem pixelada e vi os efeitos que ela poderia dar”, detalha.

“Foradesordem” foi selecionado por um projeto da TV Brasil que tinha uma categoria para filmes feitos com celular. Daniel continuou as produções de celular com “Minha Poesia”, um vídeo-poema com imagens da cidade e palavras e “A Menina Dançarina”, não mais com imagens captadas no celular mas um trabalho de edição sobre as imagens de um filme do Alexandr Sukurov, modificando tempo e textura. O quarto filme de Daniel foi “Busca Alguma”, lançado no teatro do Sesc Crato e produzido, mais uma vez, a partir da captação do celular.

O celular histórico acabou quebrando e Daniel começou a procurar outras coisas para fazer. Porém, a marca de criação tendo o celular como câmera consagrou-o como um artista capaz de trabalhar magistralmente a mais simples das possibilidades. “Eu tinha o roteiro dos lugares de onde eu iria filmar e dentro do roteiro, em cada cena, sabia como que o poema iria entrar, se ia ser uma voz em off ou uma narração, um texto”, descreve, mostrando que seu trabalho era muito mais que um improviso. Com a produtora Filmes de Alvenaria, em parceria com Ythallo Rodrigues, Glauco Vieira e Débora Costa, Daniel pretende buscar mais estrutura, voos mais altos. “É possível fazer de maneira alternativa, é incrível, mas com estrutura a gente abre mais possibilidades. O cinema do Cariri vai ganhar o mundo, tem cada vez mais gente fazendo coisas muito boas por aqui”, prevê.

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