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Caio Fernando Abreu: uma ponte entre dois séculos

Denominado por Lygia Fagundes Telles como um “encantador de serpentes” e um “biógrafo das emoções contemporâneas”, Caio Fernando Abreu tem sido redescoberto por uma geração que não o conheceu presencialmente, mas que consome ávida seus textos mais diversos. Tal fenômeno parece não acontecer por acaso, pois além de fornecer um retrato do país e da geração do final do século XX, Caio é o escritor brasileiro que, em companhia da poeta Ana Cristina Cesar, antecipou muito da dicção dos modos de escrita contemporâneos. Ambos já apresentavam em seus textos de 1980 uma linguagem confessional, supostamente “ligeira”, sem pedantismos ou academicismos. Características marcantes das formas presentes hoje nos blogs e hipertextos elaborados em especial pela juventude no ciberespaço. Não é à toa o imenso sucesso deles nas redes sociais. Seus textos antecipavam modos de expressão já naquela época quando não existia nem mesmo e-mail e onde computador pessoal era artigo de luxo.

Nestes 20 anos da morte do escritor gaúcho, ousamos mexer no material que encarna as múltiplas vidas possíveis de Caio Fernando Abreu e elaboramos um pequeno perfil literário do moço. Vinte anos após sua partida, a obra de Caio Fernando Abreu permanece viva e pulsante.

Caio Ferando Abreu na companhia de amigos, dentre eles, Lygia Fagundes Telles e Hilda Hilst.

Caio Fernando Abreu na companhia de amigos, dentre eles, Lygia Fagundes Telles e Hilda Hilst.

Ao entrevistar Caio Fernando Loureiro Abreu ainda na década de 1970, a escritora Tânia Faillaci pontuou: “Caio quer ser um Mago. Por enquanto é um escritor premiado”. Ela traduzia o universo místico, pop e literário que envolveu grande parte da obra do escritor gaúcho, tão em voga hoje, mas naquele momento repudiado pela chamada “literatura de gravata”. Tal qual um dos heterônomos de outro Fernando, o Pessoa, ou como sua amiga Clarice Lispector, Caio pertencia a um mundo ancestral de oráculos e bruxos, como bem ressaltou Antônio Gonçalves Filho.

E foi exatamente na manhã do dia 12 de setembro de 1948 que nascia, quase na fronteira com a Argentina, na cidade de Santiago do Boqueirão, no Rio Grande do Sul, aquele virginiano com ascendente em Capricórnio. Rodeado de quartéis, o município se tornaria mais tarde apenas Santiago e viria a ser conhecido por uma designação bem mais simpática “a terra dos poetas”.

Embora não tenha se dedicado especificamente ao formato poesia no sentido estrito, é inegável o caráter lírico que perpassa a obra de Caio. Caráter este iniciado ainda na pré-adolescência, quando a paixão pela literatura se manifestava na leitura voraz e na escrita da história A maldição de Saint-Marie, ainda aos 13 anos. Posteriormente reformulado e renomeado como A maldição do Vale Negro, o melodrama viria a ganhar o Prêmio Molieri de teatro em 1988.

Ainda na adolescência, em 1965, vivenciou seu primeiro deslocamento geográfico, fenômeno que marcaria profundamente sua escrita e seus personagens. Foi estudar no Instituto de Porto Alegre, internato localizado na capital gaúcha. É nesta época que Caio tem sua primeira publicação. O conto “O príncipe sapo” impresso na revista Cláudia.

Concluídos os estudos da educação básica, Caio adentra a graduação em Letras pela UFRGS no ano de 1967 em companhia do futuro escritor João Gilberto Noll. Não se identificando com o curso, passa a frequentar Artes Dramáticas, que também abandonará posteriormente. No ano seguinte, o emblemático 1968, Caio adere ao fenômeno da contracultura fortemente influenciado pelo existencialismo, movimento hippie e pelo tropicalismo. Aliás, nesta época, Caio buscava uma “voz própria” e lutava contra a flagrante influência de Clarice Lispector. Sua inspiradora maior apareceria ainda excessivamente nos dois primeiros livros do escritor gaúcho: Inventário do Irremediável (1970) e Limite Branco (1971).

