(Foto: Jr Panela/Arquivo Sesc)
Arte e Cultura, Mostra Sesc 0

“Camaleônica, ela rompe fronteiras reais e imaginárias”. Dane de Jade e outros falam sobre a Mostra Sesc

Após cinco dias de luz nas terras kariri, a Mostra Sesc de Culturas começa a se despedir nesta terça-feira, 22. Para além da intensidade da programação, convidamos Dane de Jade, secretária de Cultura do Crato, e outras personalidades a falarem sobre a evolução do evento e seu significado para a região.

 

“É uma felicidade muito grande saber que o projeto foi maturado e desenvolvido a partir de um pensamento onde se estrutura uma ação cultural em todos os segmentos artísticos. Desde a primeira Mostra já se falava em Terreiradas com os mestres, de misturar a literatura e o teatro, este que era a mola-mestre. Com isso desenvolvemos uma ação que mexeu com todo o território Cariri no sentido de que mexeu com a cadeia produtiva, do comércio, da rede hoteleira, dos equipamentos culturais. Criamos uma espécie de economia da cultura.

Hoje sabemos que a Mostra Cariri é uma ação que gera emprego e renda, e isso é muito importante para a consolidação dela. Dezoito anos e agora o projeto está caminhando para sua maturidade. Hoje o Sesc está levando com uma condução mais popular, traz mais público a partir do pensamento de trazer grandes nomes e essa é uma vertente bacana.

Ao longo dos anos o projeto começou a ter outro formato. Algumas coisas se mantiveram, outras não. Mas isso vai da dinâmica do projeto, este que rompe fronteiras reais e imaginárias. Ela atravessa movimentos e manifestações de todas as partes. Nesse sentindo, ela é camaleônica. Ela vai se definindo e se estruturando na perspectiva de ser um referencial nacional. Na medida em que você envolve todo o território com as cidades que participam pelo Circuito Patativa do Assaré, isso dá um caráter mais democrático. Ela não se restringe ao eixo Crajubar, mas se espalha por outros municípios. Tanto a diversidade de linguagens artísticas quando a diversidade de realizar em diversos municípios.

A Mostra revela que é possível estruturar um projeto cultural com a possibilidade de promoção de intercambio, cooperação cultural entre artistas e seus segmentos, de celebrar e contribuir com a construção da identidade regional, calcada na memória dos índios kariri e toda a manifestação deles que existe por meio dos mestres e grupos de tradição”

Dane de Jade, gestora cultural e ex-gerente de cultura do Sesc.

 

(Foto: Jr Panela/Arquivo Sesc)

(Foto: Jr Panela/Arquivo Sesc)

 

“Mostra Sesc, antes de tudo, é carnaval. Passamos um ano inteiro se programando, esperando, rezando para que os melhores espetáculos e shows se inscrevam em seu edital. E por mais que a cada ano que passe a produção do festival tire um dia inteirinho de felicidade da gente, sempre vai existir aquele frisson de estar imerso numa experiência de troca cultural e artística, onde histórias de amor, amizade, trabalho e cachaça vão ser compartilhadas inúmeras vezes pelo resto de nossas vidas”

Constance Pinheiro, arquiteta e fotógrafa.

 

(Foto: Davi Pinheiro/Arquivo Sesc)

(Foto: Davi Pinheiro/Arquivo Sesc)

 

“Isso aconteceu há uns 5 ou 6 anos. Desde que eu me entendo por gente, o período da Mostra Sesc é o mais prazeroso da minha vida. Alguns eu passei estudando, outros não. Alguns eu passei namorando, outros não.

Há uns cinco anos atrás além de ser esse poço tão rico de cultura, a Mostra Sesc tinha um episódio bem especial: a Overdoze. Realmente existia a ambiguidade: Era overdoze por ser um evento de doze horas (virava de um dia a outro) e era overdose por ser uma dose do c4r4lh0 de peças, shows, exposições e conversas.

Lembro que nesse dia eu cheguei bem cedo para tentar pegar os ingressos das peças, que tinham filas e mais filas. Em certo momento alguém me chamou para beber. Então bora! Lá pela madrugada, a galera começou a se concentrar lá fora. Conversa vai, conversa vem, encontro um cara que me chama a atenção. Não pela aparência, mas um cara que eu bati o olho e gostei. Eu falei: Poxa, minha irmã não me deixa mais beber. Ela tá chateada. Ele disse: Então senta aqui comigo e toma essa água. O dito cara abriu uma água mineral que tinha e me deu, a fim de amenizar minha embriaguez. Sentamos no chão e conversamos noite adentro. Eu sempre perguntava o nome dele, ele respondia, eu nunca entendia. No botão da camisa havia um bordado escrito ‘Autentic Jeans’. Passei a chamá-lo de ‘Autentic Jeans’. Ele ria, sentado no chão comigo e conversando cada assunto que você só imagina falar com seu melhor amigo. No outro dia comecei a procurá-lo. Era alguém de fora, algum artista. Só não imaginei que seria o Antônio Abujamra, diretor, ator e apresentador. O ‘Autentic Jeans’ que sentou comigo e me ouviu falar todas as bobagens da noite era um cara incrível. 

Se eu já gostava da Mostra Sesc, depois disso fiquei encantada. Pela mistura e pelas cores, eu nunca mais quis parar de ir. Todo ano é uma nova experiência, até porque em um ano a gente muda um pouquinho. A Mostra marca a época da nossa vida que faz a gente pensar e que faz a gente querer viver mais e sempre mais.

O Antônio faleceu ano passado, em 2015, mas todos os anos eu continuo indo para celebrar a vida dele e para celebrar os novos encontros, gostos e sabores que a Mostra nos proporciona”

Sarah Bezerra, jornalista.

 

(Foto: Davi Pinheiro/Arquivo Sesc)

(Foto: Davi Pinheiro/Arquivo Sesc)

 

“Em 2014, ministrei uma Oficina que misturava Fotografia e Literatura com Constance Pinheiro. Tínhamos uma turma mista – e isso já é muito massa, porque são pessoas diferentes, de idades diferentes e interesses diferentes reunidas – e algumas pessoas já tinham vivências artísticas ou estavam interessadas em ter experiências que misturasse arte. Nisso, saímos em passeio pela linha do VLT e fotografando. Cada pessoa com sua câmera e fotografando. Num segundo momento cada pessoa tinha que escolher uma imagem e pensar um texto para ela. E essas imagens viraram lambe-lambe e colamos pela cidade.

Foi a primeira vez que passei mais tempo em Crato e Juazeiro. Foi fabuloso, porque ao longo desses dias dava para encontrar muita gente que estavam vendo as programações. Uma das coisas que mais me encantou foi perceber como as interações entre a galera que vinham se apresentar, trabalhar com a galera que já mora, que está aqui e participa aconteciam. Pude conhecer o que existe na cidade, não só em termos de estrutura, mas em termos de manifestações artísticas. Eu não conhecia quase nada. Foi massa. E as festas, ein? Menino, pense…”

Fernanda Meireles, escritora e arteducadora de Fortaleza.

 

(Foto: Jr Panela/Arquivo Sesc)

Diretora Regional do SESC-Ceará, Regina Pinho (Foto: Jr Panela/Arquivo Sesc)

Sugestões de Leitura