Arte e Cultura

Barbalha em festa: quando o sagrado e o profano se unem

Não é Olinda (PE), mas bem que podia ser. Nas ruas de Barbalha, à sombra dos imensos casarões, milhares de pessoas se divertem bebendo, dançando e paquerando, enquanto esperam a passagem do tronco que servirá para o hasteamento da bandeira de Santo Antônio, padroeiro da cidade. A festa, barulhenta e animada, seduz tanto os moradores Saiba mais

Por Redação Cariri • 23 de maio de 2018

Não é Olinda (PE), mas bem que podia ser. Nas ruas de Barbalha, à sombra dos imensos casarões, milhares de pessoas se divertem bebendo, dançando e paquerando, enquanto esperam a passagem do tronco que servirá para o hasteamento da bandeira de Santo Antônio, padroeiro da cidade. A festa, barulhenta e animada, seduz tanto os moradores quanto os forasteiros, revivendo anualmente uma antiga tradição. Desde o ano de 1928, o carregamento e hasteamento do Pau da Bandeira abre oficialmente os festejos dedicados ao santo casamenteiro, que acontecem em junho.

Nessa colorida mistura do profano ao sagrado, a primeira providência é a escolha do tronco de uma árvore de grande porte, cujo fim é receber a bandeira com a imagem do padroeiro. Depois de secar ao sol por alguns  dias, o mastro é transportado por centenas de devotos, que o levam nos ombros até o Cento da cidade, onde então é erguido diante da bela Igreja Matriz de Santo Antônio.

A festa começa no ultimo domingo de maio ou primeiro de junho e se estende até 13 de junho, Dia de Santo Antônio, quando se realizam os ritos celebrativos finais. Se por um lado o festejo é uma realização da Igreja e das elites locais, com a manutenção dos aspectos rituais da liturgia cristã e dos valores da sociedade rural, por outro, a imensa participação das camadas populares faz desta celebração uma ocasião para todos. Trabalhadores, pequenos comerciantes, donas de casa, biscates, mestres de obras, pintores de paredes, operários da construção: a afluência é grande, e a balbúrdia também.

 

PASSOS FESTIVOS

No contexto “instituído” da Festa de Santo Antônio, a abertura oficial consiste numa missa no início da manhã, seguida pelo desfile folclórico, que sai da Igreja Matriz percorrendo as principais ruas da cidade, sempre sob o alarido dos grupos de capoeiristas, reisados, maneiro-pau, lapinhas, quadrilhas, bandas cabaçais, guerreiros, cocos, mateus e até penitentes.

À frente destes vão as autoridades da festa: clérigos, representantes políticos e o “capitão do pau”. Nas calçadas e seguindo o desfile, o povo em geral. O comércio fervilha no Centro da cidade, onde se pode comprar de tudo, incluindo imagens de santos e bonecos pornográficos. Também é possível brincar em parques montados para crianças ou divertir-se nos vários prostíbulos disfarçados de bares.

Enquanto se desenvolvem os ritos instituídos, a alguns quilômetros dali, na Chapada do Araripe, os homens devotos se preparam para transportar nos ombros o gigantesco mastro de aproximadamente duas toneladas até a Igreja Matriz. O percurso é chamado de “cortejo” e se configura numa festa dentro da festa de Santo Antônio. Na preparação do cortejo, bebidas, comidas, brincadeiras, banhos e muita diversão têm lugar no meio do povo. As mulheres solteiras ou descasadas se apressam em retirar lascas da madeira para fazer chás e simpatias, no intuito de garantir bom casamento. Trata-se de um contraponto à ordem e à hierarquia do desfile folclórico e da missa, elementos de domínio da Igreja. Uma aliança harmoniosa, embora improvável, entre os desejos dos homens e as bênçãos dos céus.

Como bem observou o pesquisador Gilmar de Carvalho: “Talvez, por isso, Barbalha seja um lugar tão privilegiado, ameno, e doce, com sua rapadura preta, seus mestres da cultura, seus santos penitentes do Sítio Batateiras e água das fontes termais do Caldas. Talvez por isso, quando a festa passa, a cidade continue, no cotidiano, com seus encantos, sem precisar da festa o ano inteiro, como se bastassem os 13 dias para que a catarse e a purificação se dêem e, ainda, a paz volte a reinar às margens do Rio Salamanca”.

 

ANTIGA DEVOÇÃO

A devoção a Santo Antônio existe na região de Barbalha desde o século XVIII. No ano de 1778, o então proprietário da Fazenda Barbalha, capitão Francisco Magalhães Barreto e Sá, idealizou a construção de uma capela em louvor ao santo medieval português, nascido em Pádua. Erigida a capela, o crescimento de Barbalha se deu em torno desse pequeno núcleo, que pouco tempo depois foi elevado à categoria de vila, desmembrando-se do Crato. Já em 1876 Barbalha era considerada uma cidade.

 


Texto originalmente publicado na Edição 02 da CARIRI Revista. Fotografia: Rafael Vilarouca.

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