Perseguido pelo DOPS, a polícia política da ditadura militar, Caio refugia-se na “casa do sol”, sítio de Hilda Hilst. Ele está vivenciando neste momento outras experiências de deslocamento, uma vez que permanece em trânsito entre Rio de Janeiro (onde aprofunda amizade com Clarice e Nélida Piñon) e São Paulo (onde começa a desenvolver atividade de jornalista em diversos veículos da grande mídia, como a Revista Veja).

Anúncio do livro “O ovo apunhalado” no Jornal O Globo de 18 de janeiro de 1976

Anúncio do livro “O ovo apunhalado” no Jornal O Globo de 18 de janeiro de 1976

Em 1973, Caio decide realizar um auto-exílio para a Europa financiado pelos prêmios literários que então recebera. Após passar por Paris e lavar pratos em Estocolmo, decide fixar-se na Inglaterra, onde elabora parte de suas experiências que comporiam a obra póstuma Estranhos Estrangeiros (1996). Ali, Caio vive como hippie em uma squatter house, rouba leite nas portas das casas, trabalha como modelo vivo e é preso por subtrair uma biografia de Virginia Woolf em uma livraria. Naquele contexto o Flower Power estava a todo vapor e Lennon ainda não havia decretado o final do sonho.  Como disse o autor gaúcho no prefácio à segunda edição de “O ovo apunhalado”, era um “tempo de dançadas federais. Lindos sonhos dourados e negra (SIC) repressão. Tempos de Living Theatre expulso do país, do psicodelismo invadindo as ruas para tomar contornos tropicais […] primeiras overdoses (Janes, Jimi). Eu estava lá. Metido até o pescoço. Apavorado viajante”

Retornando ao Brasil, colabora em diversos jornais da imprensa alternativa dos anos 1970, tais quais, Opinião, Movimento, Versus, Ficção, Inéditos, Paralelo e Escrita. Ao mesmo tempo em que tem trechos censurados do livro O Ovo Apunhalado (1976), por serem tidos como “imorais” (SIC), a presença marcante dos textos de Caio na mídia alternativa possibilitará a publicação de dois de seus contos na antologia Histórias de um novo tempo (1977) pela editora Codecri, pertencente ao jornal O Pasquim. Com o sucesso editorial do volume, Caio passa a ser anunciado como um dos novíssimos escritores da literatura brasileira. Em 1977 publica ainda Pedras de Calcutá, livro no qual refletia sobre toda uma geração criada sob a sombra da ditadura e começa a esboçar alguns contos daquela que seria sua obra mais aclamada: Morangos Mofados. O livro, finalizado em 1979, é uma reflexão sobre o final do sonho da contracultura e de seus projetos. Contudo, é publicado somente em 1982, ano em que vira um dos maiores sucessos editoriais da década. Vale salientar que Morangos Mofados foi considerado pela Revista Bravo, nos anos 2000, como uma das cem obras definitivas da literatura brasileira de todos os tempos.

Cena do Filme “Deu pra ti, anos 70”(1981) de Giba de Assis Brasil e Nelson Nadotti . No longa aparece o artigo de Nirlando Beirão. que também inspiraria a escrita de “Morangos Mofados.”

Cena do Filme “Deu pra ti, anos 70” (1981), de Giba de Assis Brasil e Nelson Nadotti. No longa aparece o artigo de Nirlando Beirão que também inspiraria a escrita de “Morangos Mofados”.

Já os anos 1980 começam com uma contradição intrínseca. Tempos de redemocratização, do fortalecimento dos novos movimentos sociais. Mas também anos de refluxos nos movimentos de liberação sexual, aos quais Caio dera visibilidade através de sua obra. Anos de recessão econômica e de descoberta do vírus HIV. Em sua arte, Caio expressava como ninguém aquele quadro onde o país aparece “explorado, humilhado, escroto, vulgar, maltratado, sem um tostão no bolso, cheio de dívidas, solidão, doença e medo”. Este clima tem reflexo em sua obra posterior. O triângulo das águas (1984) é considerada a primeira ficção da literatura brasileira onde aparece a palavra AIDS. Composta por três narrativas, vence a maior honraria da literatura brasileira: “o prêmio Jabuti” na categoria melhor livro de contos.

O próximo prêmio Jabuti viria em 1988 com a publicação daquela que é considerada sua obra mais madura: Os dragões não conhecem o paraíso. A solidão, o isolamento e ao mesmo tempo a ânsia pelo encontro no meio da noite urbana ilustram esta fase do autor. O livro é publicado na Inglaterra com uma excelente crítica de David Treece. Naquela mesma década, Caio, que já trabalhara como redator em revistas como Manchete, Pais e Filhos e POP,  escreve para as revistas  Gallery Around,  Leia Livros e diversos suplementos literários. Publica o livro infantil As frangas (1988) e redige quinzenalmente crônicas no jornal O Estado de São Paulo, escreve roteiros para TV e cinema. Ironicamente o autor intitula estas atividades como “coser para fora” ou “biscates culturais”. Trabalho duro para juntar dinheiro e poder se dedicar à paixão maior: a literatura.

O ator Silvero Pereira em “Uma flor de dama”(2015), adaptação livre do conto “Dama da Noite”, que integra o livro “Os dragões não conhecem o paraíso” (1988).

O ator Silvero Pereira em “Uma flor de dama”(2015), adaptação livre do conto “Dama da Noite”, que integra o livro “Os dragões não conhecem o paraíso” (1988).

No início da década de 1990, publica seu maior sucesso internacional. Onde andará Dulce Veiga? é traduzido para o inglês, alemão, francês, holandês e é indicado ao prêmio Laure-Bataillon de melhor romance internacional, ao lado de nomes como Paul Auster. O livro viria a ser adaptado em 2002 para o cinema sob a direção do amigo Guilherme de Almeida Prado. Ainda nos anos 1990, Caio Fernando Abreu volta à condição de estrangeiro para lançamentos em diversos congressos de literatura na Europa ao lado de escritores como Lygia Fagundes Telles e Rubem Fonseca. Em 1992 é convidado pela Maison des Écrivains Étrangers para uma bolsa de dois meses onde publica a novela “Bien Loin de mairenbad”, expressão máxima de sua elaboração sobre o fenômeno do deslocamento, do desterro. Contudo, o meteórico sucesso e as viagens internacionais são interrompidas por diversos sintomas que fazem o escritor voltar ao Brasil em 1994 e ser diagnosticado como portador do vírus da AIDS. O escritor tornaria tal acontecimento público através das crônicas, hoje clássicas, “Cartas para além do muro”, publicadas no jornal Estado de São Paulo.

O cartunista Chico Caruso desenha o entrevistado Caio Fernando Abreu durante programa Roda Viva nos anos 1990.

O cartunista Chico Caruso desenha o entrevistador Caio Fernando Abreu durante programa Roda Viva nos anos 1990.

Nos últimos anos de vida, Caio dedicou-se à revisão de suas obras, à compilação de suas crônicas, bem como à publicação do que ele mesmo chamou de um livro pré-póstumo. “Ovelhas Negras” (1996) é a coletânea de textos rejeitados que daria ao autor o seu terceiro prêmio Jabuti. Caio Fernando Abreu faleceu em 25 de fevereiro de 1996 deixando inacabado o livro “Estranhos estrangeiros”, que viria a ser organizado e publicado naquele mesmo ano por seus editores.

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